Imagem de um origami com a forma de um coração, feito de notas de cem euros

The O’Jays – “For The Love Of Money” (1973)

Perante a contagiante batida soul, o corpo começa a querer mexer-se. Isto vai ser bom, pensamos, e pouco vai importar a letra. Mas eis que ouvimos repetir trinta vezes a palavra “dinheiro”, e, logo de início, fica bastante claro de que os O’Jays querem falar do tema. «Ouçam, pessoal», dizem eles, para nos captarem a atenção: «Algumas pessoas têm de o ter / Algumas pessoas precisam mesmo dele». Quem não?, perguntamos. Certo, respondem eles. A questão é aquilo que o dinheiro pode fazer connosco.

Há quem queira fazer coisas boas com o dinheiro, é verdade, mas isso das boas intenções não chega. Segundo cantam os O’Jays, existe um poder maléfico escondido no dinheiro, neste caso representado pelo «todo-poderoso dólar». Pelo amor a essas notas verdinhas, «as pessoas roubam a própria mãe», «roubam o próprio irmão», «mentem», «enganam», «não se importam com quem magoam». No entanto, esta maldade toda não nasce com as pessoas; há um culpado maior: «O dinheiro é a raiz de todo o mal / Faz coisas estranhas a algumas pessoas». Até pode levá-las a uma espécie de loucura. «Tenho de o ter, preciso mesmo dele», repetem alguns, constantemente, tal como no refrão da canção; como se o dinheiro fosse uma droga.

O poder do dinheiro é tão grande que é capaz de alterar a nossa forma de pensar, a nossa forma de ser. Por isso, os O’Jays relembram, uma e outra vez: «Não deixem que o dinheiro vos engane./ Não deixem que o dinheiro vos mude.»

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Michael Kiwanuka e Tom Misch – “Money” (2019)

No videoclip, um funcionário de supermercado lava os corredores, empilha os produtos, verifica os prazos de validade, passa as compras na caixa registadora. Tal como os restantes empregados, com quem se diverte durante as pausas do trabalho, tem ar de sonhar com um futuro diferente. E eis que… Não querem ver que o funcionário de ar entristecido, afinal, era um milionário disfarçado? Pois era. E, numa manobra de marketing, eis que o ricaço Michael aparece ao lado do sócio (Tom Misch, o coautor da canção), já no seu fato retro, a posar para as câmaras com um cheque de 500 dólares em nome de “Vários Empregados”. Tão generosos… O dinheiro, a repartir por tantos, quase parece uma esmola. Indiferente, o milionário Michael passeia-se agora pelos corredores que limpou durante uns dias. Enquanto ele atira notas de um saco de plástico, os ex-colegas têm um ar desiludido. Parecem zangados por ele os ter enganado. Por ele ter, de certa forma, gozado com a vida deles.

Na parede do escritório de Michael está emoldurada a capa de uma revista com a sua fotografia: «A pessoa mais bem-sucedida de sempre!», exclama o título. Parte da letra parece explicar como se amealhou tamanha fortuna: «Acho que quero tudo só para mim. Não vês o meu anel de diamantes? Ouro de 20 mil quilates.» E, no entanto, todo esse dinheiro não parece ter-lhe trazido felicidade. Será que o dinheiro está a matar o amor? A letra tenta dizê-lo de várias formas: «o dinheiro mente», «o dinheiro vai-se», «o dinheiro não consegue encobrir as mentiras», «o dinheiro tenta arruinar tudo». Quem estiver ao lado de Michael, estará por causa dele ou por causa do dinheiro que ele tem? «Podia comprar um avião, levar-te a voar pelo mundo inteiro. Miúda, quero que sejas minha. Não podes dar-me o teu coração? Eu dar-te-ia cada centavo.»

Sentado à sua secretária, após contar maços de notas com ar entediado, o milionário vê as fotografias tiradas com os funcionários do supermercado. Teria sido feliz naquele tempo que passou ao lado deles? Ei-lo a regressar ao supermercado, desta vez na sua imaginação, para confrontar-se com a sua imagem, agora impressa num pacote de leite: «Desaparecido. Por acaso viu Michael Kiwanuka?», lê-se na legenda. É como se o dinheiro tivesse feito desaparecer o Michael original; ele agora é outro. «O dinheiro pode fazer um homem chorar», confessa.

Enfim, nada que não se resolva com mais umas notas atiradas pela janela. O dinheiro, pelo menos, serve para disfarçar a dor interior. «Gasto sem sentir qualquer vergonha. Gasto, porque estou completamente sozinho.» E lá vêm mais uns passos de dança ao lado de Tom, mais uma voltinha nos seus carros de luxo, mais um whisky caro, mais uma ostentação de riqueza que humilha o ex-colega do supermercado. Até posso atirar coisas das prateleiras para o chão, pensa e faz o milionário Michael; os outros limpam.

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Boz Scaggs – “Desire” (2006)

E agora, num tom suave, ouçamos uma história sobre desejo. Não por alguém, mas pelas coisas que o dinheiro pode comprar. «Podias ser feliz, mas sentes-te tão mal / Por causa do que nunca tiveste / Porque não consegues olhar para nada sem o desejar.» E podíamos ser nós a pessoa a olhar para a vitrine, a querer o que ela vê, sem percebermos que nada daquela montra «nos toca de verdade, nos traz risos ou rosas, nos acaricia o cabelo com ternura». A canção diz-nos que alguém se está a afastar do seu amor por estar a ceder à cobiça. «Estás a viver num sonho», diz Boz Scaggs. «Há sempre alguma cena em que achas que tens de entrar. Ou uma nova sensação para te inebriar.»

Não falta por aí gente a tentar vender fantasias, mas talvez este querer inextinguível não seja uma fatalidade. «Quem foi que te disse / Que tens de ter tudo o que vês?» A alternativa é olharmo-nos ao espelho. Quem vemos ali refletido? Que queremos realmente da vida? O narrador da canção diz à pessoa em frente ao espelho que é tempo de arregaçar as mangas. É preciso meter as mãos na massa, fazer algo que tenha sentido para si mesma, algo que possa «encher os teus braços e o teu coração de alegria».

Vamos a isso?

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