O risco cambial é um fator ignorado por muitos investidores. E, ao mesmo tempo, um dos que mais impacto pode ter nos resultados finais. Basta investir fora da Zona Euro para ficar exposto a oscilações que nada têm a ver com a qualidade do ativo escolhido.
Mesmo quando um investimento tem um bom desempenho no mercado, a variação da moeda pode reduzir ganhos, anular rendimentos ou agravar perdas. Por isso, perceber o que é o risco cambial e como funciona é essencial para quem investe em ativos como ações, matérias-primas, fundos ou ETF internacionais.
Neste artigo, saiba o que é o risco cambial, como afeta os investimentos, que exemplos se aplicam aos investidores portugueses e que estratégias podem ajudar a reduzir o impacto na carteira.
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O que é o risco cambial?
O risco cambial resulta da variação da taxa de câmbio entre duas moedas. No caso de um investidor português, surge sempre que aplica dinheiro em ativos cotados numa moeda diferente do euro.
Na prática, o resultado do investimento depende de dois fatores distintos: a evolução do ativo no mercado e a evolução da moeda face ao euro. Se um deles jogar contra si, o retorno final pode ser muito diferente do esperado.
Este risco não depende da empresa, do fundo ou da qualidade do investimento. Depende apenas do comportamento das moedas, o que o torna mais difícil de antecipar e controlar.
Por exemplo, se um investidor português aplicar 10.000 euros em ações norte-americanas e o euro valorizar face ao dólar, o investimento poderá valer menos em euros, mesmo que as ações tenham subido. O inverso também é verdadeiro: se o euro desvalorizar, o valor em euros do investimento aumenta.
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Porque é que as moedas flutuam?
As moedas mudam de valor diariamente, refletindo a força económica e política de cada país. Entre os principais fatores que influenciam as taxas de câmbio estão as decisões dos bancos centrais sobre taxas de juro, os níveis de inflação e a estabilidade económica e política.
Taxas de juro mais elevadas tendem a atrair capital e a valorizar a moeda. Pelo contrário, juros baixos e inflação elevada pressionam a moeda. Crises políticas, guerras ou recessões também afastam investidores e aumentam a volatilidade.
É esta combinação de fatores que está na origem do risco cambial enfrentado por investidores e empresas.
Porque é que o risco cambial afeta diretamente os investidores
Sempre que investe fora da Zona Euro, está a assumir uma exposição adicional. Não apenas ao ativo, mas também à moeda em que esse ativo está cotado.
Ao investir em ações americanas, fica exposto ao dólar. Em ações japonesas, ao iene. O mesmo acontece com matérias-primas como o ouro ou o petróleo, cotadas maioritariamente em dólares. Ainda assim, o ouro tem dinâmicas próprias que vão além da variação cambial.
Mesmo que nunca troque fisicamente euros por outra moeda, o efeito existe. Manifesta-se no momento em que avalia a rendibilidade ou converte o investimento para euros.
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Exemplo prático: Investir em ações americanas em dólares
Imagine que aplica 10.000 euros num conjunto de ações americanas. No momento do investimento, a taxa de câmbio é de 1 euro para 1,10 dólares. O investimento corresponde, de forma simplificada, a 11.000 dólares.
Ao fim de um ano, as ações valorizam 10% e passam a valer 12.100 dólares. À primeira vista, é um excelente resultado. No entanto, nesse período, o euro fortalece face ao dólar e a taxa passa para 1 euro para 1,20 dólares.
Quando converte o valor para euros, os 12.100 dólares correspondem agora a cerca de 10.083 euros. O ganho existe, mas é muito inferior ao esperado. Com uma variação cambial mais acentuada, o resultado poderia até ser negativo, apesar da subida das ações.
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Quando o risco cambial joga a favor do investidor
O risco cambial não é sempre um inimigo. Em determinados períodos, pode funcionar como um aliado. Se o investidor tiver ativos em dólares e o dólar valorizar face ao euro, o retorno em euros aumenta, mesmo que o mercado fique estável.
Foi o que aconteceu em vários momentos da última década, beneficiando investidores europeus com exposição aos mercados americanos. O problema é que este efeito é imprevisível. Pode ajudar ou prejudicar, razão pela qual não deve ser encarado apenas como estratégia, mas como risco a gerir.
Em que investimentos é mais relevante?
O impacto do risco cambial varia consoante o tipo de ativo e o horizonte temporal. Em ações, pode ser diluído por movimentos fortes do mercado, mas continua presente. Em obrigações, tende a ser ainda mais relevante, já que os retornos esperados são mais baixos.
