«Conheço melhor os nomes das Kardashian do que os nomes dos meus vizinhos», confessa um adolescente para a câmara. Esta frase podia ser o início-resumo do documentário «Generation Wealth» (2018), em que a realizadora Lauren Greenfield procura investigar as patologias que criaram a sociedade mais rica na história do mundo. Fotógrafa de profissão, Lauren tem feito carreira a retratar os excessos da sociedade norte-americana contemporânea, como ser o orgulhoso proprietário da limusina mais comprida do planeta, com espaço para incluir uma piscina e uma pista de helicóptero. Enquanto captava estas e outras extravagâncias, a fotógrafa ia notando que as pessoas, quanto mais dinheiro tinham, mais dinheiro queriam ter.
Quando crescer, quero ser rico
O mítico sonho americano passara a estar associado ao status. E esse posicionamento em relação aos outros determinava-se, sobretudo, pela riqueza pessoal. As crianças, claro está, não demoraram a aprender as perguntas que mais importava fazer no recreio da escola. «És muito rico? Que faz o teu pai? Que faz a tua mãe? Tens mais coisas do que eu?»

As centenas de histórias que Lauren documentou versavam sobre dinheiro, fama, sexo, imagem corporal e, ao mesmo tempo, interligavam-se numa nova imagem do país. Nos Estados Unidos, a obsessão pela riqueza agigantava-se. O sonho americano ia-se tornando cada vez mais caro e extravagante. No documentário, aponta-se a década de 1970 como aquela em que os Estados Unidos transitaram de um império de produção para um império de consumo. Depois, a década de 1980 trouxe o culto em redor de Gordon Gekko, a mítica personagem do filme Wall Street (1987) que cravou um poderoso mantra nas mentes dos mais jovens: «A ganância é boa».
As vidas no ecrã são mesmo assim tão glamorosas?
Os fatos à medida, os relógios de ouro e anéis de diamantes, as malas de marca, os restaurantes estrelados, as festas exclusivas, os descapotáveis e as limusines, os jatos privados, as mansões faustosas… tudo dava ênfase à riqueza. Era nesse ambiente imagético de ostentação e luxo que os jovens estavam a crescer. Porque não desejar o mesmo estilo de vida? O sonho americano mudara-se para o território da fama e da fortuna, esquecendo os valores do trabalho árduo, da moderação e da discrição que tinham definido as gerações anteriores. O novo ideal era ser rico, tal como aqueles que se via nos ecrãs.
Este «Geração Riqueza» tenta trazer à tona os bastidores dessa nova realidade. Eis as jovens mulheres aprisionadas pelo seu aspeto físico, o que levou a uma epidemia de distúrbios alimentares. Eis os concursos de beleza para crianças de quatro anos. Eis os reality shows que parecem a vida real, mas que seguem um guião previamente escrito. Eis as cirurgias e intervenções estéticas, a vontade de não envelhecer, a urgência em enriquecer rapidamente, a comercialização de todas as áreas e todos os assuntos. Eis o vício de trabalhar longas horas, apenas porque há sempre mais dinheiro para ganhar.
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Só mais dez milhões, vá. Ou cem…
Como diz uma das participantes no documentário, «se eu quiser trabalhar 100 horas por semana, e nunca vir a minha família, e morrer em idade precoce, isso é uma prerrogativa minha». Ela é o exemplo perfeito de uma mulher a batalhar pelo novo sonho americano. Depois, surgem testemunhos de outros que alcançaram essa meta. Florian Homm, um ex-gestor de fundos de investimento que acabou por andar fugido à justiça, foi um dos que teve tudo. Mas, para ele, a riqueza revelou-se um “saco de coisas podres”. Imerso nesse “sonho tóxico”, viu-se como um hamster a girar numa roda de ouro cravejada de diamantes. O sucesso exigia mais sucesso; quanto mais, melhor. Porquê parar? Porque não acrescentar mais um zero? Afinal, mil milhões é melhor do que 100 milhões.
Se rasparmos todas as camadas douradas e prateadas de um ideal de vida, que resta? É provável que todos os seres humanos, ou pelo menos a maior parte, queiram é ser felizes consigo mesmos e com aqueles que amam. «É preciso uma longa viagem para regressar àquilo que realmente importa», diz Florian. «O resto não passa de uma ilusão.»
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