Entre o dilema de amortecer o impacto da guerra na atividade económica da Zona Euro e responder à pressão nos preços devido à escalada das cotações do petróleo, o Banco Central Europeu (BCE) deixou bem claro que vai optar por agravar as taxas de juro para travar a subida da inflação. A intenção ficou inequívoca na semana passada (30 de abril), na segunda reunião desde o início da guerra em que o banco central manteve a política monetária.

Com o conflito no Médio Oriente a manter as cotações do petróleo acima dos 100 dólares por barril, estão a intensificar-se os receios de estagflação na economia global, em particular na Europa, que persiste bastante vulnerável a um choque energético. É um cenário adverso, pois traduz um período em que a atividade económica está estagnada e a inflação situa-se em níveis elevados e acima da média histórica.

Há dois motivos fortes para o BCE, depois de um período em que avaliou como evoluiu a guerra no Irão, transmitir agora uma mensagem clara de que vai subir os juros. A estabilidade dos preços na Zona Euro é o principal mandato do BCE e o banco central não quer arriscar repetir o erro que cometeu em 2021/2022, quando não subiu os juros por considerar que a subida nos preços do petróleo era transitória.

Tem vindo a desvanecer a expectativa inicial de que o conflito no Médio Oriente teria curta duração e que a disrupção no abastecimento de petróleo seria esporádica. A guerra já entrou no terceiro mês e, apesar do cessar-fogo por tempo indeterminado entre os Estados Unidos e o Irão, o Estreito de Ormuz permanece praticamente encerrado, impedindo o transporte de cerca de um quinto do petróleo consumido a nível mundial.

Para pressionar o Irão a aceitar um acordo que inclua o fim do programa nuclear do país, Donald Trump pretende manter a estratégia de bloquear o Estreito de Ormuz, pelo que são diminutas as perspetivas de que as cotações do petróleo baixem da fasquia dos três dígitos de forma sustentada nas próximas semanas.

Por quanto mais tempo perdurar este impasse, mais intenso e duradouro será o impacto na inflação da Zona Euro, pelo que os responsáveis optaram por assinalar desde já que estão prontos para subir os juros na reunião marcada para 11 de junho. A mensagem foi transmitida de forma evidente por Christine Lagarde, presidente do BCE, mas também por outros membros do Conselho do BCE, com destaque para Joachim Nagel, presidente do poderoso Bundesbank (banco central alemão).

Inflação em máximos e economia a travar

Os indicadores económicos divulgados nas últimas semanas suportam esta abordagem do BCE, de primeiro agir com cautela e agora avisar que vai subir as taxas de juro se não se verificar uma reviravolta no conflito no Médio Oriente. Isto porque a economia europeia está a abrandar de forma não muito marcada, enquanto a inflação evolui em alta, mas também sem motivos para alarme.

O PIB da Zona Euro cresceu 0,1% em cadeia no primeiro trimestre deste ano, uma travagem face à expansão de 0,2% registada nos três meses anteriores. Os indicadores PMI, que visam capturar a evolução da atividade económica, já entraram em terreno negativo em abril, sugerindo uma inversão na tendência favorável da economia europeia que se verificou nos primeiros meses do ano.

No que diz respeito à evolução dos preços, a inflação avançou para 3% em abril (2,6% em março), o que corresponde ao nível mais elevado desde agosto de 2023. Uma subida impulsionada sobretudo pelo agravamento dos preços dos bens energéticos (+10,9%), sendo que não é ainda visível um contágio aos preços dos outros bens e serviços. A inflação subjacente, que exclui alimentos e energia, até baixou uma décima para 2,2% em abril.

Mas será inevitável que os efeitos secundários da escalada dos preços do petróleo se traduzam num agravamento dos vários indicadores de inflação nos próximos meses. Os cenários desenhados pelo BCE para avaliar o impacto da guerra na economia da Zona Euro são bem explícitos de como o efeito pode ser pronunciado.

No exercício publicado em março, o banco central assumiu como cenário base uma subida da inflação para 2,6% este ano e regresso aos 2% em 2027, com o crescimento do PIB a abrandar para 0,9% este ano (1,5% em 2025). Esta projeção contempla uma cotação do petróleo numa média em torno de 80-85 dólares em 2026, masse os preços da matéria-prima persistirem nos níveis atuais de três dígitos, as previsões do BCE são bem mais sombrias:

  • O cenário adverso prevê um agravamento da inflação para 3,5% este ano e alívio para 2,1% em 2027, com o PIB a crescer apenas 0,6% em 2026 e 1,2% em 2027.
  • O cenário severo antecipa uma subida da inflação para 4,4% em 2026 e 4,8% no próximo ano, com o PIB a crescer apenas 0,4% este ano e 0,9% no próximo.

