Casal a fazer poupança

Duas pessoas podem poupar o mesmo valor todos os meses e, ainda assim, fazer esforços financeiros muito diferentes. Se cada uma reservar 100 euros, quem recebe 1.000 euros líquidos compromete 10% do salário, enquanto quem ganha 1.800 euros destina apenas 5,6%. O valor é igual, mas o peso no orçamento não, o que pode tornar mais difícil decidir quanto deve contribuir cada um quando se pretende poupar em casal.

Perante esta diferença, há quem prefira dividir a poupança em partes iguais e quem opte por ajustar as contribuições aos rendimentos. Outra possibilidade é definir uma percentagem do salário para ambos. Cada opção tem implicações no orçamento e no tempo necessário para atingir a meta, pelo que importa perceber qual se adapta melhor às possibilidades e aos objetivos do casal.

Como definir uma meta para poupar em casal?

Comecem por decidir para que precisam do dinheiro e quanto querem juntar. A entrada de uma casa, por exemplo, pode ter um prazo definido. Conhecendo o montante e a data pretendida, conseguem calcular a contribuição mensal necessária. Depois, verifiquem se a meta cabe no orçamento. O acordo pode prever valores iguais ou diferentes, conforme aquilo que os dois conseguem e aceitam poupar.

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Antes de juntar dinheiro, separem as metas comuns das individuais

Partilhar um projeto não significa destinar todas as poupanças ao mesmo objetivo. Comprar casa ou realizar uma viagem pode ser uma prioridade conjunta, enquanto financiar uma formação ou preparar a reforma continua a ser uma escolha individual.

Identificar estas prioridades antes das transferências mensais ajuda a evitar que uma meta comum deixe um dos elementos sem dinheiro para necessidades próprias.

Três formas de dividir a poupança com salários diferentes

O casal pode optar por contribuições iguais em euros, repartir um valor fixo segundo o peso de cada salário ou aplicar a mesma taxa de poupança aos dois rendimentos. As opções distribuem o esforço de forma diferente.

Contribuir proporcionalmente e poupar a mesma percentagem são matematicamente equivalentes, quando se utilizam os mesmos rendimentos e a mesma taxa. A diferença está na decisão inicial: definir primeiro o montante que pretendem juntar ou a percentagem que cada pessoa vai guardar.

Modelo 1: Cada um entrega o mesmo montante

Cada pessoa reserva a mesma quantia mensal, mesmo que os salários sejam diferentes. É uma divisão simples e previsível, que pode funcionar quando ambos têm margem para cumprir o compromisso. Valores iguais não representam necessariamente o mesmo esforço. Uma prestação de crédito pode fazer com que uma contribuição pequena pese bastante num dos orçamentos.

Modelo 2: O contributo acompanha o salário

Neste modelo, a contribuição depende do peso do salário de cada pessoa no rendimento total. Se uma receber 40% dos rendimentos do casal, assume 40% da meta mensal; a outra suporta os restantes 60%. Para calcular os valores, divide-se cada salário pelo rendimento conjunto e multiplica-se o resultado pela poupança pretendida. A meta mantém-se fixa, mas as parcelas podem ser revistas quando os rendimentos mudam.

Modelo 3: Ambos poupam a mesma percentagem

Em vez de fixarem uma quantia mensal, podem acordar uma taxa igual sobre cada salário líquido. Quem ganha mais transfere mais euros, mas ambos guardam a mesma proporção. Neste caso, o total poupado depende dos salários de cada mês. Uma subida de rendimento aumenta a contribuição e uma quebra reduz-a, podendo alterar o prazo do objetivo.

Com 1.000 e 1.800 euros, quanto conseguem poupar juntos?

Imagine um casal com 2.800 euros líquidos mensais que pretende juntar 12.000 euros em cinco anos. Sem juros e partindo do zero, precisa de poupar 200 euros por mês. Se dividir a quantia a meio, cada pessoa entrega 100 euros. Numa divisão proporcional aos salários, as contribuições seriam de 71,43 e 128,57 euros.

Se ambos optarem por poupar 10% do salário, os valores passam para 100 e 180 euros. Conseguem reunir 280 euros por mês, ou 3.360 euros por ano, atingindo os 12.000 euros em cerca de três anos e sete meses. A taxa é ilustrativa e pode ser reduzida se pesar demasiado no orçamento.

