Favela no Rio de Janeiro, Brasil

Elizeth Cardoso – “Barracão” (1951)

É quase um paradoxo que as barracas das favelas do Rio de Janeiro possam ter vista deslumbrante para a baía de Copacabana ou para a estátua icónica do Cristo Redentor. Mas não será essa paisagem a mascarar o que já cantava Elizeth Cardoso, em meados do século passado: a realidade de um barracão pendurado no morro, a pedir socorro à cidade que fica aos pés, ou seja, lá em baixo. Nenhuma vista seria capaz de iludir que se vive num “barracão de zinco, pobretão, infeliz”, para lá da fronteira invisível que divide a cidade em duas partes: a dos ricos e a dos pobres. E, no entanto, há um orgulho latente nesse quase isolamento forçado; um sentimento forte de comunidade, a sobressair de um par de versos repetidos à exaustão: Vai, barracão / Tua voz eu escuto / Não te esqueço um minuto / Porque sei que tu és. A voz crescente de Elizeth transforma-se quase num grito sobre a honradez das gentes do barraco de zinco. Talvez assim, o pessoal lá de baixo lhes dê alguma atenção.

Leia ainda: Na aldeia das casas imaginárias

Paralamas do Sucesso – “Alagados” (1986)

Neste tema, uma só linha serve para denunciar que o problema da desigualdade está espalhado pelo mundo. Se a Favela do Maré fica no Rio de Janeiro, a dos Alagados remete para Salvador, ainda no Brasil, e a de Trenchtown passa fronteiras até à Jamaica. Seja em que geografia for, os habitantes destes sítios de barracas feitas de palafitas, trapiches, farrapos, são “filhos da mesma agonia”. A existência, para eles, é dura: “Todo dia o Sol da manhã vem e lhes desafia”.

A referência ao Rio de Janeiro, “a cidade que tem braços abertos num cartão-postal”, serve para aumentar o sentimento de injustiça social e de luta contínua pela sobrevivência; é essa mesma cidade, tão linda, tão fotografada, tão admirada, que se apresenta de punhos fechados para quem é da favela, negando-lhes oportunidades, mostrando “a face dura do mal”. A vista do morro até pode ser deslumbrante, mas “a esperança não vem do mar, nem das antenas de TV”. Aos habitantes desses bairros marginalizados, resta a arte de viver na fé. “Só não se sabe fé em quê”, como salienta o fim da canção.

Leia ainda: O sonho de uma casa no campo

Nação Zumbi – “A Cidade” (1994)

Nesta letra, denuncia-se que a Cidade cresceu à “força de pedreiros suicidas”, que é como quem diz, mão-de-obra barata. Houve gente que se matou a trabalhar para construir prédios que outros foram habitar. Ao longo dessas ruas asfaltadas, a cidade apresenta-se “centro das ambições, para mendigos ou ricos e outras armações”. As palavras sugerem um movimento constante dos autocarros, dos automóveis, das motos e metros, dos trabalhadores, patrões, polícias e camelôs (vendedores ambulantes). “A cidade não para, a cidade só cresce”. Porém, cresce de forma desigual: “O de cima sobe e o de baixo desce.” Ou seja, os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres.

O conto desta cidade – que num verso posterior se revela ser Recife, capital do estado de Pernambuco –, encaixa em várias latitudes do mundo. São sítios com fama que “vai além dos mares”, chamarizes “de pessoas de outros lugares”. Os que chegam em busca de vida melhor, vêm meio iludidos. Nessas cidades de belos horizontes, a situação não muda muito: “sempre uns com mais e outros com menos.” Que resta aos habitantes dos bairros pobres para “sair da lama e enfrentar os urubu”? A música de intervenção, seja uma embolada, um samba ou um maracatu.

Leia ainda: Dinheiro: Uma questão de confiança

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

Cultura e LazerVida e família