Há meia dúzia de anos, talvez nem Kal Penn, apresentador da série documental “This Giant Beast that is the Global Economy” (2019) conseguisse ter a real dimensão de como a Inteligência Artificial viria a alterar a vida dos humanos. Ou talvez tivesse, tal como o título do episódio, embora algo catastrofista, parecia indiciar: “IA vs. O Futuro: será que ela vai manter-nos por perto para a conseguirmos aproveitar?” Por outras palavras, será que a Inteligência Artificial acabará por descartar a necessidade de existirem seres humanos?
Para tomar o pulso à nova revolução industrial, o ator Kal Penn, especialmente conhecido por fazer parte da dupla cinematográfica Harold & Kumar, mas também por ter trabalhado no departamento de Relações Públicas da Casa Branca nos mandatos de Barack Obama, foi ao encontro dos peritos da altura. Estes mostraram-lhe como os sistemas de IA estavam a aprender, de forma autónoma, a tomar conta de si mesmos. E, já agora, a tomar conta da economia.
Os efeitos da revolução tecnológica na economia
O crash de 2010 terá sido a primeira vez que o ser humano teve um vislumbre de como a IA poderia muito bem passar a ser o agente dominador do sistema financeiro. Bastaram 36 minutos de bots a semearem ordens de venda para o caos ficar instalado. Mas como é que isso pôde acontecer? É essa a questão que Kal Penn tenta resolver em São Francisco, ainda o principal palco mundial de inovação tecnológica. Entre conceitos como algoritmos evolucionários ou aprendizagem profunda, o apresentador ouve dizer que a AI poderá mudar radicalmente a economia mundial. Mas como será essa mudança, em concreto?
Apontava-se, então, para os aumentos de produtividade em áreas como a saúde, os transportes ou o sistema financeiro. A IA, tão poderosa como, em tempos idos, o motor a vapor ou a eletricidade, passou a ser usada como um poderoso colega; uma “entidade” capaz de encontrar os padrões mais subtis no meio de quantidades gigantescas de dados. Esta capacidade de analisar rapidamente informações complexas permitiu, por exemplo, a criação de robôs consultores: uns algoritmos capazes de tratar de portefólios de investimento, coisa que, antes, era domínio reservado a seres humanos com um certo nível de conhecimento. Com a IA, o acesso a um consultor financeiro democratizou-se; até as pessoas com menos recursos monetários ganharam a hipótese de aceder a uma superpoderosa ferramenta de tecnologia de ponta, capaz de as ajudar a melhorar a sua vida financeira.
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«Deixem lá de trabalhar», diz a IA às pessoas
Este prodigioso novo mundo de oportunidades, porém, trouxe também enormes desafios morais e sociais. A evolução tem sido constante, tornando cada vez mais premente uma dúvida: será que, alguma vez, os computadores vão conseguir imitar os comportamentos humanos? Será que as máquinas vão conseguir passar despercebidas por entre os humanos? Nas redes sociais, a proliferação de vídeos ou imagens criadas pela inteligência artificial já lançou a confusão sobre o que é real e o que é falso. Mas, para Nick Bostrom, um filósofo conhecido pelos seus trabalhos no campo teórico do extermínio da humanidade, há cenários muitíssimo exigentes também no setor económico. Se a intenção da tecnologia passa por fazer mais do que é pretendido empregando menor esforço, então o objetivo final da IA poderá ser o desemprego total entre os humanos. Se passarmos a ter máquinas e tecnologias que executem todas as tarefas necessárias à vida, então, o homem não precisará de trabalhar. Uma mera utopia? Ou uma revolução em curso, a obrigar a uma resposta no campo da economia?
As pessoas precisam de ter um trabalho porque precisam de rendimentos. Que acontecerá, por isso, se a automação se for estendendo a todas as áreas, esvaziando, de forma sistemática e sucessiva, todos ou quase todos os postos de trabalho desempenhados por humanos? Um mundo novo precisará, provavelmente, de novas ideias, conceitos, estratégias. Eis porque Kal Penn investiga o Rendimento Básico Universal (também conhecido por Rendimento Básico Incondicional), proposta que defende a atribuição de um apoio estatal a cada indivíduo, sem destrinça da sua situação profissional ou familiar. Nesse sistema, muito simplesmente, cada cidadão teria direito ao seu rendimento, trabalhando ou não.
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Repensar a filosofia da Humanidade
Imaginemos, por um momento, que a questão financeira de cada um de nós ficava resolvida desta ou de outra forma. O idílio imediato? A mera fruição da vida, sem preocupações? Como se aponta a certa altura no episódio, muitas pessoas encontram o seu valor através do trabalho; em troca de um salário, as pessoas dão o seu conhecimento, o seu esforço, a sua competência a uma dada empresa, um setor, uma região, um país. Que nos acontecerá, enquanto seres humanos, se surgirem máquinas que saibam fazer tudo melhor do que nós? Onde encontraremos, nesse momento, a nossa dignidade?
Na verdade, anos depois do episódio de Kal Penn, o futuro pós-revolução Inteligência Artificial continua cheio de incertezas e interrogações; mas, por isso mesmo, também é excitante podermos assistir, e participar, num mundo em profunda mudança.
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