E se um dos salários for mais do dobro do outro?

Consideremos agora um casal em que uma pessoa recebe 1.200 euros líquidos e outra 2.500 euros. Com um rendimento conjunto de 3.700 euros, querem poupar 600 euros mensais. Se dividirem o valor a meio, cada um entrega 300 euros, o equivalente a 25% do salário mais baixo e 12% do mais elevado.

Podem repartir os 600 euros proporcionalmente ou adotar uma taxa igual de 15%, reduzindo a poupança mensal. A tabela permite comparar as contribuições sem impor uma escolha.

Modelo

Salário de 1.200 €

Salário de 2.500 €

Total mensal

Mesmo montante

300 € (25%)

300 € (12%)

600 €

Proporcional ao rendimento

194,59 € (16,22%)

405,41 € (16,22%)

600 €

Mesma taxa de 15%

180 € (15%)

375 € (15%)

555 €

Nota: Os valores são ilustrativos e não consideram as despesas, os juros ou outros rendimentos.

Como saber se a meta cabe no orçamento?

O salário não mostra, por si só, quanto cada pessoa consegue guardar. Para avaliar a capacidade de poupança, devem considerar a habitação, a alimentação, os transportes, as prestações de crédito e as despesas menos frequentes, como seguros ou reparações.

Antes de assumirem um compromisso, podem seguir estes passos:

  1. Somar os rendimentos líquidos regulares de ambos.
  2. Apurar as despesas essenciais, comuns e individuais, sem duplicar valores.
  3. Reservar margem para imprevistos e objetivos pessoais.
  4. Comparar o dinheiro disponível com a meta e ajustar o valor ou o prazo, se necessário.

Por exemplo, se alguém ganha 1.000 euros e tem 800 euros de despesas essenciais, poupar 100 euros deixa apenas outros 100 euros disponíveis. Mesmo uma taxa moderada pode ser exigente perante encargos elevados.

Leia ainda: Como elaborar um orçamento familiar e definir objetivos de poupança

E quando as despesas de cada um são muito diferentes?

Ter um salário mais elevado não significa necessariamente conseguir poupar mais. Despesas de saúde, prestações de crédito ou responsabilidades com familiares podem reduzir o dinheiro disponível ao final do mês. Por exemplo, duas pessoas podem receber salários semelhantes, mas uma delas ter de suportar 200 euros mensais em tratamentos médicos, ficando com menos margem para contribuir para a poupança conjunta.

Nestes casos, o casal pode ajustar as contribuições ao rendimento disponível depois das despesas essenciais, em vez de considerar apenas os salários. Contudo, é importante distinguir encargos necessários de gastos opcionais, para que quem gasta mais por escolha própria não acabe automaticamente por poupar menos. Outra possibilidade é manter a divisão acordada, mas reduzir a meta mensal para que ambos consigam cumpri-la.

Subsídios e prémios entram na poupança conjunta?

Os subsídios de férias e de Natal podem servir para reforçar a meta, mas o destino desse dinheiro deve ser combinado. Também podem calcular as contribuições com base nos rendimentos líquidos anuais, em vez de considerar apenas um salário mensal, quando a forma de pagamento difere entre os dois.

Já no caso dos prémios e das comissões, é preciso ter em conta que estes rendimentos podem variar ou não ser recebidos todos os anos. Se um elemento receber um prémio líquido de 1.500 euros e o acordo prevê guardar 20%, transfere 300 euros para a poupança comum. O essencial é não depender desse rendimento incerto para cumprir uma obrigação mensal.

Se um ficar desempregado, o outro tem de pagar mais?

Não há uma regra que obrigue um elemento a assumir automaticamente a contribuição do outro para uma meta voluntária. Perante a perda de rendimento, podem suspender uma entrega, reduzir o valor conjunto ou adiar o objetivo. As despesas essenciais e o fundo de emergência devem ser avaliados primeiro.

Mesmo a divisão proporcional pode criar dificuldades. Se o salário de 2.500 euros do segundo exemplo descer para 1.800 euros e a meta continuar nos 600 euros, a pessoa que recebe 1.200 euros passará a contribuir com 240 euros, em vez de 194,59 euros. O seu salário não aumentou, mas a contribuição sim, pelo que a meta poderá precisar de ser revista.

