Uma das melhores coisas dos jogos de tabuleiro é poder mergulhar num dado universo. Se levados a sério, os jogos com uma forte componente temática fazem com que os jogadores se tornem, por umas horas, magnatas ou comerciantes, artistas ou guerreiros, cientistas ou ladrões. Em muitos casos, fica-se a conhecer melhor uma geografia do globo, a cultura de um país, uma personagem histórica. Em «Carnegie» (2022), somos apresentados à extraordinária vida de Andrew Carnegie, nascido na Escócia, em 1835, e emigrado com os pais para os Estados Unidos, em 1848. No novo mundo, o rapaz começaria uma carreira como operador de telégrafo, mas viria a tornar-se um dos principais atores na indústria do aço. A fortuna acumulada por Carnegie faria dele um dos homens mais ricos do mundo e, ao mesmo tempo, o exemplo acabado do “sonho americano”.
Uma figura controversa e fascinante
Como se refere na introdução do jogo, Carnegie também ficou famoso pela vertente filantrópica. À data da sua morte, em 1919, mais de 350 milhões da sua fortuna tinham sido doados a várias fundações, a que acrescem mais 30 milhões atribuídos a instituições de caridade. Nos Estados Unidos, ainda subsistem quase 2500 bibliotecas públicas criadas com o seu dinheiro. E subsiste também um perfil capaz de fascinar as pessoas, como aconteceu ao designer de jogos Xavier Georges: «Este jogo apenas evoca vagamente as conquistas de Andrew Carnegie. Embora Carnegie tenha sido incrivelmente bem-sucedido, os seus métodos empresariais também têm sido alvo de alguma controvérsia. Seja qual for a vossa posição sobre o assunto, não restam dúvidas de que Carnegie foi uma figura importante na história da América.»
Este perfil complexo do escocês transitou para o tabuleiro. Poderia ser de outra forma? Poderia ser fácil o caminho até nos tornarmos milionários? Estamos perante um jogo difícil, é certo, e Xavier Georges guardou um espaço no livro de regras para umas palavras de ânimo: «Enquanto criador de jogos, admiro os jogadores que dedicam tempo a ler as regras e a explicá-las aos outros. Como incentivo, lembrem-se de que o próprio Carnegie era um grande leitor e que construiu a sua fortuna aprendendo muito com os livros.»

Leia ainda: Que será dos humanos se as máquinas os substituírem?
Conceitos de riqueza e desenvolvimento pessoal
Aberto o tabuleiro na nossa mesa, eis-nos focados no nosso papel de empresário. Teremos de recrutar funcionários e expandir o negócio, através de investimentos no imobiliário, na produção de mercadorias, no desenvolvimento da tecnologia e das cadeias de transporte que atravessam o vasto território norte-americano. No final, o sucesso será medido por pontos de vitória. E pelo espírito filantrópico, pois, aqui, contribuir para a grandeza do país – através de donativos nas áreas da saúde, dos direitos humanos, da segurança social ou da educação –, também garante cruciais pontos de vitória.
A própria mecânica do jogo incita-nos à generosidade; mas talvez bastassem as frases de Carnegie, espalhadas ao longo do folheto, para nos instigarem a ambição de sermos o maior benfeitor à volta do tabuleiro. Querem testar-se? Aí vão mais dois exemplos:
- «É um grande passo no nosso desenvolvimento pessoal quando se percebe
que as outras pessoas podem ajudar-nos a fazer um trabalho melhor do que aquele que conseguiríamos fazer sozinhos.»
- «O homem que morre rico, morre em desgraça.»

Leia ainda: A prosperidade dos Tigres Asiáticos
Consegue gerir uma empresa com uns 10 departamentos?
Surtiu efeito? Se não, o jogo tem bastante mais para dar. Para se ganhar, será necessário perceber como funcionam as empresas. Cada companhia começa com quatro departamentos básicos: Recursos Humanos (onde se formam colaboradores para os restantes departamentos), Gestão (dividido nas áreas de “Comércio e Finanças” e “Planeamento Estratégico”), Construção (encarregue de edificar projetos nas áreas da Habitação, Comércio, Indústria e Infraestruturas Públicas) e Pesquisa e Desenvolvimento (cuja missão é melhorar as redes de transporte e gerar novas ideias). Ao longo da partida, há inúmeras formas de expandir a empresa, através da criação de mais departamentos. Cabe ao executivo escolher se quer apostar na Formação e Parcerias, no Recrutamento, nas Compras, nas Vendas, na Logística, na Comunicação, na Gestão de Propriedades, na Cadeia de Abastecimento ou numa secção de Operadores de Telégrafo.
Convirá não esquecer o departamento de Doações para Caridade, claro. Já tínhamos dito que «Carnegie» premeia a veia generosa que pulsa dentro de nós? Não? Talvez nos tenhamos esquecido dessa parte durante uns jogos, e acabado sempre por ficar a ver outros, mais altruístas que nós, a cantar vitória após as contas finais. Tudo bem. Como disse o próprio Carnegie, «Ninguém se torna rico a menos que enriqueça os outros».
Leia ainda: Eu é que sou o presidente dos Estados Unidos!
