Antecipamos aqui, no início do ano, que os Certificados de Aforro iriam continuar em 2026 a pagar uma remuneração em torno de 2%, ainda assim suficiente para superar por uma margem confortável o retorno que é oferecido pelos tradicionais depósitos a prazo. Esta última é uma constatação que deverá perdurar por bastante tempo, mas a primeira previsão não se confirmou.
A guerra no Irão, que teve início no final de fevereiro, veio baralhar as perspetivas para a evolução da política monetária dos bancos centrais, o que está a ter reflexo nas taxas de juro que servem de referência para determinar o retorno dos produtos financeiros de baixo risco.
Se, no início do ano, era consensual que o Banco Central Europeu (BCE) deveria deixar a taxa dos depósitos estacionada nos 2% ao longo de 2026, menos de seis meses depois, o banco central já efetuou uma subida de 25 pontos base na taxa de referência e as perspetivas apontam para que possa repetir este agravamento nos próximos meses.
Ao contrário da maioria dos bancos centrais, o BCE optou por atuar de forma preventiva, por forma a não repetir o erro cometido em 2021/2022, quando deixou a inflação disparar sem agravar a política monetária, que era na altura extremamente acomodatícia, com as taxas de juro em terreno negativo.
Apesar de a cotação do petróleo já ter baixado da fasquia dos 100 dólares e existir uma perspetiva mais firme de cessar-fogo no Médio Oriente, os responsáveis do BCE transmitiram a mensagem de que estão preparados para decidir mais subidas de juros caso persistam as pressões inflacionistas.
Taxas Euribor em alta
Este posicionamento teve reflexo nas taxas do mercado interbancário, que acentuaram o movimento ascendente das últimas semanas. A Euribor a três meses está a acentuar a trajetória ascendente e atingiu nos últimos dias o nível mais elevado do último ano. Superou os 2,4%, indicando uma elevada probabilidade de mais uma subida de 25 pontos base na taxa dos depósitos do BCE até setembro.
Nos prazos mais alargados, a subida das Euribor tem sido mais branda, mas também aponta para um agravamento da política monetária do BCE. A Euribor a seis meses situa-se nos 2,6%, descontando na totalidade uma nova subida de 25 pontos base na taxa de juro do BCE até ao final do ano. A Euribor a 12 meses está nos 2,75%, sinalizando mais dois aumentos de juros do banco central na Zona Euro.
O agravamento destas taxas, que servem de indexante para os créditos e produtos de poupança, traduz-se em más notícias para quem contraiu empréstimos e um desenvolvimento positivo para os aforradores. Embora não se perspetivem variações significativas nas Euribor, tal como sucedeu em 2022 e 2023, estes aumentos representam um aperto adicional para as famílias endividadas e um aumento dos rendimentos para quem tem capacidade de acumular poupança.
Taxa dos Certificados volta a subir em julho
Os Certificados de Aforro são das opções de baixo risco mais populares entre os portugueses. Estes produtos de poupança do Estado têm oferecido retornos magros nos tempos mais recentes, embora a rendibilidade tenha vindo a melhorar nos últimos meses.
A taxa base dos Certificados de Aforro subiu em junho pelo terceiro mês seguido, para 2,215%, o que compara com 2% em março. O salto em julho deverá ser mais significativo, acompanhando a evolução da Euribor a 3 meses, que serve de referência para determinar a remuneração deste produto.
A taxa base dos certificados é calculada mensalmente no antepenúltimo dia útil do mês, para vigorar durante o mês seguinte, com base na média aritmética dos valores da Euribor a três meses observados nos dez dias úteis anteriores. Caso este indexante se mantenha nos próximos dias, a rendibilidade dos Certificados de Aforro vai ser fixada em redor de 2,4% em julho.
A taxa ficará assim já muito perto do limite máximo de 2,5%, que não deverá demorar muito tempo a ser atingido caso se confirmem as expectativas que estão refletidas nos valores registados pelas Euribor a seis e 12 meses. Será o nível mais elevado desde março de 2025, mês que culminou um período alargado em que a remuneração esteve estacionada nos 2,5%. Foi neste nível que o Governo português decidiu, em junho de 2023, colocar o teto à rendibilidade dos Certificados de Aforro da série F, o que compara com o limite de 3,5% da anterior Série E.
Inflação “come” remuneração
Este corte substancial no retorno não desvaneceu de forma significativa o apetite das famílias portuguesas pelos Certificados de Aforro. Nos primeiros cinco meses do ano foram aplicados 2,25 mil milhões de euros em termos líquidos, elevando o stock total para um valor recorde acima de 42 mil milhões de euros. As subscrições líquidas atingiram 756 milhões de euros em maio, o que representa o volume mensal mais forte em três anos e demonstra o regresso em força do interesse dos portugueses por estes produtos.
Em todo o ano de 2025, entraram 5,4 mil milhões de euros, substancialmente acima dos 684 milhões de 2024. O recorde de subscrições foi atingido em 2023 (14,4 mil milhões de euros), precisamente o ano em que foi imposto o limite máximo de 2,5% à remuneração.
Este fluxo estável de subscrições líquidas de Certificados de Aforro é explicado sobretudo pela falta de alternativas com potencial de retorno atrativo no universo dos produtos de risco muito baixo. As famílias portuguesas, tradicionalmente conservadoras, continuam a privilegiar os depósitos a prazo, onde já têm aplicados mais de 200 mil milhões de euros.
O aumento contínuo dos volumes em depósitos tem sido uma constante, apesar da rendibilidade muito escassa que os bancos estão a oferecer aos clientes para remunerar os depósitos. A taxa média situou-se em 1,44% em abril, sem alterações significativas no último ano.
Prémio no longo prazo
Apesar de os Certificados de Aforro apresentarem uma rendibilidade já cerca de 1 ponto percentual superior aos depósitos, estes produtos de poupança continuam a registar taxas reais negativas. A inflação em Portugal supera a taxa dos Certificados de Aforro desde março e, no passado mais recente, têm sido muito poucos os meses em que tal não se verificou. Uma tendência de retorno real negativo que é ainda mais marcada no caso dos depósitos, tal como é percetível no primeiro gráfico deste artigo.
Apesar deste fator negativo, os Certificados de Aforro têm um trunfo que reforça a sua atratividade e permite compensar o nível reduzido da taxa base. Estes produtos de poupança do Estado pagam prémios de permanência que beneficiam os aforradores de longo prazo.
O prémio começa nos 0,25 pontos percentuais (do segundo ao quinto ano), passa para 0,5 pontos percentuais do 6.º ao 9.º ano, 1 ponto percentual no 10.º e 11.º ano, 1,5 pontos percentuais no 12.º e 13.º ano e chega aos 1,75 pontos percentuais (no 14.º e 15.º ano). À taxa base soma-se este prémio com uma periodicidade trimestral, o que pode elevar a remuneração para um patamar interessante nas aplicações de longo prazo.
Numa altura em que a inflação continua a corroer o poder de compra das famílias e os depósitos persistem com remunerações reduzidas, os prémios de permanência continuam a ser o principal argumento dos Certificados de Aforro para os investidores de longo prazo que procuram produtos financeiros de risco muito baixo.
Leia ainda: Simulador de Certificados de Aforro: Quanto rende o investimento?