Apesar de os mercados acionistas globais estarem a marcar em 2026 o quarto ano consecutivo de valorizações robustas, a estreia de novas empresas em Bolsa tem sido muito escassa. Sobretudo por parte de companhias de grande dimensão e com potencial para trazer um novo ímpeto aos mercados.

A tendência vai mudar nos próximos meses, pois está previsto um trio de entradas em Bolsa que promete agitar ainda mais os mercados acionistas em geral e o setor tecnológico em particular. As ofertas públicas iniciais (IPO, a sigla em inglês para Initial Public Offering) da SpaceX, OpenAI e Anthropic podem acelerar ainda mais o movimento de alta das Bolsas globais, ou representar um travão para este rally nas ações que tem vindo a ganhar mais fulgor nas últimas semanas.

É precisamente para aproveitar este momento favorável que as três companhias estão numa corrida contra o tempo para serem as primeiras a dispersar capital no mercado acionista norte-americano. Apesar de serem empresas muito jovens, os seus IPO têm potencial para estabelecer recordes no segmento de estreias em Bolsa, arrecadando muitos milhares de milhões de dólares que serão canalizados para outra corrida: a liderança da Inteligência Artificial.

Embora com poucos anos de vida (foram todas fundadas este século), estas três companhias são já bem conhecidas pelo público em geral. Sobretudo os seus produtos. A SpaceX detém a Starlink, tecnologia que fornece acesso à Internet através de satélites. A OpenAI é a criadora do ChatGPT, o modelo de Inteligência Artificial lançado no final de 2022 que marcou o início da euforia que conduziu ao atual rally nas Bolsas. A Anthropic, talvez a menos conhecida, desenvolveu o Claude, modelo de Inteligência Artificial que tem vindo a ganhar terreno ao ChatGPT nos últimos tempos.

Quando entrarem em Bolsa, estas três empresas vão entrar diretamente para a lista das cotadas mais valiosas do mundo, o que demonstra a importância que já têm no ecossistema da Inteligência Artificial. Segue-se um resumo em mais detalhe da atividade de cada uma delas: 

SpaceX na frente com o espaço no horizonte

A SpaceX foi a primeira das três a avançar com o moroso processo de admissão das ações em Bolsa. Entregou a documentação no regulador a 20 de maio, já está em road show para captar investidores e a estreia está prevista para 12 de junho.

Será o apetite dos investidores e o conselho dos bancos a determinar o preço a que vão ser vendidas as ações, mas a empresa já revelou o seu objetivo: encaixar 75 mil milhões de dólares e avaliar a empresa em pelo menos 1,8 biliões de dólares. São números que esmagam o maior IPO de sempre, que foi realizado pela petrolífera saudita Saudi Aramco em 2019 (encaixou 29,4 mil milhões de dólares).

A SpaceX passou de uma relativa outsider da indústria espacial para uma gigante do setor aeroespacial, que recebe milhares de milhões de dólares em contratos governamentais e serve de pilar ao programa espacial dos Estados Unidos. Além do negócio de lançamentos de foguetões, a SpaceX detém a Starlink, serviço de Internet de banda larga via satélite que é a principal fonte de resultados da companhia. A ambição passa por construir data centers no espaço, um projeto ainda em fase embrionária, mas com enorme potencial.

Antes do IPO, a SpaceX adquiriu a xAI, a outra companhia de Elon Musk que se dedica à Inteligência Artificial, uma aposta fundamental para a tecnológica e que justifica a avaliação tão elevada. Nos documentos que entregou ao regulador para o IPO, a SpaceX revela que o mercado onde atua tem um potencial de receitas de 28,5 biliões de dólares no longo prazo, sendo que uma fatia considerável (26,5 biliões) diz respeito à Inteligência Artificial.

O problema é que o setor está num momento em que o investimento é massivo e os resultados ainda escassos. A xAI está a consumir cerca de mil milhões de dólares em dinheiro por mês, por forma a cobrir os custos da sua infraestrutura de computação. Estes números explicam porque a SpaceX sofreu prejuízos operacionais de 6,4 mil milhões de dólares em 2025 e 2,5 mil milhões de dólares nos primeiros três meses deste ano.

A grande questão estáem saber se a avaliação da SpaceX é sustentável no mercado de ações e se os investidores estão disponíveis para pagar o crescimento futuro da companhia num setor ainda muito incerto sobre a monetização e sobre quem vão ser os vencedores. A avaliação de 1,8 biliões de dólares tem implícito um múltiplo de mais de 100 vezes as receitas anuais.  

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OpenAI luta para manter liderança

A OpenAI foi fundada em dezembro de 2015 como uma organização sem fins lucrativos dedicada à investigação em Inteligência Artificial, com o apoio inicial de um conjunto de investidores que incluiu Elon Musk. Alterou o estatuto em 2019, para diversificar as fontes de financiamento, passando a contar com o apoio de grandes tecnológicas (como a Microsoft) e investidores institucionais (japoneses do SoftBank são um dos maiores acionistas).

Foi a principal responsável pelo boom da Inteligência Artificial, quando no final de 2022 lançou o ChatGPT. Desde então tornou-se uma das companhias mais poderosas do setor, celebrando parcerias com as grandes tecnológicas e captando elevadas somas de financiamento para suportar os avultados investimentos. A empresa assumiu o compromisso de investir 1,4 biliões de dólares no desenvolvimento de infraestruturas físicas para suportar o desenvolvimento dos seus modelos de Inteligência Artificial.