Nos fundos e ETF globais, o risco depende da exposição geográfica e das moedas envolvidas. Um fundo mundial pode ter um peso significativo em dólares, mesmo estando denominado em euros.
O erro comum: Ignorar o risco cambial na análise do investimento
Muitos investidores focam-se apenas na rentabilidade passada e no risco de mercado. O risco cambial fica em segundo plano ou é simplesmente ignorado.
Este erro só se torna evidente quando o investimento é avaliado em euros ou quando chega o momento de vender. Em objetivos com prazos definidos, como a entrada para uma casa ou um complemento de rendimento, este impacto pode ser decisivo.
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Como mitigar este risco na carteira de investimentos
Não é possível eliminar totalmente o risco cambial sem abdicar da diversificação internacional. Mas é possível reduzi-lo. Uma das estratégias passa por escolher instrumentos com cobertura cambial, que procuram neutralizar o impacto da variação da moeda.
Outra abordagem é a diversificação geográfica e cambial, reduzindo a dependência de um único câmbio. Também é essencial ajustar a exposição ao perfil de risco e ao horizonte temporal do investimento.
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O risco cambial no longo prazo: Mito ou preocupação real?
Há quem defenda que, no longo prazo, o risco cambial se anula. A realidade é mais complexa.
As moedas não seguem ciclos previsíveis nem têm obrigação de regressar a níveis anteriores no momento em que o investidor precisa do dinheiro. Para quem tem objetivos concretos e datas definidas, o risco cambial continua a ser relevante.
No longo prazo, o mais importante é garantir que a exposição cambial faz sentido dentro da estratégia global e que o investidor está preparado para lidar com oscilações sem decisões precipitadas.
O que deve reter antes de investir fora do euro
O risco cambial não é um detalhe técnico reservado a investidores experientes. É uma variável central em qualquer investimento internacional.
Antes de investir, confirme sempre a moeda dos ativos, o peso dessa exposição na carteira e se está confortável com a volatilidade associada. Investir fora da Zona Euro pode trazer oportunidades, mas só acrescenta valor quando os riscos são bem compreendidos.
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Perguntas frequentes
Sim. Um investimento pode ter um bom desempenho no mercado e, ainda assim, gerar perdas quando convertido para euros. Isso acontece se a moeda estrangeira desvalorizar face ao euro durante o período do investimento. Nestes casos, o ganho obtido com o ativo pode ser reduzido ou totalmente anulado pela variação cambial. É por isso que o risco cambial deve ser analisado em conjunto com a rentabilidade esperada, sobretudo em investimentos internacionais com prazos definidos.
Depende. Um ETF internacional expõe o investidor ao risco cambial sempre que os ativos subjacentes estão cotados noutra moeda que não o euro. No entanto, existem ETF com cobertura cambial, que procuram neutralizar o impacto das flutuações da moeda. Estes produtos reduzem a volatilidade cambial, mas têm custos adicionais. A escolha entre ETF com ou sem cobertura deve ter em conta o horizonte temporal, o perfil de risco e os objetivos do investimento.
O risco cambial tende a ser mais crítico quando o investimento tem um prazo definido. No curto prazo, variações abruptas da moeda podem ter um impacto significativo no resultado final. No longo prazo, embora algumas flutuações se possam compensar, não há garantias de neutralização. As moedas não seguem padrões previsíveis. Por isso, mesmo em estratégias de longo prazo, o risco cambial deve ser acompanhado e integrado na gestão global da carteira.
Para avaliar a exposição ao risco cambial, deve analisar a percentagem da carteira investida em ativos fora da Zona Euro e identificar as moedas envolvidas. Uma carteira concentrada numa única moeda estrangeira, como o dólar, está mais vulnerável a oscilações cambiais. A diversificação geográfica e monetária ajuda a reduzir esse risco. Também é importante perceber se os objetivos financeiros permitem tolerar variações no valor em euros ao longo do tempo.
Não. A cobertura cambial reduz o impacto das variações da moeda, mas não elimina todos os riscos associados ao investimento. Além dos custos adicionais, a cobertura pode limitar ganhos quando a moeda estrangeira valoriza. Além disso, não protege contra o risco de mercado do ativo subjacente. Por isso, a cobertura cambial deve ser vista como uma ferramenta de gestão de risco e não como uma solução universal aplicável a todos os investidores.
