Existe um paradoxo que me inquieta há algum tempo. Na Europa – e em Portugal não é diferente -, as famílias poupam a uma taxa de 15,7% do rendimento disponível, um máximo histórico. Os salários reais cresceram 2,6% na Zona Euro no último ano. A inflação travou. O dinheiro voltou. E, no entanto, apenas 42% dos europeus acreditam que terão recursos suficientes para viver confortavelmente na reforma. Menos de um em cada cinco tem uma pensão privada.
Como se explica esta contradição? A resposta, incómoda como é, está na natureza da poupança que fazemos: poupamos por medo, não por estratégia.
Depósitos à ordem como escudo emocional
A memória coletiva da pandemia, da inflação de 2022 e da instabilidade geopolítica criou uma geração de poupadores defensivos. O dinheiro vai para depósitos – um colchão, uma almofada, uma sensação de controlo. Na Alemanha, 83% dos ativos financeiros das famílias estão em depósitos. Em Portugal, o padrão é semelhante. Enquanto isso, o rácio valores mobiliários/depósitos nos Estados Unidos ultrapassa 3,0x. As famílias americanas têm mais de três vezes mais dinheiro em ações e fundos do que em depósitos.
O resultado desta divergência? O retorno médio de um depósito em euros ronda 1% ao ano. O retorno histórico do MSCI World é de 13,7% ao ano. Dois poupadores que investem 250 euros por mês durante dez anos:
- O que coloca tudo em depósitos acumula 33.000 euros.
- O que diversifica para mercados globais pode chegar a 51.000 euros.
E tudo isto com o mesmo esforço mensal.
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