Casas na Ribeira do Porto

Sair de casa dos pais está a tornar-se um passo cada vez mais difícil para muitos jovens portugueses. Em 2025, a idade média de saída da casa dos pais situou-se nos 28,8 anos, mais dois anos e meio do que a média da União Europeia. Mas as consequências da crise da habitação podem ir além do adiamento da independência.

O relatório Portugal em Perspetiva: Uma Análise Comparada, elaborado pela Rede de Serviços de Planeamento e Prospetiva da Administração Pública (REPLAN) e publicado em outubro de 2026, identifica os custos da habitação como uma barreira à constituição de família. Uma conclusão reforçada por um estudo das Nações Unidas, que coloca as dificuldades habitacionais entre os principais obstáculos à concretização dos projetos de parentalidade.

Como é que a crise da habitação afeta a natalidade em Portugal?

A dificuldade em comprar ou arrendar casa pode levar os jovens a adiar a saída da casa dos pais e os planos de ter filhos. Segundo a REPLAN, o custo da habitação e a falta de espaço adequado condicionam a autonomia dos jovens adultos e a constituição de família. A pressão é particularmente relevante num país onde os preços das casas têm crescido muito acima dos rendimentos. Contudo, a habitação não explica, por si só, a baixa fecundidade em Portugal, que também é influenciada pela instabilidade profissional, pelos encargos associados à parentalidade e pela dificuldade em conciliar trabalho e família.

Portugal apresenta a pior evolução dos preços das casas face aos rendimentos entre 33 países

A dificuldade de acesso à habitação em Portugal destaca-se nas comparações internacionais. Segundo a REPLAN, Portugal ocupava, em 2024, a última posição entre 33 países da OCDE no indicador que compara a evolução dos preços das casas com os rendimentos das famílias. Este indicador, conhecido como house-price-to-income ratio, permite perceber se os preços da habitação estão a crescer mais depressa do que os rendimentos.

Em Portugal, o índice passou de 100, em 2015, para 147,3, em 2024. Isto significa que a relação entre os preços das casas e os rendimentos se agravou 47,3% em nove anos.

O contraste com outros países é expressivo. No mesmo período, o indicador desceu para 87 em Itália e 81,1 na Finlândia, sinalizando uma evolução mais favorável da relação entre preços e rendimentos.

Importa esclarecer que este índice não significa que Portugal tenha as casas mais caras da OCDE. Mede a evolução da acessibilidade relativamente a 2015, e não o custo absoluto da habitação em cada país.

Portugal lidera subida dos preços das casas na UE: mais 16,5% num ano

A subida dos preços das casas em Portugal manteve-se em 2026. Segundo os dados do Eurostat publicados a 1 de outubro, Portugal registou o maior aumento homólogo dos preços da habitação na União Europeia no segundo trimestre de 2026, com uma subida de 16,5% face ao mesmo período de 2025. O valor ficou muito acima da média europeia de 4,7%. A seguir a Portugal surgiram a Bulgária (15,5%) e a Lituânia (14,3%).

Numa comparação diferente, entre o segundo trimestre de 2026 e a média anual de 2025, os preços das casas em Portugal aumentaram 14,2%, a segunda maior subida entre os países da UE, apenas atrás da Bulgária (14,3%).

Os dados mostram que a valorização da habitação continuou em 2026, prolongando a pressão sobre o mercado imobiliário português identificada pela REPLAN.

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Preços das casas mais do que duplicaram entre 2015 e 2024

A análise da REPLAN, baseada em dados da OCDE, revela também a dimensão da valorização imobiliária em Portugal. Entre 2015 e 2024, o índice nominal dos preços das casas aumentou 124,4%, passando de 100 para 224,4. Mesmo descontando o efeito da inflação, a subida dos preços reais aproximou-se dos 80%.

O arrendamento apresentou uma evolução mais moderada, com um aumento de 29,5% no respetivo índice de rendas.

A valorização resulta da combinação de vários fatores identificados no relatório, incluindo a procura crescente, o investimento estrangeiro, o dinamismo do turismo e a oferta insuficiente de novas habitações.

Para os jovens, estas condições podem dificultar a compra da primeira casa ou a escolha de uma habitação com espaço suficiente para aumentar a família.

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Jovens portugueses só saem de casa dos pais perto dos 29 anos

A dificuldade em alcançar a independência habitacional também se reflete nas estatísticas europeias. Segundo os dados do Eurostat referentes a 2025, os jovens portugueses deixavam a casa dos pais, em média, aos 28,8 anos, face aos 26,3 anos registados na União Europeia. A diferença já era evidente em 2024, quando Portugal apresentava uma média de 28,9 anos, ocupando a sétima posição entre os países onde os jovens saíam mais tarde da casa dos pais.

Nesse ano, segundo o Eurostat, as diferenças entre os Estados-membros eram acentuadas:

  • Croácia: 31,3 anos;
  • Eslováquia: 30,9 anos;
  • Grécia: 30,7 anos;
  • Itália: 30,1 anos;
  • Espanha: 30 anos.

No extremo oposto encontravam-se a Finlândia, onde os jovens saíam de casa aos 21,4 anos, a Dinamarca, aos 21,7, e a Suécia, aos 21,9 anos.

Embora estas diferenças também dependam das condições laborais e sociais de cada país, mostram que a transição para a vida independente acontece em momentos muito distintos na Europa.