A poupança tem de ficar numa conta conjunta?

Não. O casal pode manter o dinheiro em contas individuais, com registo dos valores destinados ao objetivo comum, ou utilizar uma conta coletiva. Nesta última hipótese, importa conhecer as regras: numa conta solidária, qualquer titular pode movimentar os fundos sozinho; numa conta conjunta, é necessária a autorização de todos.

Se o dinheiro for destinado à entrada de uma casa, convém guardar os comprovativos das entregas e esclarecer a futura titularidade do imóvel.

Contribuir mais não garante, por si só, uma maior quota de propriedade. No regime de comunhão de adquiridos, o artigo 1724.º do Código Civil inclui, em regra, os rendimentos do trabalho no património comum dos cônjuges.

Leia ainda: Contas conjuntas ou contas separadas: Qual é a melhor opção para um casal?

Quanto deve ficar para a poupança individual?

Não há uma percentagem obrigatória. Depois de assegurar as despesas essenciais, cada pessoa pode distribuir a sua capacidade de poupança entre a meta partilhada e projetos próprios. Quem consegue reservar 90 euros, por exemplo, pode acordar colocar 60 euros na poupança comum e manter 30 euros para si.

Também é importante não confundir a reserva para emergências com o dinheiro destinado à compra de casa ou a uma viagem. O fundo deve estar disponível para imprevistos, independentemente do prazo da outra poupança.

Quando devem rever o acordo?

Mudanças de emprego, aumentos salariais, nascimento de filhos ou novas despesas justificam rever as contribuições. Se os rendimentos forem estáveis, podem fazê-lo semestralmente; quando variam muito, uma avaliação mais frequente poderá ser útil.

Registem o objetivo, o prazo, as contribuições e as condições de revisão. Se estiverem a juntar dinheiro para comprar casa, convém também combinar o destino da poupança caso o projeto não avance.

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Perguntas frequentes

O casal deve definir prioridades e atribuir um valor mensal a cada objetivo. Por exemplo, pode reservar 150 euros para a entrada de uma casa e 50 euros para as férias. O ideal é considerar o montante necessário, o prazo e a importância de cada meta. Separar os valores destinados a cada finalidade facilita o acompanhamento da poupança e evita utilizar dinheiro de um objetivo para financiar outro.

As despesas comuns incluem, habitualmente, habitação, alimentação, eletricidade, água, telecomunicações e encargos com os filhos. Já despesas com passatempos, compras pessoais ou créditos individuais podem ficar a cargo de cada pessoa. A classificação depende do acordo do casal, especialmente quando um dos elementos já tinha determinadas obrigações financeiras antes da relação.

O casal deve identificar os encargos que não paga todos os meses, como seguros, manutenção do automóvel, férias ou despesas escolares. Depois, pode dividir o valor anual previsto por 12 e reservar mensalmente essa quantia. Por exemplo, uma despesa de 600 euros por ano exige uma reserva de 50 euros mensais. Assim, evita que estes pagamentos comprometam a poupança quando chegam.

Sim. Cada pessoa pode programar uma transferência bancária para a poupança destinada ao objetivo comum, preferencialmente para os dias seguintes ao recebimento do salário. Os valores não precisam de ser iguais e podem ser alterados quando necessário. A automatização ajuda a manter a regularidade das contribuições, evitando depender do dinheiro que sobra no final do mês.

Depende do custo das dívidas e da situação financeira do casal. Amortizar créditos com juros elevados pode reduzir os encargos futuros, mas utilizar todas as poupanças para pagar empréstimos deixa o agregado mais vulnerável a imprevistos. Antes de decidir, convém comparar os juros e eventuais comissões de amortização, sem comprometer uma reserva financeira adequada às despesas essenciais.

Nem sempre, mas a tributação conjunta pode ser vantajosa quando existem diferenças significativas de rendimentos. Os casais casados ou em união de facto, desde que cumpram os requisitos legais, podem optar pela tributação conjunta ou separada. O mais indicado é simular ambas as opções no Portal das Finanças, pois o resultado depende dos rendimentos, das deduções e da composição do agregado familiar.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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