A introdução de um jogo de tabuleiro é um momento crucial para quem goste de entrar (e jogar) num dado contexto histórico ou temático. Eis, pois, o cenário de «Furnace» (2020): «Os jogadores assumem os papéis de capitalistas do século XIX que constroem as suas empresas industriais e aspiram a ganhar o máximo de dinheiro possível, através da aquisição de novas empresas, da extração de recursos e do seu processamento nas melhores combinações possíveis.» Objetivo resumido desta “fornalha”? Ganhar dinheiro. Muito dinheiro.
O progresso pode ser uma questão de desenhos
Os momentos deste jogo dividem-se entre a fase de leilão, na qual os capitalistas alternam lances sobre as fábricas que aparecem no mercado, e a fase de produção, a envolver recursos como o carvão, o ferro e o petróleo. Será necessário planear as aquisições com vista a criar um conglomerado de instalações fabris que melhore os processos de produção e, em consequência, maximize lucros. Já se disse que vence quem for o empresário mais rico?
Na verdade, «Furnace» é tão minimalista que o livro de regras tem apenas oito páginas, estando parte delas preenchida com desenhos e fichas técnicas. Porém, o interesse do jogo aumenta bastante quando prestamos atenção aos detalhes. É então que coisas aparentemente aleatórias ganham novo sentido. Por exemplo, os diferentes tokens de jogador são bastante evocativos de uma época: relógio de bolso, par de luvas brancas, cartola preta, carteira de pele… E quanto às ilustrações das empresas, cujas cartas têm dois lados: dois desenhos iguais? À primeira vista, sim; mas um olhar mais atento nota a introdução de pormenores que pretendem dar uma ideia de progresso. A traça dos edifícios é a mesma, mas a versão melhorada da carta pode incluir uma via alcatroada em vez de uma estrada de terra batida ou um automóvel a substituir a carroça que aparecia na versão básica.
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Regresso aos tempos do industrialismo russo
Para quem queira partidas mais desafiantes, o designer de jogo elaborou variantes que requerem estratégias mais profundas. Posteriormente, foi lançada uma expansão que trouxe maior complexidade, face a novos efeitos como as remessas, as conversões e as vendas. Mas «Furnace» tem ainda outra camada oculta, que se descobre ao vasculhar o que estará por detrás das cartas dos capitalistas e dos desenhos das fábricas.
Fizemos essa pesquisa e ficámos a saber que as ilustrações do jogo, lançado por uma das maiores editoras da Europa de Leste, remetem-nos para o imaginário do industrialismo russo. Como se explica na página da Hobby World, «antes da Revolução Russa de 1917, o Império Russo vivia o mesmo boom tecnológico que o resto do mundo». A par dos magnatas que desenvolviam a economia norte-americana – como John D. Rockefeller, Andrew Carnegie ou Henry Ford –, vários industriais russos também acumulavam fábricas, minas e bancos. E alguns deles dedicavam-se, igualmente, à filantropia.

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Uma extraordinária mulher e empresária
Veja-se o exemplo da empresária que inspirou uma das cinco cartas de capitalistas que, no início, se distribuem pelos jogadores. Varvara Alekseevna Morozova, descrita como «provavelmente a filantropa mais famosa de Moscovo da sua época e uma mulher extraordinária», herdou uma fortuna colossal ao enviuvar. Para receber o dinheiro, Varvara teve de sujeitar-se a uma condição testamentária: não poderia voltar a casar-se. Assim o cumpriu. Ou mais ou menos, pois acabaria por viver numa união de facto com um jornalista-editor… E seria com o mesmo espírito independente e corajoso que a senhora Morozova se ligaria às causas do movimento operário, participando em reuniões revolucionárias.
Parte da sua fortuna seria doada para a construção de «um hospital psiquiátrico, um instituto de investigação do cancro, salas de aula para a Universidade de Moscovo ou a primeira biblioteca gratuita de Moscovo». Já quanto ao palacete mandado erguer pelo filho Arseny, esse, não passava apenas de um ato de ostentação de riqueza… Na tal ligação oculta entre realidade e jogo, a propriedade de Arseny surge numa das cartas de «Furnace».
A expansão «Interbellum» acabou por estender a temática industrial às décadas de 1920 e 1930. Este período entre guerras, marcado pela expansão económica – e pelo jazz, os navios a vapor, os primeiros arranha-céus –, vê-se transportado para as cartas através das ilustrações de edifícios industriais pertencentes às estéticas da Art Deco, do Construtivismo e da Bauhaus. Com tanto contexto por descobrir, «Furnace» torna-se um belo exemplo de como um jogo de tabuleiro, afinal, pode ser muito mais do que um mero jogo.
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