Três subidas de juros em 2026?

Perante esta ameaça de repetição do surto inflacionista de 2022, os economistas apoiam o agravamento da política monetária por parte do BCE, que tem os juros estáveis desde meados de 2025. Mas nem todos, pois vários economistas consideram que será um erro, uma vez que este é um choque do lado da oferta que os bancos centrais não conseguem resolver com subidas de juros.

Ao endurecer a política monetária, o BCE pretende contribuir para arrefecer a procura de modo a aliviar a pressão nos preços dos bens e serviços. Contudo, defendem estes economistas, a procura já será constrangida de forma pronunciada pela escalada dos preços do petróleo e contágio a outros bens e serviços. Daí que consideram não existir a necessidade de o BCE atuar, pois contribuirá para uma travagem ainda mais forte da atividade económica.

Sendo nesta altura muito provável que na reunião de 11 de junho o BCE aumente a taxa dos depósitos em 25 pontos para 2,25%, as próximas decisões de política monetária vão ser definidas por este equilíbrio entre a evolução da inflação e dos próximos indicadores de atividade económica. O consenso das estimativas dos economistas aponta para pelo menos duas subidas de 25 pontos base em 2026, enquanto os investidores já estão a prever pelo menos três agravamentos. A primeira já em junho e mais duas nas outras quatro reuniões que restam até ao final do ano.

A evolução das taxas Euribor nos últimos dias valida este cenário que está a ser antecipado pelos investidores. O indexante com maturidade a 3 meses está nos 2,2% (uma subida de juros), a Euribor a 6 meses nos 2,52% (duas subidas de juros) e no prazo a 12 meses avançou para 2,85% (entre três a quatro subidas de juros).

Crédito mais caro e poupanças de baixo risco mais atrativas

A Euribor a 12 meses subiu para o nível mais elevado desde o final de 2024, altura em que a taxa dos depósitos do BCE estava nos 3%, mas com trajetória descendente. Este indexante aumentou mais de 50 pontos base (0,5 pontos percentuais) desde o início da guerra, mostrando que o impacto da política monetária do BCE é sentido muito antes do banco central adotar e implementar as suas decisões.

As taxas com maturidades mais curtas registam variações menos acentuadas, mas também estão claramente numa trajetória de alta, o que tem implicações significativas nos custos de financiamento das famílias e empresas, mas também um impacto favorável nos retornos dos produtos de poupança de baixo risco e que estão ligados aos juros do BCE.

Um crédito à habitação de 200 mil euros, com prazo de 30 anos, spread de 1% e que seja revisto tendo em conta a taxa atual da Euribor a 6 meses, vai pagar uma prestação mensal de 900 euros, o que representa um agravamento de 45 euros por mês. Se forem confirmadas as atuais perspetivas de agravamento de juros, na revisão dentro de seis meses a subida da prestação poderá ser de dimensão semelhante.

A rendibilidade dos Certificados de Aforro também já reflete esta perspetiva de subida de juros do BCE. A remuneração base destes produtos de poupança do Estado, onde as famílias portuguesas têm mais de 40 mil milhões de euros aplicados, vai subir para 2,195% nas subscrições em maio, o que compara com a taxa inferior a 2% que vigorava em agosto do ano passado. Para uma poupança de 50 mil euros a 10 anos, esta diferença pode significar um aumento superior a 10% na remuneração total para 12.260 euros (sem considerar impostos e prémios de permanência).

Estas simulações são meramente ilustrativas de como as perspetivas para a evolução da política monetária já estão a influenciar os custos e rendimentos das famílias. É necessário ter também em atenção que estas perspetivas têm oscilado bastante desde o início da guerra, sendo provável que permaneçam voláteis. O fim súbito do conflito no Médio Oriente até pode levar a que o BCE nem mexa nas taxas de juro, enquanto o agravamento do choque petrolífero pode pressionar o banco central a ser ainda mais agressivo do que os investidores e economistas estão atualmente à espera.

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