Enquanto aguardamos que os novos designs de notas de euro cheguem às nossas carteiras, revisitemos um dos episódios da série documental “This Giant Beast that is the Global Economy” (2019) para nos embrenharmos no mundo da contrafação.

Na Índia, guiados por Kal Penn, ator principalmente conhecido por fazer parte da dupla cinematográfica Harold & Kumar, procura-se entender o impacto profundo que a falsificação de dinheiro pode ter na economia de um país. A certa altura, a circulação de notas falsas era tão grave no subcontinente indiano que, em finais de 2016, o Governo tomou a medida drástica de banir as notas de 500 e de 1.000 rupias. Pois bem, ainda hoje os economistas debatem as consequências dessa desmonetização. Há quem aponte o efeito de um gigantesco incremento dos pagamentos digitais; há quem indique uma breve desaceleração económica.
Pelo sim, pelo não, o melhor seria garantir que nenhuma nota pudesse ser imitada. Mas como garantir a segurança do dinheiro impresso? Na entrevista de Kal Penn ao neurocientista David Eaglemen, ficamos a saber que os governos gastam muito dinheiro a embutir detalhes de segurança nas notas; coisas a que, normalmente, as pessoas não prestam atenção. De facto, quando se recebe uma nota, não nos pomos propriamente a olhar para este ou aquele detalhe, pois não? Então, como criar uma cédula de dinheiro que seja difícil de imitar?
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A vaidade do papel-moeda
Segundo as sugestões de Eagleman, na consultoria solicitada pelo Banco Central Europeu, todas as notas deveriam ter o mesmo tamanho. Isso forçaria, desde logo, uma pessoa a olhar mais demoradamente para a cédula monetária que se recebesse, a fim de avaliar as diferenças. Também foi sugerido que as marcas de água deixassem de ser apenas pórticos ou janelas, pois os seres humanos não têm especial capacidade neural para reconhecer pormenores arquiteturais.
Ao invés, temos grande capacidade para reconhecer rostos; e eis que, na nova série de notas, se incluiu a figura mitológica da princesa Europa. O neurocientista refere ainda ter feito uma terceira recomendação: segundo ele, as notas teriam demasiados elementos chamativos, mas que não estavam relacionados com os detalhes de segurança.
Essa profusão de distrações visuais dificultaria a deteção de diferenças óbvias entre uma nota verdadeira e uma nota falsa. Por isso, sugeria limpar tudo e apostar num design simples: apenas uns números e um holograma ao centro. Essa ideia, no entanto, não avançou. Porquê? Segundo Eagleman, as notas também são um veículo de vaidade; os países parecem mais majestosos, mais importantes, se tiverem papel-moeda bonito…
Como há mais mundo além das cédulas de dinheiro, Kal Penn viaja até Hong Kong para investigar, desta vez com a ajuda de um detetive privado, o mercado de artigos falsificados. Tudo pode ser alvo de contrafação; até medicamentos que, por não serem eficazes como os originais, podem colocar em risco a vida dos doentes que os tomarem.
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Quando nos imitam, isso pode ser bom sinal
Voltemos a casos menos letais. No universo da moda, o apresentador-ator dá-nos a conhecer a diferença entre imitação e falsificação. Nesta indústria, há uma via aberta para os designers se inspirarem em artigos já existentes quando estão a elaborar a sua própria criação. Isto porque os designs de moda são considerados artigos utilitários, cuja principal função é cobrir os corpos nus. Ou seja, na moda, só se é dono do nome. Eis porque se vê tanta roupa, tanta mala cheia de logotipos. É essa marca registada que os imitadores não podem mesmo copiar; se o fizerem, passam a ser falsificadores.
Segundo os entrevistados deste segmento, a inexistência de proteção de direitos autorais foi o que levou a indústria da moda a transformar-se numa forma de arte. Qualquer design pode ser copiado a qualquer momento; mas, quando alguém vê uma ideia sua “roubada”, isso significa que se criou uma tendência. Ter uma peça copiada é, também, uma vitória sobre os outros estilistas. E, ao mesmo tempo, um incentivo para se voltar aos esboços, em busca do que será a próxima tendência.
Esta pulsão contínua de seguir em frente encontra paralelo noutras áreas. Na cozinha, os chefes não são donos das suas receitas; podem tentar mantê-las no segredo dos deuses, mas não as podem registar. No mobiliário acontece o mesmo; não há designs exclusivos. E, no universo dos comediantes, tão bem conhecido por Kal, também não existe propriedade de piadas. Como não se pode registar uma anedota… o caminho passa por inventar outra, num ciclo de criação-imitação que obriga a inovar de forma constante.
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