Quando ouvimos falar de inflação, a reação natural é simples: quanto mais baixa, melhor. Afinal, se os preços não subirem, o nosso dinheiro dura mais tempo. Certo? Não necessariamente.

É precisamente por isso que o Banco Central Europeu (BCE) não procura uma inflação de 0%, mas sim uma inflação próxima dos 2%. À primeira vista, pode parecer estranho. Por que é que uma instituição cuja missão é proteger o valor do euro aceita que os preços continuem a subir todos os anos?

A resposta está no delicado equilíbrio entre crescimento económico, emprego e estabilidade financeira.

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O que aconteceria com uma inflação de 0%?

Imaginemos uma economia onde os preços permanecem exatamente iguais durante anos. Parece um cenário ideal. No entanto, basta um pequeno choque económico para que a inflação passe de 0% para valores negativos. Quando isso acontece, entramos em deflação. E a deflação pode tornar-se um problema sério.

Se as pessoas acreditarem que os preços vão baixar no futuro, tendem a adiar compras. Se um automóvel custar menos daqui a seis meses, porque comprá-lo hoje? Se uma casa estiver mais barata no próximo ano, porque avançar agora? Quando milhões de pessoas tomam esta decisão ao mesmo tempo, as empresas vendem menos, investem menos e contratam menos trabalhadores. A economia começa a travar.

Foi precisamente este fenómeno que marcou a economia japonesa durante décadas.

Então, porque não aceitar uma inflação mais elevada?

Se 0% é demasiado baixo, porque não definir um objetivo de 3%, 4% ou até 5%?

O problema é que a inflação também tem custos. Quanto mais rapidamente os preços sobem, mais difícil se torna planear o futuro. As famílias têm mais dificuldade em gerir o orçamento. As empresas enfrentam maior incerteza. Os investidores exigem maiores retornos para compensar a perda de valor do dinheiro. Além disso, a inflação corrói silenciosamente o poder de compra. Um produto que custa 100 euros hoje, passa a custar 105 euros com uma inflação de 5%. Ao fim de alguns anos, a diferença torna-se significativa.

Porque é que os 2% são vistos como o ponto de equilíbrio?

Os 2% surgem como um compromisso.

São suficientemente baixos para preservar o poder de compra das famílias. Mas são também suficientemente altos para evitar que a economia entre facilmente em deflação. Ao mesmo tempo, dão margem de manobra aos bancos centrais quando surgem crises. Quando a economia abranda, o BCE pode reduzir as taxas de juro para estimular o consumo e o investimento. Se a inflação estivesse demasiado próxima de zero, essa capacidade seria mais limitada. Por outras palavras, os 2% funcionam como uma espécie de “almofada de segurança” para a economia.

É um número científico?

Curiosamente, não. Não existe uma fórmula matemática que demonstre que 2% é o valor perfeito. O número foi ganhando força ao longo das últimas décadas à medida que vários bancos centrais concluíam que este nível permitia alcançar um equilíbrio razoável entre estabilidade dos preços e crescimento económico. Hoje, a maioria dos grandes bancos centrais do mundo utiliza metas muito semelhantes. Isso não significa que o debate esteja encerrado. Alguns economistas defendem que, num mundo mais endividado e sujeito a crises frequentes, uma meta de 3% poderia oferecer mais flexibilidade. Outros acreditam que qualquer aumento do objetivo colocaria em risco a credibilidade dos bancos centrais.

O que significa isto para as famílias?

Na prática, significa que o BCE não pretende eliminar completamente a subida dos preços. O objetivo é garantir que essa subida seja moderada, previsível e compatível com uma economia saudável. Quando a inflação se afasta demasiado dos 2% – seja para cima ou para baixo – o BCE tende a intervir através das taxas de juro.

É por isso que uma decisão tomada em Frankfurt pode acabar por influenciar a prestação da casa em Lisboa, o juro de um depósito a prazo no Porto ou o custo de um crédito automóvel em Faro. No fundo, os 2% representam algo simples: uma tentativa de encontrar o equilíbrio entre proteger o valor do dinheiro hoje e garantir o crescimento económico de amanhã.

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