A igualdade de género atingiu em 2026 o nível mais elevado desde que o Fórum Económico Mundial começou a medir as diferenças entre mulheres e homens, há duas décadas. Ainda assim, a paridade global está longe de ser alcançada: apenas 69,2% da disparidade foi eliminada e, se se mantiver o ritmo observado desde 2006, serão necessários 120 anos para fechar o fosso por completo. Nenhuma das 145 economias analisadas atingiu ainda a paridade, de acordo com o Global Gender Gap Report 2026.
Contudo, o ritmo de progresso varia muito consoante a área. A educação poderá atingir a paridade em oito anos, enquanto no poder político seriam necessários 194 anos, caso se mantenha a trajetória das últimas duas décadas. Na Europa, a estimativa é de 70 anos, o que significa que uma rapariga nascida em 2026 poderá chegar aos 70 anos sem assistir a uma situação de paridade entre mulheres e homens.
Igualdade de género avança, mas continua longe da paridade
Os 69,2% registados em 2026 significam que, em média, foi percorrido pouco mais de dois terços da distância até à paridade nos indicadores analisados. Por outras palavras, ainda falta eliminar 30,8% da diferença entre mulheres e homens nas áreas avaliadas pelo índice, que abrangem emprego e rendimento, educação, saúde e participação política.
A melhoria no último ano foi de apenas 0,4 pontos percentuais entre as economias que constam das duas edições mais recentes. Cerca de dois terços avançaram, mas 36% apresentaram uma pontuação inferior à de 2025.
Quanto à perspetiva de longo prazo, a mudança tem sido lenta. Nas 97 economias acompanhadas desde a primeira edição, a paridade passou de 64,2% em 2006 para 69,4% em 2026, um ganho de 5,2 pontos percentuais em duas décadas.
Educação e política estão em extremos opostos
As quatro áreas avaliadas apresentam realidades muito diferentes. A educação está praticamente em paridade, enquanto a política continua a concentrar a maior desigualdade.
Área | Paridade em 2026 | Falta fechar | Variação anual | Tempo estimado até à paridade |
Índice global | 69,2% | 30,8% | +0,4 p.p. | 120 anos |
Educação | 96,9% | 3,1% | +1,6 p.p. | 8 anos |
Saúde e sobrevivência | 96,2% | 3,8% | +0,1 p.p. | Sem estimativa |
Participação económica | 61,7% | 38,3% | +0,4 p.p. | 129 anos |
Poder político | 22,1% | 77,9% | -0,4 p.p. | 194 anos |
Nota: As estimativas resultam da continuação do ritmo histórico e não representam uma data garantida para a paridade.
A política foi também a única área que piorou em 2026. A pontuação caiu de 22,5% para 22,1%, enquanto a educação registou o maior avanço anual.
E a desigualdade aumenta quando se olha para os indicadores mais ligados ao poder: a paridade mundial é de 73,7% entre profissionais e técnicos, mas desce para 41,7% entre legisladores, altos responsáveis e gestores. Na igualdade salarial percecionada situa-se nos 64,7% e no rendimento estimado nos 54,9%.
O mesmo acontece na política. A paridade é de 32% nos parlamentos, 23,7% nos cargos ministeriais e apenas 14,4% quando se consideram os anos com mulheres na chefia dos Estados ao longo das últimas cinco décadas.
Em 64 das 145 economias, nenhuma mulher ocupou a liderança nacional durante esse período.
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Islândia lidera, mas a riqueza não garante mais igualdade
A Islândia continua no primeiro lugar do ranking, com 93% da disparidade entre mulheres e homens fechada, e é a única economia acima dos 90%. Seguem-se a Finlândia, com 87,2%, a Noruega, com 85,7%, e a Namíbia, com 84,5%. Reino Unido, Nova Zelândia, Suécia, Austrália, Alemanha e Irlanda completam os dez primeiros lugares. Sete das dez economias mais bem classificadas são europeias.
No fundo da tabela surgem o Chade, com 57,8%, o Irão, com 58,5%, e o Paquistão e a República Democrática do Congo, ambos com 59,5%. Estes valores significam que, entre as 145 economias analisadas, são as que ainda apresentam maiores diferenças entre mulheres e homens nos indicadores avaliados.
A posição no ranking, contudo, não depende apenas da riqueza de cada país. Em média, as economias de rendimento elevado apresentam uma pontuação de 74,5%, enquanto as de baixo rendimento ficam nos 65,8%. Mas há exceções importantes. A Namíbia, apesar de pertencer ao grupo de rendimento médio-baixo, apresenta um resultado superior ao de 95% das economias de rendimento elevado. Já o Burundi, uma economia de baixo rendimento, supera 65% das economias mais ricas.
