Como alguém diz logo no primeiro episódio da minissérie documental «Hollywood Hustler: Glitz, Glam, Scam» (2025), “muitas pessoas ficaram cegas pelos dólares. Mas isso é fácil [ficar]”. Os burlões sabem como explorar esta fraqueza. O isco não podia ser mais simples: “tenho aqui uma coisa que vai mudar a tua vida”. E eis que se apresenta um investimento que garante um lucro incrível, verdadeiramente inacreditável. Uma coisa demasiado boa para ser verdade? Pois, talvez… Mas, e se for mesmo verdade, passa-se ao lado de algo que só acontece uma vez na vida? Umas 586 pessoas não perderam a oportunidade de investir no esquema imaginado por Zach Horowitz. Algumas perderam todas as poupanças. Outras ficaram sem milhões de dólares.
Um rapaz muito carismático (e rico)
O primeiro dos três episódios da série serve para ficarmos a conhecer Zach. Segundo os testemunhos de amigos e da ex-mulher, ele tinha uma personalidade magnética. Também ajudava a compor o quadro que a mãe de Zach se tivesse casado pela segunda vez com um homem de negócios bem-sucedido. Tinham uma vida confortável, e Zach ganhou a reputação de ser o miúdo rico do bairro. Era uma espécie de celebridade local e, na faculdade, tornou-se o líder de uma irmandade de rapazes; o seu bando do ginásio, das festas, da bebida, de andar atrás de raparigas. Todos queriam ser como Zach, que conduzia um belo carro, morava numa mansão, tinha casa de férias…
O grande sonho de Zach era ser uma figura de Hollywood. Antes, aproveitando o seu carisma, lançou-se no mundo dos negócios, abrindo uma loja de batidos saudáveis. Convidou os amigos do bando para a nova aventura, claro, dando-lhe cargos de gestão com ordenados chorudos. Nenhum deles tinha experiência na indústria alimentar. Ninguém sabia de onde vinha o dinheiro para pagar as despesas. Mas Zach assegurava que um executivo da Starbucks gostava do conceito; melhor ainda, gostava tanto de Zach que se tornara o seu mentor. A ligação a esse bilionário era o passaporte para um futuro endinheirado.

Vida igualzinha às estrelas de cinema
Quando Zach resolveu fechar a loja de batidos, sem dar grandes explicações, surgiu imediatamente o convite para integrar a empresa de capital de risco fundada pelo seu mentor. Os amigos voltaram a não estranhar; era o tipo de coisas que acontecia a Zach, assim do nada. Feita a mudança para Los Angeles, o jovem lançou-se em audições, mas apenas conseguiu arranjar papel num anúncio para a igreja da cientologia. O caminho para o estrelato, pensou, passaria por fundar a própria produtora: ser ele a financiar os filmes em que seria o ator principal.
Ninguém voltou a estranhar que fizesse uma produtora. A imagem projetada por Zach Horowitz era a de um estilo de vida invejável. Casara com a primeira namorada, a típica loura cobiçada por todos. E ostentava relógios caros, roupa de marca, carros desportivos. Tinha uma mansão com piscina, dava festas glamorosas, fazia viagens exóticas… Chamou One in a Million à sua produtora, sedeada num escritório pomposo e com Mercedes pretos para as deslocações dos sócios. De repente, o ator medíocre passava a ser o alvo das atenções. Os podcasts convidavam-no para ouvir a história do seu sucesso. Aparentemente, Zach Horowitz gastava milhões. E de onde vinha, afinal, esse dinheiro?
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Se me deres isto… recebes aquilo de lucro
O segundo episódio aprofunda o esquema de pirâmide que conseguiu enganar Hollywood. Na obsessão de atingir o estrelato, Zach seria o principal protagonista de alguns thrillers saídos da sua companhia. Mas, na verdade, o seu grande papel passava por aproveitar a imagem fictícia que construíra em redor de si mesmo. Dizia-se próximo de bilionários influentes e gabava-se de ter acesso privilegiado a executivos-chave nas empresas de entretenimento. E assim, aproveitando a fama de empresário de sucesso, vestira a pele de burlão para ir bater à porta dos velhos colegas. Tinha para lhes oferecer uma oportunidade de investimento num filme: se lhe dessem 37 mil dólares, garantia a devolução do dinheiro com um lucro de nove mil dólares.
O dinheiro, claro está, começou a entrar. E, como aquele lucro inimaginável realmente aparecia, a notícia foi-se espalhando. Um grupo de antigos colegas de Zach, ligados ao mundo financeiro, até criou uma empresa cujo único objetivo era angariar dinheiro para os projetos da One in a Million. Surgiram cada vez mais investidores. Gente rica, desejosa de ficar mais rica, hipnotizada pela atrativa taxa de retorno. Os que entravam no esquema serviam para municiar o dinheiro com que se pagava aos investidores anteriores. O negócio parecia tão seguro que muitos passaram a reinvestir totalmente os lucros ganhos; ou seja, o dinheiro nem saía do lado de Zach.
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Quero ser o novo Lobo de Wall Street
A vida de Zach Horowitz assemelhava-se cada vez mais à do seu ídolo: Jordan Belfort, o corretor acusado de fraude, cuja vida inspirou o filme «O Lobo de Wall Street». Nas redes sociais, Zach continuava a vender a ilusão de viver nas passadeiras vermelhas; nos bastidores, organizava festas com strippers, drogas e álcool para os principais investidores. O estratagema talvez passasse por continuar a fingir até chegar à meta final. Zach ainda acreditava que poderia ser uma estrela de cinema. Nesse dia, ao receber o primeiro cheque de milhões, conseguiria pagar tudo o que devia aos seus investidores.
O resto da série mostra a ruína de uma burla que durou oito anos e angariou mais de 650 milhões de dólares. E revela como todo o brilho e glamour da vida de Zach era, na verdade, uma encenação. Tudo valia, desde contratos falsificados a mensagens forjadas. E eis que se volta à pergunta inicial de todos os esquemas de pirâmide: ninguém desconfiou? Aquele lucro extraordinário não seria, na verdade, demasiado bom para ser verdade?
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