A par do ranking dos países com níveis de bem-estar mais elevados, o Relatório Mundial da Felicidade, gerado por um centro de investigação da Universidade de Oxford, costuma incluir um tema de fundo que pode ter impacto nos resultados obtidos ao longo dos anos. Na edição de 2026, o foco incidiu nas redes sociais, e o relatório começa logo com uma frase acutilante: «O bem-estar subjetivo dos mais jovens tem decaído drasticamente desde 2011 nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia». Ora, no mesmo lapso temporal, a utilização das redes sociais teve um enorme acréscimo. Na verdade, não falta gente a culpar as redes sociais por este decréscimo nos níveis de felicidade dos menores de 25 anos. Pois bem, os pesquisadores da universidade britânica, socorrendo-se de vários estudos a nível mundial, trataram de averiguar se existe, de facto, essa correlação.
O impacto dos influenciadores e dos feeds
Seria impossível abordar num pequeno texto a quantidade e a profundidade de análise que encontramos nos vários capítulos do relatório (disponível no website do World Hapiness Report). Mas, entre as principais conclusões, encontramos a do estudo PISA conduzido em 47 países, com jovens de 15 anos, onde se diz que os jovens que estão sete horas por dia nas redes sociais têm níveis muito mais baixos de bem-estar do que aqueles que utilizam as redes sociais menos de uma hora por dia. Curioso, igualmente, o estudo feito com estudantes universitários dos Estados Unidos, em que a maioria expressou o desejo de que as redes sociais não existissem. Se as usam é porque outros as usam; mas até preferiam que ninguém as usasse.
Se descermos um pouco no mapa mundo, um estudo realizado na América Latina revela a importância do tipo de rede social. Por um lado, as plataformas criadas para facilitar o contacto social mostram uma clara associação positiva com a felicidade. Já as plataformas com feeds gerados pelos algoritmos, e onde atuam influenciadores digitais, tendem a demonstrar impactos negativos na satisfação com a vida, especialmente em casos de uso intensivo. Esta ideia surge corroborada noutro estudo, este com incidência nos jovens do Médio Oriente e do Norte de África, onde o uso intensivo das redes sociais aparece associado a altos níveis de depressão e stresse. Também aqui, as plataformas mais problemáticas são aquelas em que predominam os conteúdos visuais – que encorajam as comparações -, e em que a utilização é essencialmente passiva. Ou seja, aquelas em que vemos o que o algoritmo nos dá.
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Cocktail explosivo: Do ciberbullying à depressão
Face a este conjunto de estudos e artigos, chega-se à conclusão de que os jovens que têm um uso intensivo de redes sociais estão em risco, especialmente nos países de língua inglesa e na Europa Ocidental. Tal não chega, no entanto, para os analistas declararem que, nessas regiões, o declínio de bem-estar nos jovens resulta por inteiro nas redes sociais. Há inúmeros outros fatores em jogo, salienta-se. Mas as evidências incluídas no relatório já são suficientemente fortes para se sugerir que o uso intensivo das redes sociais dá, de facto, um contributo importante para esta diminuição da felicidade nos mais novos.
O terceiro capítulo do relatório, ao agregar uma série de estudos e inquéritos independentes, leva inclusive alguns investigadores a afirmar, sem atenuantes, que as redes sociais estão a fazer mal aos adolescentes. Segundo os autores do capítulo, existem «provas irrefutáveis» de graves e generalizados danos diretos (como o ciberbullying, por exemplo), bem como «provas convincentes» de preocupantes danos indiretos, como a depressão. As conclusões tiradas são, por isso, perentórias: «As redes sociais não são seguras para os adolescentes».
Uma experiência social que deu para o torto?
Face aos múltiplos dados compilados, sobressai a noção de que «as principais plataformas de redes sociais (como o Instagram, o Snapchat e o TikTok) estão a causar danos substanciais à saúde mental dos adolescentes, especialmente das raparigas». Os investigadores reconhecem que o debate académico em torno destas questões pode demorar anos até se chegar a conclusões definitivas; ainda assim, avançam que as evidências já recolhidas são suficientes para que pais e reguladores tomem as suas decisões informadas. A recente tendência internacional de remover os telemóveis do ambiente escolar estará já a gerar benefícios educativos; do mesmo modo, tudo sugere que afastar as redes sociais da adolescência precoce deverá produzir benefícios ao nível da saúde mental dos jovens. E é assim que parece justificada a medida tomada pelo governo australiano, no final de 2025, de fixar nos 16 anos a idade mínima para se poder abrir conta nas redes sociais.
O Relatório Mundial da Felicidade, subdividido em nove capítulos, é longo e cheio de informações. Mas, entre todo o texto ali incluído, talvez haja um parágrafo que consegue explicar, de forma simples e crua, o momento que estamos a viver.: «Em todo o mundo, na década de 2010, os países realizaram uma gigantesca experiência não controlada com as suas próprias crianças, ao darem-lhes smartphones e contas nas redes sociais. Os dados disponíveis sugerem que a experiência lhes causou danos. Está na altura de pôr um ponto final nessa experiência.»
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