É claro para a maioria das pessoas que a alimentação serve para nos fornecer os nutrientes necessários e suficientes para nos desenvolvermos de forma saudável, sendo este o lado mais funcional da comida. Aquilo que muitos de nós esquecem é que a alimentação tem também um grande papel emocional e social: a comida é, grande parte das vezes, uma ponte para o reforço de laços interpessoais e está intimamente ligada ao prazer. Em Portugal, então, muitas famílias acabam de almoçar e já estão a pensar onde vão partilhar o jantar! Assim, a comida é o centro de muitas interações, não só familiares, mas também em contextos mais alargados.

Uma alimentação equilibrada envolve o consumo de alimentos de forma equilibrada e funcional, implicando o contacto e habituação a novos alimentos, texturas e sabores desde cedo, sendo este processo, no início da vida, uma aprendizagem fundamental e que contribui largamente para os padrões de recusa ou aceitação dos alimentos a curto e longo prazo.

Qual o papel dos pais nas experiências alimentares precoces?

Estas experiências nos primeiros meses e anos de vida têm muito impacto no desenvolvimento socioemocional das crianças, assim como na qualidade da relação entre pais e filhos. A verdade é que os momentos das refeições (incluindo a amamentação, quando ocorre) é um dos principais focos de interação entre as crianças e os seus cuidadores. Para além da amamentação, a fase da introdução alimentar costuma ser pautada por grande preocupação e stress por parte dos pais, que naturalmente terão as suas expectativas em relação ao desenvolvimento da criança e a forma como se relaciona com a comida. A dúvida assola muitos, e quanto mais informação lemos, por vezes mais difícil é tomar decisões!

É importante ir questionando o pediatra sobre o que é expectável em termos de alimentação em cada faixa etária (não apenas sobre alimentos, mas sobre a forma como o bebé ou criança come!), lembrando-se sempre que todos os marcos de desenvolvimento têm uma janela relativamente grande de tempo, pelo que é importante estar informado sobre os sinais de alerta para pedir ajuda em cada fase. A presente crónica não pretende informar sobre esses marcos, mas antes oferecer algumas estratégias gerais que podem ajudar ao longo do desenvolvimento.

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Que estratégias e competências parentais são fulcrais à mesa?

Modelagem

Uma das principais (senão a principal) formas de aprendizagem da criança é através da imitação de um modelo, por norma os cuidadores mais próximos. Assim, mostrar à criança que está disponível para provar novos alimentos, que sente prazer na hora da refeição, como informar que está saciado e que sinais são esses, assim como boas maneiras, é essencial para o desenvolvimento de uma relação saudável com a comida.

Elogio

O elogio funciona como reforço positivo. Reforço positivo é toda a atitude e comportamento que aumenta a probabilidade de um comportamento ocorrer. Assim, se uma criança que experimenta coisas novas e demonstra interesse em, por exemplo, usar os talheres, fazer-lhe um elogio vai aumentar a probabilidade de repetir esse comportamento. Além disto, vai associar o momento de comer a emoções agradáveis, o que é fulcral no futuro. No mesmo sentido, se uma criança tem um comportamento que não queremos promover e é dada demasiada atenção ao mesmo, por exemplo com um “sermão”, também é provável que esse comportamento aumente. No fim do dia, o que os mais novos mais desejam é a nossa atenção, e quando não conseguem fazê-lo através de coisas positivas, fá-lo-ão com comportamentos indesejáveis.

Ignorar

O inverso do elogio é o ignorar. Se uma criança tem um comportamento indesejável que parece ser de propósito, podemos experimentar ignorar ou abordar o momento com naturalidade e neutralidade, o que reduz a probabilidade da sua repetição.

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Que outras estratégias específicas podem ser úteis no momento da refeição?

  • Oferecer constantemente alimentos novos;
  • Oferecer alimentos que foram antes recusados: uma criança pode precisar até de 15 vezes para aceitar um alimento. Quem diria, não é?! Não desistamos!
  • Oferecer pequenas quantidades de comida, menos do que achamos que a criança vai ser capaz de comer: dá-lhe oportunidade de pedir mais, se quiser, assim como a oportunidade de se servir, se já tiver capacidade;
  • Não oferecer comida entre refeições, principalmente junk food. É mais importante fazer lanches apropriados à idade e em horas que façam sentido em relação às refeições principais (há exceções, claro!);
  • Não existe necessidade de conversar explicitamente sobre maneiras à mesa até aos 4 ou 5 anos, pois o mais provável é que, até lá, a criança aprenda por imitação;
  • Na mesma linha, vamos ser realistas com as boas maneiras: é expectável que a criança explore a comida com as mãos! Vamos simplesmente oferecer um guardanapo para que se limpe.
  • Permitir que a criança escolha a refeição de vez em quando: isto dá-lhe alguma sensação de controlo em relação à alimentação, e pode diminuir comportamentos de recusa noutras refeições;
  • Estabelecer limite de tempo para as refeições: idealmente de 20 a 30 minutos. O tempo não deve ser tão curto que não dê para aproveitar e fazer da refeição um momento de confraternização, nem tão longo que faça com que seja muito difícil “manter” a criança à mesa.

Alimentação além do momento da refeição

A relação com a alimentação começa muito antes do momento da refeição. É importante que as crianças sejam envolvidas desde cedo nos rituais de aquisição e preparação dos alimentos. Podemos levá-las sempre que possível ao supermercado, pedindo-lhe ajuda a fazer a lista, mostrando-lhe a variedade de alimentos que existem, convidando-as a ir buscar alguns produtos e aproveitando esse momento para promover aprendizagens, como o nome dos alimentos. Da próxima vez que for ao supermercado, experimente desafiar a criança a escolher um alimento novo para integrar na refeição! É bastante provável que ache divertido. No fim, deixe-a ajudar a arrumar os produtos no saco, não tem de estar tão perfeito como achamos… desde que não esmague a fruta!

Para além disto, e talvez até mais importante: deixemos que se envolvam na preparação dos alimentos em si. Podemos em família escolher uma nova receita, explorar novos temperos e aprender a função de cada um, lavar, cortar e descascar alimentos (há muitos utensílios adequados aos mais novos atualmente) e provar a comida à medida que a vamos cozinhando. Verdade seja dita que este envolvimento não é sempre possível na correria do nosso quotidiano… mas quando é possível, vale muito a pena!

As refeições devem, mais do que tudo, ser momentos de harmonia familiar. É muito importante que seja um momento de calma e tranquilidade familiar e deve favorecer um clima de diálogo. Muitas famílias têm o hábito de ter a televisão ligada de fundo ou até os telemóveis à mesa, no entanto, é um tempo importante onde podemos aprender muito uns sobre os outros, pelo que convido a que os ecrãs fiquem de fora. Se pensarmos bem, que tempo temos durante o dia para, de facto, conversar uns com os outros?

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