O ranking também pode mudar de forma significativa de um ano para o outro. Em 2026, as maiores melhorias foram registadas pelas Maldivas, com mais 4,4 pontos percentuais, pelo Níger, com mais 4,2, por Angola, com mais 3,7, e pela Guatemala e Namíbia, ambas com mais 3,4 pontos.
América Latina aproxima-se mais depressa da paridade
A América Latina e Caraíbas é a região que mais avançou desde 2006, com uma melhoria de 8,6 pontos percentuais. Se mantiver o ritmo observado nas últimas duas décadas, poderá chegar à paridade em cerca de 60 anos, dez anos antes da Europa.
Ainda assim, é a Europa que apresenta atualmente a pontuação mais elevada, com 75,7% da disparidade entre mulheres e homens fechada. Seguem-se a América do Norte, com 75,2%, e a América Latina e Caraíbas, com 74,5%. A diferença está, portanto, entre quem está hoje mais perto da paridade e quem está a avançar mais depressa.
Região | Paridade global | Economia | Educação | Saúde | Política | Anos até à paridade |
Europa | 75,7% | 69,5% | 99,5% | 96,9% | 37,0% | 70 |
América do Norte | 75,2% | 77,1% | 100% | 97,2% | 26,4% | 108 |
América Latina e Caraíbas | 74,5% | 66,4% | 99,6% | 97,7% | 34,2% | 60 |
Ásia Oriental e Pacífico | 70,3% | 71,4% | 98,5% | 95,6% | 15,5% | 144 |
Ásia Central | 70,0% | 71,0% | 99,3% | 97,3% | 12,6% | 202 |
África Subsaariana | 68,8% | 70,6% | 89,5% | 96,8% | 18,1% | 102 |
Sul da Ásia | 64,5% | 40,9% | 95,9% | 95,7% | 25,4% | 149 |
Médio Oriente e Norte de África | 62,5% | 44,8% | 97,8% | 96,2% | 11,5% | 182 |
A comparação entre regiões também mostra porque é importante não interpretar este índice como uma medida de riqueza ou qualidade de vida. A África Subsaariana, por exemplo, tem 70,6% de paridade económica, ligeiramente acima dos 69,5% da Europa. Isto não significa que as mulheres africanas tenham rendimentos ou condições de trabalho superiores às europeias. Significa apenas que, nos indicadores avaliados, a diferença entre mulheres e homens é menor.
O Médio Oriente e Norte de África mostra outro contraste. A região está muito perto da paridade na educação, com 97,8%, mas fica nos 44,8% na participação económica e nos 11,5% no poder político. Ter níveis semelhantes de acesso à educação não significa, por isso, que mulheres e homens encontrem depois as mesmas oportunidades no emprego, nos rendimentos ou na tomada de decisões.
Portugal sobe para 32.º lugar
Portugal apresenta 76,3% de paridade entre mulheres e homens e ocupa o 32.º lugar entre as 145 economias analisadas. Dentro da Europa, fica na 18.ª posição entre 40 economias. Contudo, há um pormenor importante na evolução portuguesa. Portugal subiu dois lugares no ranking face a 2025, apesar de a sua pontuação ter recuado 0,3 pontos percentuais. Ou seja, a melhoria da posição não significa que tenha havido um avanço na igualdade de género. Resulta também da evolução das economias que estavam próximas no ranking.
Quando se compara Portugal com a Europa e com o mundo, a maior vantagem está na participação económica. A principal distância face à média europeia aparece no poder político.
Área | Portugal | Europa | Mundo |
Participação económica | 75,6% | 69,5% | 61,7% |
Educação | 99,7% | 99,5% | 96,9% |
Saúde e sobrevivência | 97,0% | 96,9% | 96,2% |
Poder político | 33,0% | 37,0% | 22,1% |
Portugal está, assim, 6,1 pontos percentuais acima da média europeia na dimensão económica e praticamente alinhado com a região na educação e na saúde.
Já na política fica quatro pontos abaixo da média europeia, embora se mantenha acima dos 22,1% registados mundialmente.
As mulheres representam 36,52% dos lugares no Parlamento e 37,5% dos cargos ministeriais contabilizados pelo índice. A diferença é muito maior no indicador histórico que mede os anos com uma mulher na chefia do Estado ao longo das últimas cinco décadas, onde Portugal apresenta apenas 0,9% de paridade.
