O Dia Mundial de Luta Contra o Cancro, que se assinalou a 4 de fevereiro, lembra‑nos sempre da coragem de quem passou por um diagnóstico difícil. E lembra‑nos também de algo menos falado: a vida financeira depois da doença. Porque vencer o cancro é uma vitória. O que não pode acontecer é que, depois disso, essa vitória venha acompanhada de uma penalização injusta no acesso a seguros que deveriam proteger, nunca excluir.
O Direito ao Esquecimento é um avanço civilizacional importante. Permite que pessoas que já ultrapassaram determinadas doenças deixem de ver o seu passado clínico a condicioná‑las para sempre. Mas é preciso ir mais longe. A legislação protege quem já venceu a doença, mas aquilo que realmente muda o desfecho das famílias é o que acontece antes da doença. É preciso darmos às pessoas as ferramentas certas, informá‑las e despertá‑las para uma realidade que, segundo as estatísticas, vai afetar cada vez mais gente. E cada vez mais jovens.
Hoje em dia, as doenças graves chegam mais cedo do que nunca. Todos conhecemos alguém que, aos 40 anos, já enfrentou um cancro ou outra condição séria. E quando isto acontece, a pessoa não perde apenas saúde, perde rendimento, perde estabilidade, ganha despesas que não estavam previstas. Baixas prolongadas de dois ou três anos (às vezes mais) obrigam muitas famílias a recorrer a crédito, cartões, ou até a soluções desesperadas para continuar o tratamento. Tudo isto num momento em que a cabeça e o coração só pedem paz.
E, no entanto, muitas destas situações podiam ser evitadas com proteção adequada. Mas a maioria só olha para estes seguros quando já precisa deles. E, nessa altura, tentar contratar um seguro de saúde que cubra uma doença já diagnosticada é, simplesmente, impossível. Não por falta de vontade das seguradoras, mas porque o risco, objetivamente, mudou.
O mesmo acontece com o seguro de vida com cobertura de doenças graves. Este é o seguro que faz a diferença: no momento do diagnóstico, deposita um capital na conta da pessoa, garantindo rendimento ao agregado e permitindo enfrentar despesas que se acumulam precisamente quando são mais pesadas. Um seguro que custa, antes da doença, menos do que um café por dia pode evitar anos de endividamento. Mas quase ninguém o contrata antes de um susto. E, depois do susto, já não é possível contratá‑lo com as mesmas condições, ou sequer contratá‑lo.
É aqui que está a questão essencial: não podemos continuar a deixar as pessoas sozinhas num momento tão vulnerável. Nem podemos aceitar que quem sobreviveu a uma doença grave seja tratado como um risco, e não como alguém que simplesmente quer reconstruir a vida.
Este não é apenas um problema dos consumidores. É um desafio, e uma oportunidade, para o setor segurador. O nosso papel não é só calcular risco. É criar soluções mais humanas, mais proporcionais e mais ajustadas ao mundo real. Um mundo onde uma doença grave pode acontecer aos 35 e não apenas aos 75. Onde a recuperação dura anos. Onde uma família não pode parar a vida para esperar que tudo volte ao normal.
Precisamos de continuar a trabalhar para que a proteção financeira seja acessível antes do problema e mais justa depois dele. Precisamos de explicar melhor, de forma clara e próxima, porque é que estes seguros são tão importantes. Não para vender mais, mas para proteger melhor.
E precisamos de evoluir para modelos que não castiguem quem venceu a maior batalha de todas.
Segurar a vida é isso mesmo: permitir que cada pessoa continue o seu caminho com dignidade, estabilidade e liberdade. E essa proteção não pode falhar quando é mais necessária.