O ator e autor Kal Penn, muito conhecido por fazer parte da dupla dos filmes Harold & Kumar, não será propriamente um estranho aos temas económicos, pois também acabaria por trabalhar de perto com o presidente norte-americano Barack Obama, quando integrou o departamento de Relações Públicas da Casa Branca. Mas esse conhecimento da matéria não o impede de colocar as perguntas que um leigo gostaria de fazer. Veja-se logo o exemplo da premissa do primeiro episódio da série «The Giant Beast that is the Global Economy» (2019), centrado na lavagem de dinheiro: «O que é que se faz quando se tem muito dinheiro que não foi propriamente ganho de forma legal? É fácil. Lava-se o dinheiro. Mas eis a questão mais complicada: como é que, EM CONCRETO, se lava o dinheiro?»
Um tira-nódoas para dinheiro manchado
O episódio rotula-se como um “Guia para a Lavagem de Dinheiro”, mas não devemos ser literais e ler este subtítulo como um incitamento para que os espectadores sigam a via criminal. É apenas um incentivo para que queiramos entender os meandros deste Monstro Gigante que é a Economia Global. Neste caso, para percebermos se será preciso meter as notas numa máquina de lavar a roupa, Kal Penn entrevista banqueiros, advogados, jornalistas de investigação e até uma pessoa que fez lavagem de dinheiro para cartéis de droga (e que foi condenada por o fazer). Que tal começarmos pelo princípio e fingirmos que temos um dinheirinho ilícito para lavar? Podemos, por um minuto, entrar na pele de um traficante de armas, um chefe de narcotráfico, um lobista que faz negócios com políticos estrangeiros com má fama. Bom, independentemente do que fizemos para conseguir o dinheiro, ele está “manchado” pelo crime cometido. Ou seja, teremos alguma dificuldade em gastá-lo.

Eis que, tal como um detergente que promete tirar as nódoas mais entranhadas, a lavagem de dinheiro se apresenta como o processo que transforma o dinheiro sujo em dinheiro aparentemente legítimo. Para concretizar esse intento, criou-se toda uma economia subterrânea; um verdadeiro sistema financeiro internacional que quer dar a hipótese aos criminosos de poderem usar o seu dinheiro sem que se saiba a origem do mesmo. E agora a pergunta: querem continuar na pele do criminoso ou saltamos para o outro lado da cerca?
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Inserir, dissimular, integrar
Calma, que o lado satírico de Kal Penn vai ajudar-nos: ele não se importa de fingir que tem um milhão de dólares “sujos” que precisa de lavar. Ei-lo a ir a um banco para tentar depositar essa quantia e a esbarrar na necessidade de declarar a proveniência dos dólares. Como os ganhou ilegitimamente, isso é precisamente o que ele não pode revelar. E agora, mesmo que recue na tentativa de depósito, já cometeu uma atividade suspeita, que será declarada às entidades supervisoras. Ou seja, o FBI vai entrar em campo, como explica um especialista em contabilidade forense. Ficamos então a saber que a lavagem de dinheiro, também conhecida como branqueamento de capitais, tem três fases.
- Colocação. Quando o criminoso tenta depositar fisicamente a receita da atividade ilegal numa instituição financeira.
- Ocultação. Quando se procura repartir por contas diferentes o dinheiro entrado no sistema, de modo a dificultar o rastreamento e esconder a identidade do criminoso.
- Integração. Quando o dinheiro, após as fases anteriores, é sacado das diferentes contas bancárias e usado pelo criminoso numa transação legal.
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O escândalo dos documentos do Panamá
Como o próprio Kal experienciou, o maior problema está na primeira fase. Como introduzir o dinheiro no sistema bancário sem despertar atenções? Bem, que tal através de uma empresa de táxis: os depósitos diários no banco incluem tanto dinheiro legalmente ganho, como uma parcela ilegal que, assim, no meio dos ganhos legítimos, será mais difícil destrinçar. Ou ir a leilões e investir em arte. Ou depositar dinheiro em bancos no estrangeiro através das empresas de fachada e depois mover os fundos para a Suíça.
Existem, aliás, algumas geografias que se especializaram neste “negócio” de sigilo financeiro (Kal Penn, por exemplo, visita o Chipre). E uma rede de advogados que recorre a truques de contabilidade para manter o dinheiro sujo fora do radar das autoridades. Em 2015, o célebre caso dos “Panama Papers” revelaria centenas de milhar de empresas fantasma que tinham sido criadas para ocultar milhares de milhões de dólares. Os documentos vindos a público mostravam de forma detalhada como se ajudava os criminosos a lavarem dinheiro, através dessas empresas de fachada espalhadas em vários pontos do globo.
Ah, um só episódio e já tantas possibilidades boas para quem cometeu um delito! Será que deveríamos… Sim, é isso, o melhor é passarmos para outro episódio e ver onde Kal Penn, que já nos fez pensar como um criminoso, nos irá levar desta vez.
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