Fachada de edifícios

Quase três anos depois da última subida, o Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juro diretoras, em junho. Mas o que significa isto, na prática, para quem tem crédito habitação? Qual será o impacto desta subida na prestação da casa?

Embora as decisões do BCE não alterem diretamente os juros do crédito habitação, influenciam a Euribor, o indexante utilizado na maioria dos empréstimos em Portugal. E o certo é que esta tem vindo a aumentar nos últimos meses, contribuindo para o agravamento das prestações de muitas famílias. Mas nem todos os créditos são afetados da mesma forma. Tudo dependerá de fatores como o tipo de taxa associada ao contrato, o prazo da Euribor, o capital em dívida e a data da próxima revisão do crédito.

Neste artigo, explicamos de que forma as decisões do BCE podem refletir-se no crédito habitação e qual poderá ser o impacto na prestação da casa. Veja ainda como calcular o efeito da variação da Euribor no seu caso concreto.

Porque sobem as taxas de juro?

O principal objetivo do BCE é garantir a estabilidade dos preços na Zona Euro. Na prática, isso significa manter a inflação próxima dos 2%. Quando os preços começam a subir de forma persistente e acima desse objetivo – como tem acontecido na sequência da guerra no Médio Oriente – a autoridade monetária pode optar por aumentar as taxas de juro diretoras. Este aumento tende a produzir vários efeitos na economia:

  • Os empréstimos tornam-se mais caros para bancos, empresas e consumidores;
  • Verifica-se uma redução do consumo;
  • A procura por bens e serviços abranda;
  • Os preços diminuem gradualmente.

No entanto, encontrar um equilíbrio nem sempre é fácil. Se o BCE aumentar demasiado as taxas de juro, pode penalizar o crescimento económico; se as mantiver demasiado baixas, os preços podem continuar a aumentar. É por isso que as decisões são tomadas de forma gradual, tendo em conta a evolução da inflação, do emprego e do crescimento económico na Zona Euro.

Leia ainda: Porque é que o BCE quer uma inflação de 2%? E porque não 0%, 1% ou 3%?

O que pode acontecer à Euribor?

Mas de que forma estas decisões afetam o crédito habitação? O impacto da subida dos juros nas prestações ocorre, sobretudo, por via da Euribor, o indexante dos contratos com taxa variável. Embora o BCE não defina diretamente este indicador, as expectativas dos mercados relativamente à evolução das taxas de juro acabam por influenciá-lo.

Isto significa que, muitas vezes, a Euribor começa a subir antes mesmo do anúncio do aumento das taxas diretoras, como aconteceu no início deste ano, quando eclodiu o conflito no Médio Oriente. Da mesma forma, se os mercados anteciparem uma descida dos juros no futuro, a Euribor pode começar a recuar antes de essa decisão ser tomada.

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A subida dos juros faz aumentar automaticamente a prestação da casa?

O aumento das taxas de juro não se traduz, automaticamente, numa subida das prestações do crédito habitação. O impacto depende, em primeiro lugar, do tipo de taxa associado aos contratos. Para quem tem crédito com taxa fixa, por exemplo, o valor da prestação mantém-se inalterado. Já nos contratos com taxa variável – indexados à Euribor – a prestação poderá sofrer um agravamento, mas, mesmo assim, não será imediato. A atualização ocorrerá somente na data de revisão prevista no contrato – de três em três meses, de seis em seis ou apenas uma vez por ano, dependendo do prazo da Euribor associado ao empréstimo.

Tipo de taxa

Impacto da subida da Euribor

Taxa variável

A prestação pode aumentar na próxima revisão

Taxa fixa

Não há impacto no valor da prestação

Taxa mista

Não há impacto durante a fase fixa, somente quando passa a variável

Ou seja, imagine que o seu crédito habitação está indexado à Euribor a 12 meses e que foi revisto pela última vez em novembro do ano passado. Independentemente dos aumentos que as taxas de juro possam sofrer, continuará a pagar a mesma prestação até à sua revisão, no próximo mês de novembro. Só aí será considerada a Euribor em vigor – sendo que se aplica a média mensal do mês anterior.

Assim, entre a decisão do BCE e o eventual aumento da prestação existem, normalmente, várias etapas:

  • O BCE altera as taxas diretoras;
  • Os mercados ajustam as expectativas quanto à evolução dos juros;
  • A Euribor sobe ou desce (nalguns casos, as alterações antecipam-se à decisão do BCE);
  • O banco revê o seu contrato na data prevista;
  • A prestação é atualizada.

