Imagem de um microfone

Zeca Afonso – «Menino do bairro negro» [1963]

Nem tudo o que parece é. Neste caso, o título da canção de Zeca Afonso (e até o painel que aparece no videoclip) parece remeter-nos para um bairro de negros. Mas, como o próprio afirmou em entrevista, publicada no livro Livra-te do Medo – Estórias e Andanças de Zeca Afonso, esta negritude dizia respeito “à condição de meninos explorados”. A inspiração para a letra sobre este bairro de meninos pobres, mal trajados, surgira de uma visita ao bairro do Barredo, no Porto. “Tudo aquilo me chocou de uma maneira espantosa”, evocou Zeca na mesma entrevista. “Lembro-me de ter visto os meninos que pululavam por aquelas ilhas. Foi uma coisa que eu pensei que só existisse nos filmes…” Estava-se, então, em tempo de ditadura e ainda com Salazar ao leme do regime. Aos meninos do bairro negro, «onde não há pão» e, consequentemente, não há sossego, propunha-se que buscassem esperança e sorrisos em coisas simples. Olhar o sol que nasce. Ver o mar. Cantar.

Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há de um dia cantar esta canção

Mas teriam de esperar uns anos para a cantar em liberdade, pois a censura proibiria o tema, juntamente com «Os vampiros», ambos incluídos no álbum «Baladas de Coimbra».

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Sérgio Godinho – «O galo é o dono dos ovos» [1978]

Após o 25 de Abril de 1974, Sérgio Godinho já podia cantar livremente que, mesmo após a mudança de regime, um galo continuava a ser o dono dos ovos. Ainda que não fosse ele a pô-los… Este galo metafórico é também o dono da casa, remetendo a galinha para a cozinha. E, se ela não se portar como ele quer e acha que tem de ser, pois que apanha. Era como se os papéis antigamente destinados ao homem e à mulher continuassem intocados, após a Revolução dos Cravos. O melhor da comida, como um belo faisão, continua guardado para o galo, mesmo que não seja ele a ter o trabalho de o assar. E enquanto uns se refastelam à mesa, outros, como os pintainhos, passam «uma fome de cão».

À medida que se avança na canção, a mensagem adquire outros cambiantes. Quem trabalha é a galinha, mas os ovos todos vão para a cesta do galo. Por outras palavras, os operários produzem, labutam, matam-se a trabalhar, mas só o patrão é que enriquece. E os pintos tornam-se compatriotas «da miséria d’outros povos».

No entanto, para Godinho, o tempo era de mudança.

Por mais que cante de galo

O galo está a dar o berro

É que nem com mão de ferro

Faz do pinto seu vassalo

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Gabriel, o Pensador – «Até quando» [2001]

E, afinal, mudou? O galo deu o berro? Mais de 20 anos depois, o rapper brasileiro Gabriel, o Pensador ainda achava que não. A vontade de resistir, porém, mantinha-se intacta. «Não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta / Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer». Gabriel quer que as pessoas tirem os olhos do chão ou que deixem de virar o rosto para evitarem o confronto com a realidade. «Até quando?», pergunta. Até quando se vai ficar amarrado, amordaçado; até quando se vai continuar a levar patadas, sem dizer nada?

É a vida que anda a golpear estas pessoas, e de modo flagrante, como se elas fossem um saco de pancada. É o miúdo que não têm escola para frequentar, o velho que não têm dinheiro para tratar dos dentes, o pai que fica sem emprego e não sabe como vai poder ajudar a filha grávida. É a injustiça dos pobres que são presos por ninharias, enquanto os poderosos ficam incólumes depois de roubarem milhões. É o desespero de quem procura um trabalho e a quem pedem qualificações que não tem. Será culpa dele que não tenha podido estudar? «Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá».

O ritmo da guitarra, do coro, da indignação na voz de Gabriel vai subindo de tom. Mesmo quando o protagonista encontra um trabalho, a vida dele e dos seus pouco melhora. Acorda cedo, mata-se a trabalhar, regressa a casa sem forças para mais nada. E as ralações financeiras que não desaparecem; e o dinheiro que não chega para o brinquedo que o filhe lhe pede. A solução? Para Gabriel, é preciso mudar de atitude. «Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente.»

Haverá quem diga que nem tudo é assim tão fácil. Mas isso não será impeditivo de escutarmos esta letra que nos pede para também olharmos para dentro de nós.

Na mudança de postura a gente fica mais seguro

Na mudança do presente a gente molda o futuro.

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