Imagem de uma casa tradicional portuguesa

Como é afinal uma casa portuguesa? Ou melhor, como foi essa casa portuguesa na música popular? Mais importante que isso, como queremos que seja a nossa casa?

Amália Rodrigues – “Uma Casa Portuguesa” [1953]

Não há como fugir a este clássico perpetuado pela voz de Amália Rodrigues. O exterior da casa é convidativo: paredes branquinhas, cheiro a alecrim, rosas no jardim. No interior, porém, vive gente pobre. Estávamos, então, num Portugal imerso numa ditadura e, atualmente, a letra da canção vê-se propensa a diferentes leituras. Há quem veja nas palavras de Reinaldo Ferreira e Vasco Matos Sequeira a apologia da pobreza. Mas não será possível ouvir o que Amália canta como um grito de que o povo, apesar de pobre, não perdeu os seus valores de fraternidade?

Os versos definem a casa portuguesa sobretudo como um local de acolhimento. Quando alguém bate à porta, esta abre-se para deixar entrar. Desde que seja uma batida humilde… Será isso indicador de que não será bem-vindo quem bater de forma violenta ou repressiva? Ou apenas um sinal de caridade cristã? Seja como for, que entre quem chega necessitado; para esse, haverá o “conforto pobrezinho” de um pedaço de pão e “um caldo verde a fumegar na tigela”. Nesta casa portuguesa, a existência das pessoas alegra-se pelo prazer de partilharem o pouco que têm. O pão e vinho, que estão sempre sobre a mesa, mas também o carinho. Canta-se a promessa de beijos e de abraços.

“É uma casa portuguesa, com certeza / É, com certeza, uma casa portuguesa.”

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Amália Rodrigues – “Lar Português” [1958]

Bem menos conhecido, este tema com letra de Maria Laura Xavier de Paiva retrata uma morada humilde que podia assentar em qualquer aldeia portuguesa. Casa pequenina, a dois passos do fontanário público, com vista para o largo da capela. Nas traseiras, espaço para uma “hortinha viçosa” e um telheiro para albergar burrico e carroça. Ao entrar, sente-se logo o conforto da lareira acesa e da mesa posta. É novamente a partilha que se comemora; gente que bebe da mesma garrafa e come do mesmo tacho. “A nossa casa é um ninho / Pobrezinho, onde há carinho / Alegria pão e vinho”.

E sim, esta também é uma casa do seu tempo, um tempo de pobreza e ditadura, um tempo de devoção a Nosso Senhor, com o habitual crucifixo pregado por cima da cabeceira das camas. E aqui, talvez sim, encontramos a casa de alguém que parece ver-se forçado a resignar-se com a sua miséria, pois até os pardais, que em corridinhas catam as migalhas de pão que caíram da mesa para o chão, “gostam da nossa pobreza”.

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Xutos & Pontapés – “A Minha Casinha” [1987]

Para o fim, deixámos o tema mais conhecido, fruto da regravação feita pelos Xutos & Pontapés nos anos 1980. E, no entanto, a canção foi originalmente escrita e interpretada antes das duas outras que acabámos de citar. Estávamos em 1943 quando, no filme “O Costa do Castelo”, a atriz e cantora Milú deu voz à letra de Silva Tavares. O êxito foi imediato. E, ainda hoje, por esta ou aquela razão, num jogo de futebol ou num concerto qualquer, milhares de vozes de diferentes gerações entoam em simultâneo os versos, também eles singelos e fáceis de decorar, da alegre e modesta casinha em que se adora morar.

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