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Em Portugal, as mulheres estão mais qualificadas do que representadas na liderança
É na passagem das qualificações para os cargos de maior responsabilidade que surge uma das diferenças mais evidentes em Portugal. As mulheres representam 52,61% dos profissionais e técnicos, pelo que neste indicador existe paridade. Porém, entre legisladores, altos responsáveis e gestores, a presença feminina desce para 38,87%.
A mesma diferença aparece noutros indicadores. As mulheres ocupam 35,8% dos lugares nos conselhos de administração e 47,8% das empresas têm propriedade maioritariamente feminina. No entanto, apenas 19,08% têm uma mulher como principal gestora.
Há também diferenças no rendimento. A paridade no rendimento estimado é de 76,7%, com um rendimento anual estimado de cerca de 36,9 mil dólares internacionais para as mulheres e 48,1 mil para os homens. Já a igualdade salarial por trabalho semelhante apresenta uma pontuação de 63,1%. Neste caso, o valor resulta da perceção recolhida pelo Fórum Económico Mundial junto de executivos e não de uma comparação direta dos salários pagos.
Portuguesas quase em paridade na educação, mas em áreas de estudo diferentes
Portugal está praticamente em paridade na educação, com uma pontuação de 99,7%. Isto significa que as diferenças no acesso aos vários níveis de ensino são hoje muito pequenas. Porém, essa igualdade não significa que mulheres e homens escolham as mesmas áreas de formação. Entre as mulheres diplomadas, 17,09% estudaram áreas STEM, sigla inglesa para ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Entre os homens, a percentagem sobe para 41,79%.
A diferença é particularmente visível na engenharia, indústria e construção, escolhidas por 10,12% das diplomadas e 30,17% dos diplomados. Nas tecnologias de informação e comunicação, são 0,99% entre as mulheres e 5,59% entre os homens.
Em áreas como saúde e bem-estar, a relação inverte-se: 22,91% das diplomadas seguem esta área, contra 8,52% dos homens. Os números mostram que a paridade no acesso ao ensino não eliminou a divisão entre áreas de estudo.
Quanto mais se sobe, menos mulheres há
A dificuldade em chegar aos lugares de decisão não é exclusiva de Portugal. Os dados profissionais analisados no relatório mostram que a presença das mulheres vai diminuindo à medida que se sobe na hierarquia das empresas.
Em 57 economias, as mulheres ocupam em média 46% das funções de entrada, mas apenas 23% dos cargos de topo. Isto significa que a sua representação fica reduzida a metade entre o início da carreira e os níveis mais elevados de gestão.
As diferenças também variam muito consoante a função. As mulheres representam 19,1% dos presidentes executivos, 27% dos diretores financeiros e 24% dos diretores de operações. Nos cargos ligados à tecnologia, a presença é ainda menor: apenas 8,6% dos diretores de tecnologia são mulheres.
Os dados mais recentes mostram ainda um abrandamento nas contratações. A proporção de mulheres entre as novas admissões passou de 42,7% em 2016 para 45,8% em 2022, mas recuou para 44,4% em junho de 2026. A redução desde 2022 foi mais acentuada nas contratações para cargos de gestão de topo.
As interrupções de carreira também afetam mulheres e homens de forma diferente. Entre as pessoas que indicam ter feito uma pausa profissional, as mulheres são quase duas vezes mais propensas a fazê-lo. A parentalidade a tempo inteiro é apontada como motivo por 26,5% das mulheres, contra 6% dos homens.
E o efeito pode prolongar-se depois do regresso. Entre profissionais séniores sem funções de gestão que interromperam a carreira por parentalidade, 6,3% das mulheres tinham progredido ao fim de um ano, face a 9,1% dos homens. Três anos depois, as percentagens eram de 7,2% e 10%, respetivamente.
IA e capital abrem novos fossos
A inteligência artificial é uma das áreas onde começam também a surgir diferenças importantes. A presença feminina é maior nas funções de apoio aos sistemas de IA do que nas profissões que os desenvolvem.
Em 19 economias analisadas, sem incluir a China, as mulheres representam 44,8% dos anotadores de dados, profissionais que classificam e organizam informação utilizada pelos sistemas de inteligência artificial. Já entre engenheiros de IA são apenas 19,3% e entre engenheiros de aprendizagem automática ficam nos 20,6%.
O setor financeiro apresenta um padrão semelhante quando se compara a participação geral com os lugares de decisão. Nos mercados de capitais, as mulheres representam 40,4% dos trabalhadores, mas apenas 31% da gestão de topo. Nos seguros, correspondem a 48,3% da força de trabalho e 28,9% dos cargos superiores.
