Os salários recuperam em Portugal e o país destaca-se na redução da proporção de trabalhadores com remunerações baixas. Mas a evolução não é igualmente positiva noutras condições de trabalho. Enquanto vários países europeus reduziram os horários fora do padrão habitual, Portugal registou um aumento deste tipo de organização laboral.
Este é o retrato traçado pelo relatório European Employment and Social Outlook 2026, da Comissão Europeia. O estudo revela que, apesar dos progressos registados, receber mais não significa, necessariamente, ter um emprego com horários favoráveis, maior estabilidade ou melhores condições de vida.
A recuperação dos salários em Portugal está a aliviar as despesas das famílias?
Segundo as previsões da Comissão Europeia, os salários reais portugueses deverão terminar 2026 cerca de 18,1% acima dos níveis de 2019, descontada a inflação, contra apenas 1,4% na União Europeia. Contudo, os preços das casas em Lisboa subiram cerca de 130% desde 2013 e, em 2025, mais de 15% da população portuguesa não conseguia manter a habitação adequadamente aquecida por razões financeiras, face a 8,8% na UE. Embora os indicadores abranjam períodos diferentes, a recuperação salarial convive com obstáculos significativos à melhoria do custo de vida.
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Apenas cinco países europeus ultrapassam Portugal na recuperação salarial
A Bulgária lidera os aumentos acumulados previstos dos salários reais entre 2019 e 2026, com 44,8%, seguida da Hungria (30,3%), Roménia (27,7%), Lituânia (26,6%) e Croácia (26,2%). Portugal surge abaixo destes países, mas bastante acima da média comunitária.
Em França e Itália, os salários reais deverão continuar inferiores aos níveis de 2019, com perdas de 2,4% e 3,9%, respetivamente.
Nota: Um crescimento percentual mais elevado não significa que os salários de um país sejam superiores aos de outro. Estes números medem a evolução face aos rendimentos de 2019, não o montante recebido pelos trabalhadores.
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Portugal reduz em 10,3 pontos a proporção de trabalhadores com salários baixos
Entre 2014 e 2022, Portugal registou uma redução de 10,3 pontos percentuais na proporção de trabalhadores com salários baixos. Foi uma das melhorias mais acentuadas destacadas pela Comissão, muito acima da redução média da UE, de 1,7 pontos. Eslovénia e Lituânia também melhoraram; pelo contrário, Bélgica e Bulgária registaram aumentos expressivos neste indicador.
Nota: A comparação utiliza salários horários brutos iguais ou inferiores a dois terços da mediana de cada país, no universo coberto pelo inquérito. Uma diminuição desta proporção é positiva, mas não demonstra, por si só, que os salários portugueses sejam elevados ou suficientes para todas as despesas.
País ou região | Variação de trabalhadores com salários baixos, 2014-2022 |
Portugal | -10,3 p.p. |
Eslovénia | -9,1 p.p. |
Lituânia | -6,1 p.p. |
Finlândia | +1,2 p.p. |
Suécia | +1,4 p.p. |
Bulgária | +8,7 p.p. |
Bélgica | +12,1 p.p. |
União Europeia | -1,7 p.p. |
Horários fora do habitual aumentam 3,9 pontos em Portugal
A recuperação salarial contrasta com a evolução do tempo de trabalho. Em Portugal, a proporção de trabalhadores com horários atípicos aumentou 3,9 pontos percentuais entre 2014 e 2023. Esta categoria inclui trabalho frequente ao serão, à noite e aos fins de semana, podendo dificultar o descanso e a conciliação familiar, embora não signifique necessariamente precariedade.
Portugal foi um dos países onde este indicador mais aumentou, juntamente com o Luxemburgo (+3,1 pontos percentuais). Em sentido contrário, a Lituânia registou uma redução de 19,5 pontos, seguida dos Países Baixos (-13,6) e da Eslováquia (-10,3), evidenciando diferenças significativas na evolução dos horários de trabalho na Europa.
Na UE, salários baixos e jornadas de 49 horas estão a diminuir
Na União Europeia, vários indicadores melhoraram, embora em períodos diferentes:
- Salários baixos: 16,4% dos trabalhadores em 2014 e 14,7% em 2022.
- Jornadas de 49 horas ou mais: 9,7% em 2014 e 6,2% em 2025.
- Horários atípicos: 38,6% em 2014 e 32,6% em 2025.
- Tempo parcial involuntário: 5,9% em 2014 e 3,3% em 2025.
O risco de pobreza entre pessoas empregadas também caiu, de 9,7% em 2014 para 8,3% em 2025. Ainda assim, Bélgica, Estónia, Grécia, Luxemburgo, Finlândia e Suécia registaram deteriorações em pelo menos dois dos indicadores analisados. Isso traduz agravamentos específicos, não uma classificação global.
Habitação e energia continuam a pressionar o custo de vida
O relatório mostra por que motivo a recuperação dos salários não elimina as dificuldades financeiras. Em Lisboa, os preços nominais das casas subiram cerca de 130% desde 2013, colocando o valor por metro quadrado num patamar que é mais do dobro da média nacional.
Em 2025, mais de 15% da população portuguesa não conseguia manter a casa adequadamente aquecida por razões financeiras, contra 8,8% na União Europeia. Bulgária, Grécia, Lituânia e Espanha também ultrapassavam os 15%.