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Mais de um em cada cinco jovens vive numa casa sobrelotada

O problema não se limita à dificuldade em encontrar uma habitação própria. Segundo os dados do Eurostat publicados em setembro de 2026, 21,4% dos jovens portugueses entre os 15 e os 29 anos viviam em habitações sobrelotadas em 2025, contra 12,7% da população total. Na União Europeia, esta situação afetava 26,9% dos jovens da mesma faixa etária, acima dos 16,8% registados na população total.

Nota: Uma habitação é considerada sobrelotada quando não dispõe de divisões suficientes para o número e a composição dos seus residentes.

O peso dos custos da habitação também é superior entre os jovens. Em 2024, 8,4% dos portugueses entre os 15 e os 29 anos viviam em agregados que destinavam pelo menos 40% do rendimento disponível à habitação, face a 6,9% da população total, segundo o Eurostat.

Contudo, estes números não refletem todas as dificuldades de acesso à habitação. Os jovens que permanecem em casa dos pais podem não suportar os mesmos encargos que teriam ao arrendar ou comprar uma habitação, o que ajuda a explicar por que razão uma taxa de sobrecarga relativamente baixa pode coexistir com dificuldades em alcançar a independência.

Em 14 países, habitação é o terceiro maior entrave a ter os filhos desejados

A dificuldade em concretizar os projetos familiares não é exclusiva de Portugal. Segundo o relatório The Real Fertility Crisis, integrado no State of World Population 2025, do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), a habitação é o terceiro obstáculo mais referido entre os participantes de um inquérito realizado em 14 países.

O estudo, desenvolvido em parceria com a YouGov, ouviu mais de 14 mil adultos. Entre aproximadamente 10 mil participantes que tinham ou desejavam ter filhos, os principais motivos apontados para ter menos filhos do que inicialmente pretendiam foram:

  • 39%: limitações financeiras;
  • 21%: desemprego ou insegurança profissional;
  • 19%: dificuldades habitacionais, incluindo preços elevados, rendas e falta de espaço.

As respostas permitiam selecionar vários motivos, pelo que as percentagens não representam causas exclusivas.

Embora Portugal não tenha integrado este inquérito, os resultados ajudam a compreender como as condições económicas podem limitar a concretização dos projetos familiares.

O peso da habitação varia muito entre países europeus

Os resultados do inquérito mostram que a importância atribuída às dificuldades habitacionais não é igual em toda a Europa. Entre os quatro países da União Europeia incluídos no estudo, a Hungria apresentava a percentagem mais elevada de participantes que identificavam a habitação como um obstáculo a ter o número de filhos desejado.

País

Participantes que apontaram dificuldades habitacionais

Hungria

20%

Alemanha

18%

Itália

14%

Suécia

6%

Na Suécia, apenas 6% dos participantes identificaram este problema, menos de um terço da proporção registada na Hungria. Contudo, os resultados não permitem concluir que a habitação seja necessariamente mais acessível num país do que noutro. Refletem os obstáculos identificados pelos participantes na concretização dos seus projetos familiares.

O que pode ajudar os jovens a sair de casa e constituir família?

Para a REPLAN, responder aos desafios demográficos exige medidas que reduzam as dificuldades económicas dos jovens e facilitem a conciliação entre a vida profissional e familiar.

Mais habitação acessível e estabilidade financeira

O relatório identifica como prioridades o reforço da construção de novas habitações, o aumento da oferta acessível e o desenvolvimento de um parque público e cooperativo, tanto para arrendamento como para aquisição.

A estas medidas junta-se a necessidade de reduzir a precariedade laboral e reforçar a segurança económica dos jovens adultos, para que possam tomar decisões de longo prazo com maior estabilidade.

Apoios à parentalidade e melhor conciliação familiar

A disponibilidade de creches, as licenças parentais e a distribuição das responsabilidades familiares também têm um papel importante.

A REPLAN destaca a Suécia como exemplo de um país que combina licenças parentais alargadas com incentivos à partilha dos cuidados entre os progenitores. Em Portugal, considera que a gratuitidade das creches representa um avanço, embora seja necessário garantir vagas suficientes em todo o território.

O desafio, defendem as Nações Unidas, não passa apenas por aumentar o número de nascimentos, mas por criar condições para que as pessoas possam decidir livremente se querem ter filhos, quando e quantos desejam ter.

Em Portugal, melhorar o acesso à habitação é uma parte importante dessa resposta. Afinal, a dificuldade em encontrar uma casa adequada não condiciona apenas a independência dos jovens. Pode também determinar quando conseguem começar ou aumentar a família.

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Perguntas frequentes

Entre os 14 países analisados pela UNFPA, a Coreia do Sul apresentou a percentagem mais elevada. 31% dos participantes apontaram dificuldades habitacionais como um dos fatores que os levaram, ou poderiam levar, a ter menos filhos do que desejavam. No mesmo país, 58% identificaram limitações financeiras. Portugal não integrou este inquérito.

Sim, entre os participantes no inquérito internacional da UNFPA. 19% apontaram dificuldades habitacionais como um obstáculo a ter o número de filhos desejado, enquanto 12% referiram a falta de serviços de cuidados infantis suficientes ou de qualidade. Estes resultados abrangem 14 países, não incluindo Portugal, e mostram que o acesso à habitação pode ter um peso superior ao da disponibilidade de creches nas decisões de parentalidade.

Não necessariamente. Segundo o Eurostat, em 2024, 28,9% dos jovens dinamarqueses viviam em agregados que gastavam pelo menos 40% do rendimento disponível em habitação, quase o triplo da média europeia de 9,7%. Contudo, a Dinamarca estava entre os países onde os jovens saíam mais cedo da casa dos pais, aos 21,7 anos, em média. Sair mais cedo não significa, por isso, enfrentar menores encargos habitacionais.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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