Imagem de uma casa rural no campo

Eis um catálogo de três casas no campo. Digo-lhe já que, assim à primeira vista, parecem todas espetaculares… Mas aprecie com calma. Tem preferência por alguma delas? Sim? Muito bem, então vamos lá tratar dos papéis para o empréstimo.

Elis Regina – “Casa no Campo” [1972]

Tornou-se um dos maiores êxitos de Elis Regina este desejo de ter uma casa no campo, onde se viveria «no tamanho da paz». A letra fala-nos de um sítio distante do ruído da cidade, que permitisse religar o corpo à natureza e servisse de inspiração para «compor muitos rocks rurais». A construção teria a marca da simplicidade. Telhado de colmo; paredes levantadas na técnica tradicional de pau-a-pique (um entrelaçado de madeira e bambu, revestido com barro) e recheadas de estantes com livros e discos. No jardim, pastariam placidamente carneiros e cabras, e um filho cresceria de forma sã, física e mentalmente, entre «o silêncio das línguas cansadas», apenas quebrado quando se recebessem os amigos do peito.

Gilson – “Casinha branca” [1979]

Encontram-se várias versões deste tema composto por Gilson Vieira da Silva, estreado no final da década de 1970 e que ganhou grande fama ao ser integrado na banda sonora de uma telenovela da TV Globo. Seja na voz do próprio Gilson ou de Maria Bethânia, estamos perante um tema doce que nos conta a história de alguém desiludido com a vida. Ele (ou ela) sente-se sozinho, sem nada que lhe dê prazer, cada vez mais longe da felicidade. No meio desse profundo desalento, surge um sonho simples: «ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, para ver o sol nascer.»

A casa imaginada, com terreno para poder plantar e colher, fica no meio do mato verde, num vincado contraste com a existência cinzenta que a personagem vai tendo na cidade, por onde costuma deambular, à procura de novas amizades. Nessa metrópole, o sentimento de solidão agiganta-se; o homem ou mulher da canção é apenas mais uma pessoa perdida entre a multidão feita de rostos anónimos, cada qual com «seu mistério, seu sofrer, sua ilusão».

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Capicua – “Casa no Campo” [2012]

Inspirada no tema de Elis Regina, quarenta anos depois, foi a vez de a rapper portuguesa Capicua idealizar a sua própria casa no campo, onde também pudesse «plantar os discos, os livros, e quem sabe uma menina». A porta estaria sempre aberta para deixar entrar amigos ou para «partir à descoberta». Mais uma vez, estamos num local distante da «selva de cimento», que equivale a uma nova dimensão de espaço e tempo. Entre o cheiro de flores e frutos, pode-se «adormecer na relva» e cultivar uma horta.

Capicua imaginou-se acompanhada por um cão desobediente, deitado em cima da colcha da grande cama. O fogo brando da lareira iluminaria «o sorriso de quem amo» e a cozinha estaria perfumada pelo aroma do pão acabado de cozer e pela comida de tacho, a replicar receitas dos tempos das avós; comida «para quem quer comer», de preferência com colher de sopa. O cenário seria tão idílico, tão adaptado a uma existência feliz, que a protagonista da canção, embora desejosa de manter o seu lado de criança, nem se inibe de pensar no momento final da sua vida: «quero a sorte de estar pronta quando a morte me colher».

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