Durante anos habituámo-nos a associar a cibercriminalidade a imagens de piratas informáticos altamente especializados, escondidos atrás de ecrãs repletos de código. Contudo, o maior risco digital da atualidade não reside necessariamente nas vulnerabilidades dos sistemas. Reside nas vulnerabilidades humanas. O alvo somos nós.

As burlas mais comuns da atualidade, desde o conhecido “Olá Pai, Olá Mãe” às falsas notificações dos CTT, da Autoridade Tributária ou dos bancos, assentam numa lógica simples: manipular a vítima para que seja ela própria a autorizar um pagamento ou a partilhar informação sensível. A tecnologia continua presente, mas o verdadeiro vetor de ataque é humano. A engenharia social explora emoções como a confiança, a urgência, o medo ou o sentido de dever para induzir comportamentos que, em circunstâncias normais, nunca ocorreriam.

O problema é que esta evolução do risco não foi acompanhada ao mesmo ritmo pelas soluções de proteção disponíveis para os consumidores. Um estudo da Nova SBE, a pedido da ASF, já identificava o risco cibernético como uma das áreas onde subsistem importantes lacunas de proteção no mercado segurador português.

Atualmente, existem seguros de cibersegurança, sobretudo dirigidos a empresas, que incluem garantias como roubo de identidade, assistência jurídica ou extorsão informática. Existem também algumas coberturas associadas a cartões bancários ou fraude em compras online. Contudo, quase todas partilham a mesma limitação: a exclusão por negligência grosseira, isto é, sempre que o titular tenha contribuído ativamente para a concretização da fraude, a cobertura tende a ser recusada.

A partilha voluntária de credenciais, códigos de autenticação, palavras-passe ou informações bancárias com terceiros é frequentemente considerada uma violação das obrigações mínimas de prudência exigidas ao segurado.

É precisamente aqui que surge o paradoxo. Nas burlas por engenharia social, a transação é frequentemente realizada pela própria vítima, convencida de que está a agir de forma legítima. Do ponto de vista do consumidor existe fraude; do ponto de vista contratual pode existir uma ação voluntária. O resultado é uma perceção de proteção que nem sempre corresponde à proteção efetivamente disponível.

Curiosamente, já existem soluções desenvolvidas especificamente para este tipo de risco. Nos mercados internacionais mais evoluídos, começaram a surgir coberturas de Fraude por Engenharia Social integradas em programas de Cyber Insurance e Crime Financeiro. O princípio é simples: reconhecer que a fraude moderna não acontece apesar da intervenção humana, mas precisamente através dela.

Apesar disso, estas soluções continuam praticamente confinadas ao segmento empresarial e não existem, de forma massificada, para o consumidor particular em Portugal.

Talvez esteja aqui uma das próximas oportunidades de inovação para o setor segurador. À medida que a Inteligência Artificial torna as burlas mais sofisticadas, com mensagens personalizadas, identidades falsas e até vozes clonadas, torna-se cada vez mais difícil distinguir entre erro humano e manipulação criminosa.

O verdadeiro desafio não será apenas reforçar a prevenção. Será perceber se faz sentido continuar a proteger sobretudo os riscos tecnológicos, quando a principal vulnerabilidade da era digital passou a ser o comportamento humano.

Porque, no final, a pergunta é simples: se protegemos casas, automóveis e património físico, porque não proteger também as poupanças das famílias contra uma das fraudes que mais cresce no mundo digital?

Não espere pelo imprevisto.
Garanta agora a proteção que a sua família precisa.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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