Quando analisamos o mercado imobiliário, há um indicador que costuma monopolizar a atenção: o preço das casas. Sobe ou desce? Abranda ou acelera? Mas, neste terceiro trimestre, acredito que o número mais importante não é o preço. É o tempo.
Os dados mais recentes mostram uma realidade que, à primeira vista, pode parecer contraditória. Entre abril e junho foram transacionadas menos habitações do que no período homólogo do ano passado, mas o valor total dos negócios continuou a aumentar. Em simultâneo, os preços mantêm uma trajetória de subida, embora a um ritmo mais moderado.
A leitura mais simples seria dizer que o mercado está a abrandar. A leitura mais interessante é perceber como está a abrandar.
Os dados do Observatório Imobiliário do Doutor Finanças sugerem que a mudança está menos nos preços e mais na velocidade dos negócios. Nos apartamentos, o tempo médio necessário para concretizar uma venda aumentou para 132 dias, um crescimento de 25% face ao período anterior. Ao mesmo tempo, a taxa de absorção diminuiu, o que significa que uma menor percentagem dos imóveis anunciados está a resultar em negócio.
Traduzindo para a linguagem do dia a dia: as casas continuam a vender-se, mas demoram mais tempo a encontrar comprador.
Limitações financeiras das famílias aumentam o tempo de mercado
Este é um sinal importante porque nos ajuda a perceber o atual equilíbrio entre oferta e procura. Se durante vários anos assistimos a um mercado marcado pela urgência, com compradores a competir por um número limitado de imóveis, hoje o contexto parece ser diferente. As famílias continuam interessadas em comprar casa, mas enfrentam limitações financeiras que não podem ser ignoradas.
Nos últimos anos, o mercado imobiliário habituou-se a crescer apoiado na expectativa de que os preços continuariam a subir e de que haveria sempre procura disposta a acompanhar essa valorização. Hoje, esse equilíbrio está a mudar. Os preços permanecem elevados, o financiamento representa um esforço significativo para muitas famílias e isso ajuda a explicar por que razão vemos menos transações e imóveis a permanecerem mais tempo no mercado.
É precisamente por isso que considero tão relevante acompanhar indicadores como o tempo de mercado ou a taxa de absorção. São métricas que nos permitem perceber aquilo que os preços, por si só, muitas vezes escondem.
Um imóvel pode manter o valor anunciado durante vários meses. Isso não significa necessariamente que exista uma procura forte. Pode significar apenas que vendedor e comprador ainda não encontraram um ponto de equilíbrio.
Como reagir à correção da velocidade do mercado imobiliário
Para quem pretende comprar casa, esta evolução pode representar mais margem para negociar e menos pressão para tomar decisões precipitadas. Para quem pretende vender, a mensagem é diferente: o mercado continua ativo, mas exige expectativas realistas e uma estratégia de preço ajustada às condições atuais.
O mercado imobiliário não está parado. Também não parece estar perante uma correção abrupta dos preços. O que estamos a assistir é, sobretudo, a uma correção da velocidade.
Durante muito tempo, a pergunta mais frequente foi: “Quanto vão subir os preços das casas?”. Hoje, talvez a questão mais relevante seja outra: “Quanto tempo demora uma casa a encontrar comprador?”.
Porque, quando os imóveis permanecem mais tempo no mercado, o mercado está a enviar uma mensagem. E essa mensagem diz-nos muito sobre a capacidade real das famílias para transformar o desejo de comprar casa numa compra efetiva.