Os juros estão a subir, o que nos espera e o que fazer?

As famílias portuguesas com crédito habitação já estão a sentir o aumento dos juros. Mas é possível minimizar o impacto. Veja como.

A esta altura todos já temos uma noção do que é a inflação. Já lemos e ouvimos que a inflação está muito elevada. E já todos sentimos na carteira, seja nas contas mensais, seja numa simples ida ao supermercado. 

Uma das “armas” para controlar a inflação é, precisamente, subir os juros. E é esse um dos papeis do Banco Central Europeu (BCE), que nos últimos meses realizou um conjunto de subidas das taxas de juro de referência para a Zona Euro.  

Ora, estas medidas têm como principal objetivo responder à elevada inflação que se sente, provocada, em primeiro lugar, pela recuperação económica pós-pandemia e por toda a procura acumulada nesses dois anos, e, em segundo, pela guerra na Ucrânia, a qual criou uma crise energética na Europa, com a consequente subida acentuada dos preços do gás e eletricidade, dois bens com muito impacto no custo final da produção industrial. 

Ao subir os juros, o que se quer, na prática, é restringir o consumo das famílias. Se a procura diminuir, ou pelo menos não crescer, os preços devem recuar, ou estabilizar. Assim, a subida de juros tem um impacto direto nas famílias, que veem os seus encargos com crédito aumentar.  

Este é o período que estamos a atravessar, e devemos ter consciência de que vai ser o contexto no qual vamos continuar a viver nos próximos tempos.  

O que podemos esperar para o futuro próximo? 

Se levarmos em linha de conta as projeções do BCE e a análise de diversos indicadores socioeconómicos, existe uma forte probabilidade de as taxas Euribor mais utilizadas nos contratos de crédito habitação em Portugal (Euribor a 6 e 12 meses) estarem acima dos 3% no início de 2023

A confirmar-se, este cenário representa um aumento muito significativo do custo do crédito habitação, especialmente a todos aqueles que têm um empréstimo cuja data de revisão for anterior a agosto e cujo indexante associado seja a Euribor a 12 meses.  

A título de exemplo, uma família com um crédito habitação de 250.000 euros, com um prazo a 35 anos e um spread de 1,25%, e que teve a sua escritura em fevereiro de 2021, tem nesta altura uma prestação mensal de 696 euros. Caso a Euribor a 12 meses suba para valores acima dos 3%, esta família passará a pagar 1.145 euros, mais 449 euros por mês. Na prática, esta família sentirá de um aumento 64% do encargo mensal e, no espaço de um ano, vai gastar mais 5.300 euros. 

Este cenário, que complica o orçamento familiar de quem já tem um crédito habitação, também complica quem anda à procura de comprar casa, pois com a subida acentuada dos preços do imobiliário nos últimos anos, a subida das taxas, e a necessidade da existência de capitais próprios, é mais difícil o acesso ao crédito.  

Por exemplo, alguém com 35 anos, e com um rendimento mensal líquido de 1.500 euros, há um ano tinha uma taxa de esforço que lhe permitia comprar um imóvel até 220.000 euros. Hoje só consegue comprar um imóvel de 162.500 euros, o que implica uma redução no nível de imóveis a que terá acesso, ou a necessidade de disponibilizar uma verba maior de capitais próprios. 

Que medidas tomar?  

Há vários caminhos possíveis. A solução mais adequada depende de várias questões, nomeadamente das necessidades e da situação de cada um.  

Para quem já tem crédito  

Embora todas as alturas sejam relevantes para olharmos para os nossos encargos mensais, o momento atual acrescenta à importância a urgência. Ou seja, é imperativo que olhemos de forma atenta para todos aqueles que são os nossos encargos financeiros, desde a utilização do cartão de crédito, aos créditos pessoais e automóvel, crédito habitação e carteira de seguros. Estes são os principais custos financeiros das famílias portuguesas, e são muitas vezes ignorados ou negligenciados, agravando sem necessidade o impacto no orçamento familiar.  

