Sempre que surge uma nova tecnologia, repetimos um padrão: sobrestimamos o impacto imediato e subestimamos as mudanças estruturais. Com a inteligência artificial, está a acontecer o mesmo.
A inteligência artificial não vai substituir os especialistas. Vai substituir o consumidor que existia até agora.
A discussão tem-se centrado nas profissões – que empregos vão desaparecer, que funções vão sobreviver, que setores serão mais afetados. São perguntas legítimas, mas podem estar a falhar o essencial.
A mudança mais profunda não está nos especialistas. Está nos consumidores.
Durante décadas, a relação entre especialistas e clientes assentou numa assimetria simples: a informação era escassa. Comprar casa implicava depender do banco para perceber o crédito. Questões legais exigiam um advogado. O conhecimento estava concentrado.
A internet começou a alterar esse equilíbrio. Mas a inteligência artificial leva-o para um novo nível. Pela primeira vez, qualquer pessoa pode aceder a explicações, comparar alternativas e explorar decisões complexas de forma autónoma, personalizada e imediata.
O ponto de partida mudou. O consumidor já chega mais informado.
Mas saber mais não significa decidir melhor.
Nas finanças pessoais, por exemplo, alguém pode passar meia hora a explorar uma decisão com uma ferramenta de IA – simular cenários, comparar opções, clarificar conceitos. Ainda assim, a decisão pode falhar. Não por falta de informação, mas por excesso de confiança, emoções ou dificuldade em avaliar risco.
Durante anos, assumimos que o problema era falta de informação. A inteligência artificial vai testar essa ideia.
E ao fazê-lo, altera o papel dos especialistas.
A redução da assimetria de informação não elimina especialistas – elimina apenas aqueles cujo valor dependia dela. O que muda é a natureza desse valor.
Num contexto onde o conhecimento é abundante, o diferencial deixa de ser saber mais. Passa a ser saber usar melhor. Interpretar. Contextualizar. Questionar. Identificar o que está errado ou mal aplicado. Ajudar a decidir.
O valor desloca-se do acesso ao conhecimento para o julgamento sobre o conhecimento.
Num mundo em que a informação é infinita, o discernimento continua a ser escasso. Talvez a maior contribuição da inteligência artificial não seja responder às nossas dúvidas, mas lembrar-nos que o verdadeiro valor nunca esteve nas respostas, esteve sempre na capacidade de fazer as perguntas certas.
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