Para o último episódio da série documental «This Giant Beast that is the Global Economy» (2019), o comediante Kal Penn guardou o tema sério da corrupção. O ator que ganhou fama pelos filmes Harold & Kumar, já nascido nos Estados Unidos mas filho de pais indianos, viajou até Mumbai para contactar com uma realidade em que os pequenos subornos são uma constante do dia a dia. Um grupo de jovens assegura que as pequenas extorsões também acontecem frequentemente, criando um cenário caótico, em que todos os ilícitos parecem aceitáveis. Os indianos vivem mentalmente preparados para terem de pagar alguma coisa por debaixo da mesa. Só não sabem quanto vão ter de pagar, ou quando surgirá a próxima situação do género, o que gera uma enorme ansiedade.

Perante tal situação, um antigo conselheiro económico do governo indiano defende uma abordagem radical ao problema: que tal legalizar a corrupção? A teoria do professor Kaushik Basu baseia-se no princípio de que a culpabilização do corrompido leva a que não haja denúncia. Ou seja, as pessoas que são alvo de chantagem acabam por ter um duplo medo: o receio das represálias se não pagarem e o receio de serem presas se pagarem o que lhes exigem, mesmo que tenham intenção de denunciar o acontecido. O professor Basu reconhece que a sua solução seria moralmente terrível; ainda assim, seria a forma de romper o sistema instituído. Um pequeno passo para que os cidadãos deixassem de aturar as várias tentativas de suborno e extorsão com que se confrontam diariamente.
Definir as várias formas de corrupção
A corrupção, porém, não é um problema exclusivo da Índia. O título do episódio – Uma volta ao mundo da corrupção – indica que se trata de um mal à escala global. Segundo instituições como o Banco Mundial, a corrupção consome uma percentagem do PIB do planeta (estima-se que cerca de 5%) e é uma das principais razões para o aprofundamento das desigualdades entre ricos e pobres. E para definir melhor o que se enquadra neste vasto problema, o apresentador encontra-se com Robert Reich, professor universitário e ex-secretário do Trabalho, durante o primeiro mandato de Bill Clinton. Resumida a um conceito, corrupção é o pagamento por coisas que a sociedade considera ilegítimas; ou seja, de acordo com a maioria das pessoas, essas coisas não deveriam ser compradas ou vendidas.
Por exemplo, o favor de um médico não deveria ser comprado. Se um médico receber uma taxa, uma percentagem, por prescrever medicamentos de uma dada farmacêutica, isso altera a obrigação do médico de servir o doente e não de servir a empresa. Mas há outras formas de corrupção, como o nepotismo, que passa por contratar pessoas só por causa da relação pessoal ou familiar. Ou a apropriação indevida, que basicamente é roubo.
Leia ainda: Que será dos humanos se as máquinas os substituírem?
Os efeitos criminosos de poupar no betão
O principal poder dos corruptos passa por conseguirem viver na sombra. O sigilo gera corrupção e a corrupção exige sigilo. Em Praga, na Chéquia, procura iluminar-se o tema com um tour turístico da corrupção. Ao visitante, mostram-se exemplos de dinheiro público que não foi investido em serviços públicos; em vez disso, acabou por ir parar ao bolso de gente corrupta.
Na área da construção civil, a corrupção tem consequências ainda mais fatais. Através de uma demonstração prática, aprende-se que o betão se faz com a junção de agregados (areia, brita, cascalho), cimento e água. Como o cimento é o componente mais caro, os empreiteiros de países onde grassa a corrupção sentem-se incentivados a não usar tanto cimento na obra. Resultado da redução na qualidade do betão? O prédio ergue-se à mesma, mostra-se aparentemente estável, mas corre maior risco de colapsar ao primeiro abanão. Assim, os milhares de vítimas dos terremotos no Haiti, no México, na China, na Venezuela, devem-se sobretudo à construção deficiente dos edifícios. Um preço demasiado alto a pagar, só para que os bolsos de alguns fiquem um pouco mais cheios.
Leia ainda: Dinheiro: Uma questão de confiança
Erradicar a corrupção? Nem com tolerância zero…
Em Singapura, um dos estados mais rigorosos em termos de proibições e castigos, Kal Penn descobre que as inúmeras leis que gerem o quotidiano das pessoas integram um plano mais abrangente de luta contra a corrupção. Eis o argumento base de tanta rigidez: se as pessoas tiverem medo de pensar até nos crimes mais insignificante, nunca arriscarão algo maior. O tema é levado tão a sério que o apresentador é levado a visitar um museu anticorrupção e a descobrir os quiosques digitais criados para que os cidadãos possam denunciar gente corrupta. Singapura encarou o problema como um cancro: a corrupção começa pequenina, mas, se não for erradicada, irá espalhar-se por todo o lado.
A reputação implacável de Singapura, de facto, atraiu muito investimento estrangeiro, tornando o pequeno estado num dos maiores centros financeiros e banqueiros da Ásia. Porém, a cultura de repressão atingiu também a liberdade de imprensa. Tudo somado, nem Singapura conseguiu evitar um escândalo de milhões de dólares de subornos pagos por empresas governamentais. Conclusão? Nenhuma luta contra a corrupção será infalível. Mas isso não é razão para se fechar os olhos ao problema. A derradeira lição da série apresentada por Kal Penn bem pode ser a de que, em qualquer área, o esforço por melhorar tem mesmo de ser constante.
Leia ainda: Falso, falso, tudo isto é falso!