O problema ultrapassa Portugal. Na UE, os preços nominais das casas subiram cerca de 62% desde 2015 e 5,5% em 2025. Nesse ano, os custos da habitação absorviam, em média, 18,9% do rendimento disponível dos agregados.
Na Grécia, 26,4% da população vivia em casas onde estas despesas ultrapassavam 40% do rendimento disponível, contra 2,4% em Chipre. As percentagens e os períodos são diferentes e não devem ser comparados diretamente com a evolução dos salários reais portugueses.
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Em Portugal, impostos e apoios reduzem o risco de pobreza laboral em cinco pontos
A remuneração não é o único fator que determina o rendimento disponível. Numa simulação apresentada pela Comissão Europeia, o sistema de impostos e prestações sociais português reduz em cinco pontos percentuais o risco de pobreza entre pessoas que trabalham. Na Irlanda, o efeito estimado é de 6,2 pontos; em Chipre, de 4,9; e em Itália, de 4,5.
Os resultados variam entre países: na Hungria e na Roménia, o efeito líquido estimado dos sistemas analisados aumenta aquele risco em 3,1 e 1,7 pontos, respetivamente. Trata-se de resultados de modelização, não da evolução efetivamente observada da pobreza num determinado ano. Mostram a importância dos impostos e apoios para o rendimento das famílias.
Na UE, um em cada quatro trabalhadores jovens recebe um salário baixo
As médias europeias escondem desigualdades importantes. Entre os trabalhadores com menos de 30 anos, 25,1% recebem salários baixos. A proporção chega a 27,5% entre quem tem, no máximo, o ensino primário, contra 4,8% entre os trabalhadores com ensino superior. Entre as mulheres, o indicador é de 17,1%, face a 12,6% entre os homens.
Também há diferenças na segurança e no risco de pobreza. O trabalho temporário involuntário afeta 10,7% dos trabalhadores nascidos fora da UE, contra 5,9% dos nascidos na União.
Entre os trabalhadores por conta própria, o risco de pobreza atinge 20,9%, comparado com 6,3% entre os trabalhadores por conta de outrem. Estes são indicadores europeus, não valores específicos de Portugal.
Na educação portuguesa, 8% trabalham pelo menos 49 horas por semana
A educação evidencia diferenças relevantes entre Portugal e a UE: 8% dos trabalhadores portugueses do setor cumprem semanas de 49 horas ou mais, face a 3,6% na média europeia da educação. Este indicador considera o total de horas trabalhadas, não apenas o tempo passado nas salas de aula.
Na UE, 11,6% dos trabalhadores da educação têm contratos temporários involuntários, contra 6,4% no conjunto das atividades. Em Itália, a proporção do setor chega a 21,9%. Estas profissões essenciais apresentam fragilidades próprias.
Produtividade e organização do trabalho também determinam a qualidade do emprego
A Comissão prevê um crescimento da produtividade do trabalho de 3,3% em Portugal em 2026, acima da Lituânia (3,1%) e da Bulgária (2,2%). É uma previsão de crescimento anual, não uma comparação do nível de produtividade. O relatório associa melhores condições de emprego à formação, à retenção de trabalhadores e à organização das tarefas, embora estas relações não provem causalidade em todos os casos.
O estudo aponta ainda diferenças salariais associadas às atividades potencialmente externalizadas: cerca de 22% abaixo da referência em serviços operacionais, como limpeza e segurança, e 23% acima em serviços especializados, como informática e consultoria. Quando a comparação se limita a profissões semelhantes, essas diferenças diminuem ou desaparecem. Melhorar os empregos exige, além de salários, horários sustentáveis, segurança e progressão.
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Perguntas frequentes
Sim. Segundo o relatório da Comissão Europeia, Portugal apresenta uma cobertura da negociação coletiva superior a 80%, integrando o grupo de países que ultrapassam este patamar. Em contrapartida, 18 Estados-membros estão abaixo dos 80% e têm de preparar planos de ação para promover a negociação coletiva, de acordo com as regras europeias.
A experiência-piloto de 2023 envolveu 39 empresas portuguesas, com semanas de trabalho reduzidas para 32 a 36 horas, sem cortes salariais. Segundo a Comissão Europeia, as empresas participantes comunicaram melhorias na produtividade, no bem-estar e na satisfação dos trabalhadores. Contudo, os resultados não podem ser generalizados a todas as empresas e setores de atividade.
Em Portugal, 47,4% dos trabalhadores de um grupo de profissões caracterizado por horários atípicos ou prolongados, incluindo motoristas e vendedores, estão sujeitos a avaliação por algoritmos. A percentagem supera os 31,9% registados no mesmo grupo profissional na União Europeia, mas fica ligeiramente abaixo de Espanha (48,3%). Estes valores não representam todos os trabalhadores portugueses.
Segundo os dados europeus utilizados pela Comissão Europeia, a remuneração mensal mediana das mulheres é de 2.220 euros, contra 2.502 euros dos homens, uma diferença de 282 euros. O relatório identifica ainda uma maior presença feminina no trabalho a tempo parcial, frequentemente associada às responsabilidades familiares e de prestação de cuidados.
Entre 2022 e 2026, a Bulgária e a Croácia registaram os maiores crescimentos médios anuais do salário mínimo real, de 9,3% e 8,5%, respetivamente, segundo os dados do relatório. Em sentido contrário, França (0,5%) e Bélgica (1,6%) apresentaram os aumentos mais reduzidos. Estes valores consideram o efeito da inflação e incluem estimativas para 2026.
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