Investimentos

A constituição de uma carteira de investimento

Os cuidados a ter na constituição de uma carteira de investimento. Saiba o que deve ter em consideração e os riscos que pode correr.

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A constituição de uma carteira de investimento

Os cuidados a ter na constituição de uma carteira de investimento. Saiba o que deve ter em consideração e os riscos que pode correr.

No artigo anterior apresentámos aquele que para nós é um desafio aliciante – A Carteira de Investimento do Doutor Finanças. Hoje vamos explicar como é que montámos a carteira e explicar as escolhas.

Historicamente, os portugueses, apresentam um perfil de investimento conservador. Em função disto, o produto mais procurado para potenciar as poupanças são os depósitos a prazo. Acontece que no contexto atual, essa opção praticamente não “existe”. A pandemia obrigou os Bancos Centrais a reduzirem as taxas de referência para valores próximos de zero, de forma a permitir que os Estados/empresas consigam financiar-se no mercado, sem que os custos de financiamento aumentem e desta forma dinamizar a economia. Esta política agressiva por parte das autoridades monetárias, tem o respetivo reflexo nas taxas de depósitos que os bancos praticam e que são muito próximas de zero, o que limita a forma como os portugueses estão habituados a gerar retorno sob as suas poupanças.

Aproveitando o contexto que estamos a atravessar, decidimos criar uma carteira, para dar um exemplo da forma como se pode complementar o investimento tradicional, não só no atual momento (taxas zero) mas em diferentes ciclos de mercado.

Conforme referimos anteriormente, as decisões de investimento devem ser sempre fundamentadas e seguir uma estratégia bem delineada.

Fatores fundamentais na criação de uma carteira de investimento:

Quando investimos devemos ter em atenção várias questões, de forma a que possamos protegermo-nos o melhor possível. Há seis fatores fundamentais que deve ter presente quando pensar em investir numa carteira de investimento:

Liquidez

Quando pensamos em investir em ativos financeiros, devemos fazer a seguinte questão: Se eu quiser vender este ativo a qualquer momento, posso vendê-lo? Alguém o vai comprar? O preço indicativo é o preço aproximado? Quanto tempo demora o ativo a liquidar (espaço de tempo entre a venda efetiva e a entrada do dinheiro na conta)?

A liquidez é a resposta a todas estas questões. A nossa preocupação foi a de colocar ativos na nossa carteira que tenham um montante sob gestão confortável e um volume diário de transações que nos permita tomar decisões sabendo que o preço indicativo é real.

Diversificação

De forma a minimizar o risco, a diversificação é um ponto fundamental e divide-se em 3 vertentes distintas: Diversificação geográfica, de segmentos e ativos.

A diversificação geográfica permite-nos ter exposição a diferentes mercados. No seculo XXI vivemos numa economia global, onde os países estão cada vez mais interligados. Apesar disto, nem todas as economias se desenvolvem à mesma velocidade e a verdade é que surgem sempre acontecimentos inesperados que influenciam o rumo das mesmas de uma forma diferente. Como não conseguimos adivinhar o futuro, pretendemos estar expostos àqueles mercados que nos dão maior consistência, uma vez que o nosso objetivo não é encontrar o ativo que vai ter a maior valorização, mas investir num conjunto de ativos que, em conjunto, vão obter uma performance de médio/longo prazo compensadora.

A segunda vertente da diversificação, tem a ver com a forma como constituímos a carteira e como pretendemos ter maior ou menor risco. Para simplificar o processo, optámos por investir em três segmentos distintos: ações, obrigações e monetário. As ações são o segmento mais volátil, aquele que pode trazer maior retorno e que apresenta maior risco. O segmento obrigacionista, tem uma volatilidade menor. O segmento monetário tem um objetivo estratégico na carteira, que passa por reduzir a volatilidade, protegendo-a em cenários de maior stress de mercado e, em simultâneo, permitir ter uma parte da carteira que tendo menor oscilação, pode ser utilizada para reforçar outros segmentos, sempre que o contexto o justificar.

O terceiro pilar da diversificação tem a ver com o ativo em que se investe. Por exemplo, no mercado acionista podemos investir diretamente numa ação, fazendo com que o nosso risco esteja concentrado nesse título. Para investirmos numa empresa diretamente, será importante conhecê-la pormenorizadamente para podermos justificar esse investimento e não investir só porque se conhece o nome ou a marca. A realidade é qua a maior parte da população não tem tempo nem conhecimentos para analisar uma empresa ao pormenor. Por este motivo, a própria carteira deve conter ativos que já sejam por si só diversificados. Por exemplo, estar exposto na mesma proporção que o S&P500 (1), através de um ativo que replica o comportamento das 500 empresas que compõe o índice, em vez de estarmos expostos a um único ativo, reduz o risco que estamos a assumir.

Equilíbrio

De uma forma superficial, o equilíbrio já foi abordado nos dois fatores anteriores. Em tudo na vida devemos ter equilíbrio, os investimentos não fogem à regra. O que pretendemos encontrar é uma complementaridade entre zonas geográficas e segmentos de investimento que nos permita estar confortáveis na forma como investimos no mercado. Sabendo que vão existir momentos em que a carteira vai apresentar maiores oscilações, o fundamental é estarmos confortáveis com a nossa exposição e que esta nos dê uma boa consistência e performance num horizonte temporal alargado.

