O Banco de Portugal publicou recentemente um interessante estudo que mostra a evolução da situação financeira das famílias em Portugal ao longo dos últimos 20 anos. Apesar de evidenciar o ainda elevado conservadorismo dos portugueses, o retrato da autoridade monetária mostra tendências positivas e valida a ideia de que investir parte das poupanças em ativos cotados nos mercados traz benefícios substanciais.

Os números publicados pelo Banco de Portugal deixam bem claro que as contas das famílias portuguesas superam atualmente os passivos em mais de três vezes, numa melhoria quase contínua ao longo dos últimos anos, refletindo o aumento dos ativos e também a diminuição da dívida (passivos) em termos relativos. Uma evolução que permitiu mais do que duplicar o património líquido (ativos menos passivos) em 20 anos, passando de 172 mil milhões de euros em 2005 para 402 mil milhões de euros no ano passado.

Os ativos financeiros das famílias correspondem atualmente a mais de três vezes os passivos, contra cerca de 2,2 vezes há 20 anos. No primeiro grupo está o dinheiro em numerário, depósitos bancários e equiparados, títulos de dívida, fundos de investimento e de pensões, seguros e ações, ficando de fora os imóveis e terrenos. Nos passivos estão os empréstimos, para compra de habitação, consumo e outros fins. 

Apesar do valor que as famílias devem aos bancos ter atingido um recorde de 164 mil milhões de euros em 2025 e uma trajetória ascendente desde 2016, o peso na economia é claramente decrescente, passando do pico de 90,9% do PIB em 2009 para 53,4% no ano passado.

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Poupanças mais diversificadas …

No lado dos ativos, os portugueses continuam a privilegiar os depósitos bancários e produtos de poupança do Estado (Certificados de Aforro e do Tesouro), que até reforçaram o peso nos ativos financeiros para 44%, contra 39% em 2005.

Contudo, os dados do Banco de Portugal mostram que as famílias portuguesas estão a aplicar as poupanças de forma mais diversificada. As participações no capital de empresas (cotadas e não cotadas) e as unidades de participação em fundos de investimento passaram de cerca de 30% do total dos ativos financeiros em 2005 para quase 40% em 2025.

 

O Banco de Portugal destaca que os fundos de investimento “receberam uma parte significativa das novas aplicações das famílias em instrumentos financeiros de mercado”, enquanto os “seguros e os fundos de pensões perderam importância relativa”.      

… permitem aumentar o património

Esta maior predisposição para investir em ativos cotados nos mercados financeiros contribuiu para aumentar o património das famílias, que beneficiaram da valorização destes ativos que incorporam um maior nível de risco.

Embora a evolução da carteira de títulos tenha sido marcada sobretudo por variações de preço negativas entre 2005 e 2018, refletindo o impacto da crise financeira internacional e da crise da dívida soberana, o movimento inverteu-se a partir de 2019.

Nos últimos sete anos, as famílias investiram 14,8 mil milhões de euros em termos líquidos em ativos cotados nos mercados, conseguindo uma valorização de 10 mil milhões de euros. A maior aposta nos mercados tem vindo a ganhar expressão nos últimos anos, sendo que só no ano passado as aplicações ficaram perto de 5 mil milhões de euros e as famílias embolsaram ganhos potenciais de 4,4 mil milhões com os títulos detidos em carteira.

O Banco de Portugal conclui que o “balanço financeiro das famílias portuguesas é não só maior, mas também diferente”, tendo ficado “menos condicionado pelo peso da dívida e mais influenciado pela forma como as poupanças estão aplicadas e pela evolução dos mercados financeiros”.

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Apetite pelo risco ainda é baixo

Embora os portugueses estejam a assumir riscos mais elevados quando decidem aplicar as poupanças, a comparação com o registado noutros países da Zona Euro mostra que são ainda bastante conservadores, pois as famílias continuam a privilegiar deixar o dinheiro parado no banco, correndo o risco de obter retornos reais negativos.

Enquanto os portugueses têm 44% dos ativos em numerário, depósitos, Certificados de Aforro e Certificados do Tesouro, na Zona Euro o peso destas aplicações de risco quase nulo é de 31%.

Os ativos mais arriscados (títulos de dívida, fundos de investimento e ações de empresas cotadas) representavam apenas 10% dos ativos financeiros das famílias portuguesas, quase metade do registado na Zona Euro (19%). O peso dos seguros e fundos de pensões em Portugal (11%) está ainda mais distante do registado nos países que utilizam o euro (26%).

Resumindo de forma simples este estudo do Banco de Portugal, as famílias portuguesas estão a aumentar a riqueza porque conseguem guardar mais dinheiro após pagarem as despesas e a aplicar esta poupança na eliminação de dívida e ativos com maior potencial de retorno. A trajetória é sem dúvida positiva, mas ainda está longe do nível que possibilite um aumento ainda mais substancial na riqueza das famílias.

São inúmeros os estudos que mostram de forma clara que as ações são o ativo de eleição para os investimentos de longo prazo, permitindo retornos bem acima das outras opções, compensando o nível de risco mais elevado. Mas como se pode constatar com estes dados do Banco de Portugal, merecem um espaço ainda muito reduzido nas opções de investimento dos portugueses.

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A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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