A empresa liderada por Sam Altman pretende avançar nas próximas semanas com os procedimentos para vender ações em Bolsa, ainda a tempo de efetuar o IPO em 2026. A ambição passa por atingir uma avaliação em torno de 1 bilião de dólares. O objetivo de encaixe é de 60 mil milhões de dólares, não muito distante da meta da SpaceX.

Apesar de ter surgido na frente no mercado de modelos de Inteligência Artificial, a OpenAI tem vivido tempos mais conturbados nos últimos meses, devido sobretudo à concorrência mais feroz de outras companhias. O CEO da empresa lançou a operação “código vermelho” para fazer face ao sucesso do modelo Gemini lançado pela Google em dezembro do ano passado. A OpenAI terá falhado as suas próprias metas de receitas e número de utilizadores do ChatGPT, uma debilidade que está a ser atribuída ao sucesso da Anthropic, sobretudo no mercado empresarial.

Este desempenho menos favorável nos últimos meses pode tirar algum brilho ao IPO da OpenAI. Falta ainda conhecer os indicadores financeiros da tecnológica em 2026 e nos últimos anos, algo que só será revelado quando for formalizada a operação de entrada em Bolsa. Contudo, é expectável que a companhia tenha registado elevados prejuízos devido aos custos para o desenvolvimento dos seus serviços, algo que não deverá ser suficiente para afastar o interesse dos investidores

As estimativas dos analistas apontam para receitas anuais de 30 mil milhões de dólares este ano e notícias com base em fontes não oficiais dão conta de que a OpenAI tem uma previsão interna de 14 mil milhões de dólares em prejuízos em 2026, com as perdas a acumularem 44 mil milhões de dólares até a companhia registar os primeiros lucros em 2029. 

Anthropic ganha terreno

A Anthropic deu mais um passo no processo de entrada em Bolsa, com a entrega do pedido confidencial do IPO junto do regulador do mercado norte-americano. A nível operacional também está a posicionar-se na linha da frente, o que, aliado aos indicadores financeiros mais equilibrados, pode representar um trunfo muito importante para atrair investidores para a venda de ações e conseguir uma avaliação mais elevada.

A companhia foi fundada em 2021, por um conjunto de trabalhadores da OpenAI. Uma decisão motivada pelo descontentamento com o ritmo a que os modelos de Inteligência Artificial eram desenvolvidos e lançados, e também a preocupação com a segurança das aplicações, à medida que a empresa se tornava cada vez mais comercial e orientada para o produto.

Cinco anos depois, a Anthropic também está orientada para o lucro e nos últimos meses lançou uma série de ferramentas de Inteligência Artificial que a coloca na disputa da liderança do mercado com a OpenAI, sobretudo nas ofertas para empresas. O potencial dos modelos Claude é de tal forma poderoso e disruptivo que provocou uma queda muito acentuada nas cotações das empresas de software, vistas como ameaçadas pelo avanço tecnológico.

Este progresso está a ter reflexos nas contas e valor da Anthropic, que já passou à frente da OpenAI nestas frentes. De acordo com os media especializados, a dona do Claude estima receitas de 10,9 mil milhões de dólares no segundo trimestre, duplicando o registo dos três meses anteriores, num período que já deverá ficar marcado por lucros. O volume de receitas mensais já é superior ao da rival do ChatGPT.

A Anthropic fechou, no final de maio, uma nova ronda de financiamento, em que angariou 65 mil milhões de dólares e ficou avaliada em 965 mil milhões de dólares. Um valor que supera pela primeira vez o valor atribuído à OpenAI, que ficou avaliada em 852 mil milhões de dólares na última ronda de financiamento. A diferença é curta e o objetivo da Anthropic para o IPO é semelhante: angariar 60 mil milhões de dólares.

Vale a pena investir em IPO?

Quando as empresas optam por dispersar capital em Bolsa, visam proporcionar o encaixe máximo e aproveitar os momentos favoráveis dos mercados acionistas, daí que, em muitas operações desse género, as ações sejam vendidas por preços que limitam o retorno dos investidores, ou acabam mesmo por gerar perdas.

Esta constatação é confirmada por uma análise efetuada pela Reuters. Os 50 maiores IPO realizados nos últimos cinco anos geraram uma rendibilidade inferior ao índice norte-americano S&P500 em três quartos das operações, o que mostra como é difícil encontrar estreias em Bolsa atrativas para os investidores.

De acordo com os cálculos da agência de informação, quem comprou ações nestes 50 IPO obteve um ganho de 27% até 21 de maio deste ano. No mesmo período, o S&P500 valorizou 53%, pelo que teria sido uma opção bem mais favorável comprar um simples ETF do índice norte-americano, em alternativa a participar nestes IPO, que muitas das vezes nem estão disponíveis para os investidores de retalho. 

A análise da Reuters chega ainda a outra conclusão relevante. Se participar nos IPO tem sido uma opção pouco acertada, comprar ações nos primeiros dias após a estreia é uma estratégia ainda mais questionável, pois os títulos tendem a corrigir após os primeiros momentos de euforia.

Tendo em conta o momento muito favorável que se verifica nos mercados acionistas em geral e nas empresas de Inteligência Artificial em particular, dificilmente a SpaceX, OpenAI e Anthropic não vão querer maximizar o encaixe financeiro com os IPO, que vai aliviar as elevadas necessidades de financiamento para investir no reforço da capacidade de computação. Dito de outra forma, ganhar a corrida dos IPO para estar na linha da frente na corrida da liderança na Inteligência Artificial.

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