A sua família é uma empresa que dá lucro?

Encare a gestão do seu orçamento como se fosse uma empresa. E aprenda a dizer não. Só assim terá um controlo efetivo das suas finanças.

Nas duas crónicas anteriores, expliquei-lhe a importância de fazer um orçamento mensal/anual familiar. Pode ser um orçamento com base nas suas atuais despesas e receitas ou organizado a partir do “zero” como se a sua vida começasse hoje. Sugiro que comece pelo primeiro e só depois passe ao segundo quando já tiver as suas contas organizadas.

Se fizer isto e levar a tarefa a sério (tipo trabalho de casa ou exame que vai ser avaliado, como quando andava na escola) começará a ver a solução para os seus problemas financeiros. Conhecer a sua situação é o primeiro passo para começar a decidir corretamente e a tomar medidas corretivas.

Gerir a família como uma empresa

O segredo para encontrar motivação para esta “batalha” contra o seu eu que lhe anda a estragar as finanças, é passar a encarar-se como uma empresa. Passe a definir-se como a “Família Oliveira, SA.”, ou a “Família Fernandes, Lda.”, ou como a “Família Agostinho & Filhos”.

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Meta isto na cabeça: você e a sua família são uma empresa que tem de dar lucro todos os meses. Dê por onde der. Uma empresa que está sempre a dar prejuízo está condenada à falência. Uma família que nunca tem dinheiro ao fim do mês ou que tenha pequeníssimos lucros - sempre na linha vermelha - também está na falência, por muito que lhe custe ouvir ou ler isto. Mas isso não é uma sina. Pode mudar esse “destino”.

Se um negócio vai mal, ninguém pode levar a mal a um gestor que chega e começa a reduzir custos, que tenta abrir novos modelos de negócio e a reajustar modelos de trabalho e de gestão. 

Claro que haverá alguns funcionários que não vão gostar das mudanças. No caso da sua família, esse funcionário pouco colaborante com as mexidas na empresa até pode ser você. Em muitos casos, pode ser alguém muito próximo de si. O marido ou a mulher pode querer pôr as finanças da casa em ordem e o outro pura e simplesmente ignora esses objetivos. Nessas situações, é tremendamente difícil fazer o que quer que seja. Vão ter de conversar e pôr os pontos nos is. Sem isso não vão lá.

Envolva toda a família

É, por isso, importantíssimo que ambos no casal (e os filhos também) estejam bem cientes dos desafios, que os objetivos sejam bem conhecidos por todos e que seja claro qual é o caminho para os atingir. Convoquem uma reunião familiar e conversem sem discutir. Todos têm de saber exatamente quanto é que cada um tem disponível para gastar a cada mês, e em quê. Ao detalhe. E que estejam todos de acordo. Caso contrário, será quase impossível. É como se um estivesse a encher a banheira e o outro sempre a tirar a tampa.

Não adianta muito passar uma semana a negociar um contrato de luz e gás mais barato e gastar logo a seguir todo esse ganho num telemóvel novo - sem necessidade - “porque estou a poupar na luz”. Quem diz um telemóvel, diz um vestido novo, sapatos, ou um gadget para o carro ou para o escritório ou uma jantarada só “porque me apeteceu”. Nestas situações-limite tem de aprender a dizer a palavra mágica “NÃO”

A nossa mente é um milagre fabuloso, mas tem armadilhas que devemos conhecer. É importante saber que o seu cérebro gosta de se sentir satisfeito e comprar coisas é uma das formas de atingir essa forma de satisfação. Só que é um estado de “alegria” muito passageiro. Assim que faz uma compra, a seguir vai sentir-se tentado a fazer outra. É quase como uma droga. É a famosa expressão que dizemos a nós próprios: “Eu mereço”. O que você merece é ter paz financeira. E chegaremos lá.

Está a perceber porque tantas famílias em Portugal vivem com problemas financeiros mês após mês? E que vivem salário a salário? Porque simplesmente não têm coragem de cortar em coisas que gostam porque acham que têm “direito”. Isso sim, é o que chamamos habitualmente “viver acima das suas possibilidades” e não o reconhecem.

Aprenda a viver com as suas receitas

Isto que acabei de referir aplica-se quer a quem ganha 500 euros, quer a quem ganha 5.000 euros. Temos de aprender a viver de acordo com as nossas receitas. Se não chega temos de reduzir despesas ou aumentar os rendimentos. Simples.

A fórmula que encontrei para saber se vive acima das suas possibilidades ou não, é terrivelmente simples: se somadas todas as suas receitas e todas as suas despesas, não consegue retirar mensalmente pelo menos 10% dos seus rendimentos para uma poupança, lamento informá-lo que está a viver uma vida que não é a sua e está a pagar o preço por isso com ansiedade, noites mal dormidas e preocupações constantes. E se não está já a pagar, vai pagar mais à frente. É só uma questão de tempo (ou de uma crise que o apanhe na curva).

Analise tudo o que tem e veja o que pode vender (para ter uma fonte de rendimento urgente) ou até dar, se for algo que lhe esteja a gerar uma despesa recorrente. 

Em resumo, ou decide controlar a sua vida financeira, ou o caos financeiro vai tomar conta de si. Aliás, como já percebeu ao longo dos anos, em inúmeros casos são empresas, amigos, familiares, e até o Estado que tomam conta da sua vida financeira. Mandam-lhe contas para pagar e você paga. E nunca parou para pensar se tem mesmo de ser assim? Não pode colocar um travão nessas situações? Não pode arranjar uma maneira de pagar menos? De aumentar os seus rendimentos com outras alternativas para além do seu trabalho das 9h às 5h?

Chega uma conta e o objetivo de vida passa a ser conseguir dinheiro para a pagar. Assim que a pagam e suspiram de alívio, chega outra e volta tudo ao mesmo. Até se reformarem. E mesmo aí vão ter uma surpresa porque as despesas continuam, algumas agravam-se, e o seu rendimento será menor do que agora. É mesmo essa a vida que quer? Tenho a certeza que não. Vamos lá mudar isso! Vou dar-lhe muitas dicas práticas que o vão ajudar a atingir o objetivo de ter dinheiro para todas as suas despesas antes das contas chegarem e ainda sobrar para começar a realizar alguns dos seus sonhos.

Pedro Andersson nasceu em 1973 e apaixonou-se pelo jornalismo ainda adolescente, na Rádio Clube da Covilhã. Licenciou-se em Comunicação Social, na Universidade da Beira Interior, e começou a carreira profissional na TSF. Em 2000, foi convidado para ser um dos jornalistas fundadores da SIC Notícias. Atualmente, continua na SIC, como jornalista coordenador, e é responsável desde 2011 pela rubrica "Contas-Poupança", dedicada às finanças pessoais. Tenta levar a realidade do dia a dia para as reportagens que realiza.

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