No fundo, se devemos estar sempre atentos às nossas despesas e na sua otimização, num período como o que vivemos atualmente é essencial rever todas as despesas, com o intuito de reduzir encargos.  

Por isso, devemos analisar periodicamente aquilo que o mercado pratica a cada momento, e perceber se faz sentido a negociação com as instituições com quem temos estes custos financeiros, ou até mesmo a mudança de instituição e/ou de produto por intermédio da realização de uma transferência ou liquidação e contratação nova.  

Esta medida simples pode significar uma poupança de milhares de euros, e o Doutor Finanças pode ajudar a melhorar o seu bem-estar financeiro.  

Outra medida que pode ser relevante, é a eventual amortização dos créditos, ou a mudança de prazos. No caso de diminuirmos o prazo, reduzimos o total de juros pagos, e no caso de aumentarmos o prazo, reduzimos o encargo mensal. Alertamos que deverá manter um fundo de reserva familiar sempre que possível, no mínimo igual a 10% do rendimento anual. Significa isto que não deve pôr em risco o seu fundo de emergência 

Para quem anda à procura de crédito 

Temos igualmente de ser diligentes na procura das melhores condições e dos menores custos associados ao crédito. Temos de investir tempo na identificação da instituição que melhor vai ao encontro das nossas necessidades, pois isso pode representar uma redução substancial no custo final do nosso crédito.  

A necessidade legal da utilização de capitais próprios para a compra de casa, também implica criarmos hábitos de poupança. Sabemos hoje que precisamos, no mínimo, de 10% do valor do imóvel mais custos e impostos para fazer face a uma compra futura, logo, temos de olhar para as nossas receitas e perceber qual o valor máximo que conseguimos poupar, sem pôr em causa o nosso conforto

Em suma, embora estejamos num contexto económico difícil, o mesmo é muito diferente da crise financeira que assolou o país entre 2009 e 2014. Os bancos nacionais estão bem em termos de liquidez e rácios de solvabilidade, o índice de emprego mantém-se estável, e existe vontade nos agentes económicos de solucionar, com medidas específicas, eventuais problemas que possam surgir nas famílias. 

É nossa convicção que o primeiro semestre de 2023 será de agravamento dos principais indicadores económicos, sendo recomendável que façamos algo que nos proteja deste contexto.  

Por outro lado, acreditamos que o segundo semestre já poderá apresentar alguma recuperação do poder de compra, e até mesmo algum desagravamento das taxas de juro de referência. Por isso, defendemos que o mercado imobiliário, embora possa ter um arrefecimento na procura, irá manter uma dinâmica muito próxima daquilo que foram os últimos anos, e consequentemente o crédito habitação vai continuar a ser uma prioridade da banca nacional.  

Nos restantes produtos de crédito, o momento positivo que se tem vindo a verificar em 2022 deverá manter-se em 2023, com destaque para o crédito automóvel, o qual se espera que venha a crescer com o aumento do número de unidades disponíveis de carros novos no mercado. 

Prepare-se para juros mais altos, com tranquilidade 

As pistas estão lançadas. Os juros vão continuar a subir. Logo o custo com os créditos vai continuar a aumentar. O truque é atuar. É antecipar-se e preparar a sua carteira para o embate.  

Reveja encargos, dos mais elevados aos mais pequenos; renegoceie os contratos de tudo o que é serviços que tem contratado. Corte no supérfluo e concentre-se no que é essencial. Não espere sentir-se sem qualquer margem para atuar. Procure especialistas que facilitem este caminho. E, já sabe, conte com o Doutor Finanças para ajudar a melhorar o seu bem-estar financeiro. 

Cláudio Santos, iniciou carreira no setor da banca em 1992 no Loyds Bank, terminando em 2012 no Deutsche Bank após passar por Banco Fomento Exterior e Banco BPI. Após uma experiência internacional de 3 anos como Diretor Comercial, ingressou em 2016 no Doutor Finanças. Atualmente é Partner, Board member e Chief Commercial Officer (CCO).

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