Imagine um seguro que paga a indemnização sem que ninguém tenha de provar o valor do prejuízo, preencher uma participação de sinistro ou esperar semanas por uma peritagem. Basta que determinado evento mensurável aconteça, como um sismo acima de uma certa magnitude, uma temporada de chuvas abaixo de um limiar definido, um voo cancelado ou uma onda de calor que ultrapasse uma temperatura de referência, para que o pagamento seja acionado automaticamente.
Este é o princípio do seguro paramétrico: em vez de indemnizar com base no prejuízo real, paga com base na ocorrência de um evento previamente definido e mensurável.
Durante muito tempo, este modelo viveu à margem do seguro tradicional, utilizado sobretudo em nichos específicos, como a agricultura, as grandes infraestruturas ou a cobertura de catástrofes naturais. Mas a verdade é que o contexto mudou. E isso leva-me a acreditar que estamos perante uma das evoluções mais relevantes da indústria seguradora dos próximos anos.
Não porque o setor tenha descoberto uma nova moda ou porque a tecnologia o permite. Mas porque a realidade está a obrigar o mercado a procurar respostas diferentes.
Nos últimos anos, habituámo-nos a ouvir falar de alterações climáticas em estudos científicos, conferências internacionais ou relatórios económicos. Hoje, deixaram de ser um tema distante. São uma realidade operacional para famílias, empresas, seguradoras e Estados.
Os fenómenos extremos são mais frequentes, mais intensos e mais dispendiosos. E isso está a colocar uma pressão crescente sobre os modelos tradicionais de proteção.
Durante décadas, o seguro foi construído com base numa lógica relativamente simples: avaliar o dano, calcular o prejuízo e indemnizar o segurado. O problema é que, quando falamos de eventos de grande dimensão, a velocidade com que o apoio financeiro chega pode ser tão importante como o valor da própria indemnização.
É precisamente aqui que o seguro paramétrico começa a fazer sentido. E a grande inovação deste modelo não é tecnológica. É conceptual.
O seguro paramétrico parte de uma pergunta diferente: em vez de perguntar quanto perdeu uma pessoa ou uma empresa, pergunta quando precisa de liquidez para recuperar.
A diferença pode parecer subtil, mas é enorme.
Uma empresa cuja atividade fica interrompida por uma tempestade não consegue esperar meses para ter acesso aos recursos financeiros de que necessita para continuar a operar. Uma família que perde a sua habitação precisa de começar a reorganizar a sua vida nos dias seguintes ao evento, não apenas quando termina um processo de regularização.
Por isso, o crescimento deste tipo de soluções deve ser interpretado como uma resposta à evolução do próprio risco.
Quando observamos que as perdas globais associadas a catástrofes naturais ultrapassam, ano após ano, os 100 mil milhões de dólares, percebemos que o mercado não está a inovar por gosto. Está a adaptar-se porque o contexto mudou.
E talvez seja precisamente por isso que a verdadeira discussão já não seja escolher entre seguros tradicionais e seguros paramétricos. O futuro, tudo indica, será híbrido.
Os modelos que me parecem mais interessantes são aqueles que combinam as duas abordagens. Por um lado, mantêm a capacidade de avaliar e indemnizar o prejuízo real. Por outro, garantem uma libertação rápida de liquidez através de gatilhos paramétricos previamente definidos.
Esta combinação permite resolver um dos maiores desafios do setor: responder rapidamente sem abdicar do rigor.
A inteligência artificial está também a acelerar esta transformação. Hoje é possível analisar dados meteorológicos, imagens de satélite e indicadores de risco em tempo real com níveis de precisão que eram impensáveis há poucos anos. Isso permite desenhar soluções mais robustas e reduzir muitas das limitações que historicamente existiam neste tipo de produtos.
Mas talvez o melhor exemplo da relevância desta discussão esteja mais perto de nós do que imaginamos.
A tempestade Kristin, no início de 2026, provocou mais de 200 mil participações de sinistro em Portugal. Mesmo vários meses depois, continuavam a existir processos por regularizar, sobretudo nos casos empresariais mais complexos.
Não se trata de uma falha das seguradoras. Trata-se da própria natureza destes processos. Avaliar danos, apurar responsabilidades e calcular indemnizações exige tempo.
Ainda assim, o caso leva-me a colocar uma questão: quantas famílias e quantas empresas beneficiariam se uma parte do apoio financeiro pudesse chegar dias depois do evento, em vez de meses? É essa pergunta que explica o interesse crescente pelo seguro paramétrico.
Porque quando falamos de alterações climáticas, não estamos apenas a falar de fenómenos meteorológicos. Estamos a falar da capacidade das pessoas e das empresas recuperarem mais rapidamente quando esses fenómenos acontecem. E isso pode ser tão importante como a própria indemnização.
Por essa razão, acredito que o seguro paramétrico deixará de ser um produto de nicho para se tornar uma componente cada vez mais relevante da gestão do risco climático. A questão já não é se terá espaço no mercado. A questão é quão depressa conseguiremos adaptar os nossos modelos de proteção a um mundo onde os eventos extremos deixaram de ser excecionais e passaram a fazer parte da nova normalidade.