Expectativas

Este é um fator que muitas vezes não é abordado e que é fundamental. Ao longo dos vários ciclos económicos existem oscilações, que podem ser positivas ou negativas. A expectativa é fundamental para gerir emoções. Num contexto de subida, não devemos pensar que ter uma boa performance é fácil e assumir que tudo vai continuar a subir, embarcando num racional de facilitismo que poderá levar a assumir mais risco para querer obter uma performance superior. Por outro lado, numa situação em que os mercados financeiros corrigem, não querer sair à pressa assumindo menos-valias, porque o sentimento é que tudo vai continuar a cair. As expectativas devem-se juntar ao equilíbrio e permitir uma gestão racional, seja qual for o contexto que estivermos a atravessar, relembrando o propósito da criação de uma carteira de investimento no património de cada um.

Horizonte temporal

Para se assumir risco, é essencial ter um horizonte temporal de médio/longo prazo. Uma estratégia de investimento tem sempre por base uma justificação fundamentada e sustentada em indicadores macroeconómicos e na consequente análise da evolução esperada da economia global. A exposição ao mercado irá refletir esta análise e tendência. Dando um exemplo de um ativo simples, ninguém compra uma casa num dia e espera vendê-la no dia seguinte com uma grande valorização. Este pressuposto também se aplica nos mercados financeiros.

Qualidade dos ativos

A qualidade dos ativos não tem a ver com a performance que os ativos têm no curto prazo. Um ativo de qualidade é aquele que tem a capacidade de recuperar, após um período menos positivo. O ano de 2008 (crise do subprime) foi um marco importante para analisarmos diferentes ativos e a forma como conseguiram ou não dar a volta após aquele período mais conturbado.

Dois perfis de investimento

Do conjunto de todos os fatores identificados e abordados anteriormente, criámos uma carteira, que terá dois perfis diferentes – conservador e dinâmico. Os dois perfis são compostos pelos mesmos ativos, mas com percentagens de exposição diferentes, que faz a diferença no risco que se pretende assumir.

Conservador/Moderado
Obrigações ETF de Obrigações do Tesouro dos EUA (1-3 anos) 10%
ETF de Obrigações do Tesouro dos EUA (20 anos) 15%
Obrigações Europeias inflation linked 10%
Obrigações Mundiais ligadas à inflação 10%
ETF de Obrigações da China 15%
EFT de Obrigações de Emergentes 10%
Ações ETF que replica o desempenho do Nasdaq 10%
Ações de emergentes ex. Japão 5%
ETF que replica o desempenho do MSCI mundial 10%
ETF que acompanha o índice bolsista alemão (DAX) 5%

Dinâmico
Obrigações ETF de Obrigações do Tesouro dos EUA (1-3 anos) 10%
Obrigações Mundiais ligadas à inflação 10%
ETF de Obrigações da China 10%
EFT de Obrigações de Emergentes 10%
ETF que replica a performance do S&P500 10%
ETF que segue o desempenho do Nasdaq 10%
Ações Ações de emergentes ex. Japão 10%
ETF do MSCI mercados emergentes 10%
ETF que replica o desempenho do MSCI mundial 10%
ETF que acompanha o índice bolsista alemão (DAX) 10%

Optámos por investir em ETF (2) porque nos garantem dois dos pressupostos que consideramos fundamentais: liquidez e diversificação.

Nos mercados acionistas, temos exposição a:

  • EUA através de dois dos índices de referência americanos – Nasdaq e S&P 500;
  • Ásia;
  • Países Emergentes;
  • Um ETF com exposição global ;
  • Exposição ao DAX (índice de referência da Alemanha)

O maior enfoque nos EUA tem a ver com o facto de ser uma economia mais dinâmica e que tem uma capacidade diferente para sair das crises.

No segmento obrigacionista, optámos por investir nos EUA (treasuries – obrigações do Estado Americano), obrigações inflation linked, porque entendemos que os estímulos fiscais e monetários que estão a ser colocados nas diferentes economias irão causar inflação, sendo que estes títulos estão indexados à inflação. Para complementar este segmento, temos uma exposição mais dinâmica à China e à dívida emergente.

Os ativos em questão enquadram-se no atual contexto macroeconómico. Realçamos que estamos a passar por uma fase com muita incerteza e instabilidade. Contudo, os mercados estão a apresentar uma performance muito interessante, pelo que é importante ter sempre presente o equilíbrio e racionalidade nos investimentos. O horizonte temporal de médio/longo prazo é uma das características desta carteira.

O nosso compromisso passa por todos os meses analisar e avaliar o comportamento da carteira e possíveis alterações que possam ser concretizadas, sempre devidamente justificadas.

  • (1) S&P 500 – índice das 500 maiores empresas americanas
  • (2) ETF - é um conjunto diversificado de ativos (como um fundo de investimento), que transaciona numa bolsa (como uma ação). Os ETF são uma forma fácil, de baixo custo e eficiente em termos fiscais de investir o seu dinheiro.

Nota: As carteiras do Doutor Finanças não são nem devem ser entendidas como um conselho a investir neste ou naquele tipo de instrumento financeiro. As nossas carteiras foram criadas apenas para permitir ilustrar quais os riscos e os benefícios potenciais de investir, direta ou indiretamente, em instrumentos financeiros como ações e obrigações.

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