A diferença chega também às instituições que tomam decisões sobre política monetária. Entre os bancos centrais das economias abrangidas pelo índice, 16,4% dos governadores são mulheres. A percentagem sobe para 19% quando são incluídos bancos centrais regionais.
No empreendedorismo, as mulheres representavam cerca de 28,4% dos fundadores na amostra analisada durante a primeira metade de 2026. Em paralelo, equipas constituídas exclusivamente por mulheres receberam aproximadamente 2% do investimento mundial de capital de risco em 2025.
Nota: Os dois números não devem ser comparados diretamente, porque resultam de amostras e metodologias diferentes.
Leis avançam, aplicação fica para trás
A redução das desigualdades também depende das regras que determinam o acesso ao emprego, à remuneração, à propriedade, ao crédito ou à proteção durante a parentalidade.
O relatório analisou perto de 2.000 reformas legais adotadas nas 145 economias desde a década de 1970. Em 96% dos casos, as alterações foram no sentido de reforçar os direitos económicos das mulheres. As mudanças foram particularmente frequentes nas regras relacionadas com o trabalho, que representam 21% das reformas, e com a parentalidade, que correspondem a 18%.
Porém, criar uma regra não significa que esta produza imediatamente efeitos. Entre a aprovação e a entrada em vigor de uma reforma passam, em média, 99 dias. O intervalo é de 38 dias nas medidas sobre cuidados infantis, mas chega aos 218 dias nas reformas das pensões.
O relatório identifica ainda diferenças entre aquilo que está previsto na lei e a forma como essas regras são aplicadas. As disposições relativas à igualdade salarial estão entre as que recebem avaliações mais baixas quanto à aplicação efetiva. O mesmo acontece em áreas do empreendedorismo, como o acesso ao crédito, e em algumas proteções no mercado de trabalho.
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O maior desafio está no acesso ao poder e aos recursos
Os dados das últimas duas décadas mostram que houve avanços importantes. Em muitas economias, mulheres e homens estão hoje muito próximos no acesso à educação e a presença feminina aumentou no mercado de trabalho, nos parlamentos e em várias profissões qualificadas.
Mas os números de 2026 revelam também onde a igualdade continua mais difícil de alcançar. As diferenças aumentam quando se passa da educação para o rendimento, da entrada no mercado de trabalho para a gestão, da criação de empresas para o acesso ao capital e da participação política para os cargos com maior poder.
É aí que se concentra uma parte crescente do desafio. Depois de aumentar a participação das mulheres, a próxima etapa passa por aproximar as oportunidades de progressão, os recursos económicos e o poder de decisão entre mulheres e homens. Essa diferença ajuda a explicar porque é que algumas áreas estão muito perto da paridade, enquanto outras poderão ainda precisar de várias gerações para lá chegar.
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Perguntas frequentes
Igualdade de género significa que mulheres e homens têm os mesmos direitos, responsabilidades e oportunidades, independentemente do sexo. Não significa que tenham de ser iguais em tudo, mas que fatores como o género não condicionem o acesso à educação, trabalho, rendimento, recursos ou participação nas decisões.
Não. A igualdade procura garantir os mesmos direitos e oportunidades a todas as pessoas. A equidade está relacionada com a forma de alcançar essa igualdade e pode exigir medidas diferentes para corrigir desvantagens existentes. São conceitos relacionados, mas não significam exatamente o mesmo.
Não. A igualdade de género diz respeito às oportunidades, direitos e responsabilidades de mulheres e homens. Pode envolver, por exemplo, aumentar a presença feminina em cargos de decisão, mas também promover uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades familiares e reduzir estereótipos que condicionam as escolhas profissionais de ambos.
Sim. Entre 2014 e 2024, a percentagem de lugares nos conselhos de administração ocupados por mulheres quase duplicou, de 15,2% para 29,3%. Contudo, a presença feminina na liderança destes órgãos avançou muito menos, de 3,2% para apenas 5,2%.
Ainda não. Nas 96 economias com dados comparáveis, a percentagem de mulheres com uma conta financeira aumentou de 52,1% em 2011 para 73,6% em 2025. Entre os homens, subiu de 57,5% para 79,5%. O acesso cresceu mais entre as mulheres, mas em 2025 permanecia uma diferença de 5,9 pontos percentuais.
Ainda de forma limitada. O número de pastas ministeriais lideradas por mulheres aumentou 26% desde 2008, mas a distribuição por nível de influência mudou pouco. Há quase duas décadas, apenas cerca de uma em cada dez pastas ocupadas por mulheres era considerada de elevada influência e essa proporção manteve-se praticamente inalterada.
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