Qual o impacto da subida dos juros na prestação? Veja exemplos

Pequenas alterações na taxa de juro podem traduzir-se em aumentos de dezenas de euros por mês nas prestações do crédito habitação, sobretudo em financiamentos de montantes mais elevados. Ainda assim, o impacto destas subidas varia de contrato para contrato. Fatores como o capital em dívida, o prazo remanescente do empréstimo e a Euribor associada ao crédito influenciam o valor final da prestação. Veja alguns exemplos.

Exemplo 1: Crédito de 150 mil euros, com prestação de 644 euros

Simulámos o impacto da subida dos juros na prestação de um empréstimo de 150 mil euros, com as seguintes condições:

  • Prazo de 30 anos;
  • Spread de 1%;
  • Euribor a 12 meses;
  • Prestação (em junho de 2025): 644 euros

Devido à subida da Euribor ao longo deste período, na revisão ocorrida em junho de 2026, esta prestação aumentaria 50 euros para 694 euros.

Já se o crédito estivesse indexado à Euribor a 6 meses, e a última revisão tivesse ocorrido em dezembro de 2025, seis meses depois, o agravamento da prestação seria de 29 euros.

Exemplo 2: Crédito de 200 mil euros, com prestação de 855 euros

Consideremos agora um financiamento de 200 mil euros, com:

  • Prazo de 30 anos;
  • Spread de 1%;
  • Euribor a 6 meses;
  • Prestação (em junho de 2025): 855 euros

Neste caso, o aumento da prestação seria de 38 euros. Já se a taxa associada ao contrato fosse a Euribor a 12 meses, a prestação passaria de 859 euros, para 926 euros, totalizando um aumento de 67 euros mensais.

E se os juros voltarem a subir?

Desde o início do conflito no Médio Oriente, em fevereiro de 2026, a Euribor a 12 meses já subiu cerca de 0,60 pontos percentuais. Entretanto, o BCE aumentou as taxas diretoras em 25 pontos base e não se exclui a hipótese de novas subidas caso a inflação permaneça elevada.

Se a Euribor refletir estas expectativas, o impacto continuará a fazer-se sentir nas prestações do crédito habitação. Nesse caso, quanto poderá aumentar a prestação (revista em junho deste ano), num financiamento de 200 mil euros, com prazo de 30 anos e Euribor a 12 meses?

Prestação inicial

Subida da taxa de juro

Prestação revista

Aumento da prestação

926€

+ 0,25 pontos percentuais

961€

+ 35€

926€

+ 0,50 pontos percentuais

990€

+ 64€

Calcule o impacto da subida dos juros no seu crédito habitação

Se pretende perceber de que forma a subida da Euribor poderá afetar a sua prestação, basta reunir algumas informações sobre o seu crédito habitação e recorrer ao simulador da variação da Euribor do Doutor Finanças. Veja como fazer:

  1. Verifique qual a maturidade da Euribor associada ao seu contrato

Comece por confirmar se o seu crédito está indexado à Euribor a 3, 6 ou 12 meses. Esta informação consta da FINE, do contrato de crédito ou dos extratos enviados pelo banco.

  1. Consulte a data da próxima revisão

A prestação só é atualizada na data de revisão prevista no contrato. Nessa altura, sentirá o impacto de uma eventual subida ou descida da Euribor.

  1. Confirme o capital em dívida

O efeito de uma alteração das taxas de juro varia consoante o montante que ainda falta pagar ao banco e o momento do empréstimo em que se encontra. Regra geral, quanto maior for o capital em dívida e mais recente for o crédito, maior será o impacto na prestação mensal, devido ao maior peso dos juros.

  1. Utilize o simulador da Euribor

Depois de reunir estes dados, o simulador da variação da Euribor permite-lhe estimar quanto poderá pagar a mais (ou a menos) na próxima revisão do crédito. Desta forma, conseguirá preparar-se com maior antecedência.

Antes de a prestação aumentar, procure alternativas

Se antecipa que uma próxima revisão da prestação do empréstimo da casa pode agravar os encargos com o crédito habitação, comece desde já a avaliar alternativas. Quanto mais cedo procurar soluções no mercado, maior será a sua margem para reduzir o impacto de eventuais subidas dos juros. A opção mais adequada dependerá das características do seu empréstimo e das necessidades do seu agregado familiar. Veja, de seguida, algumas soluções que pode considerar.

Renegociar o crédito habitação

Uma das primeiras medidas a considerar é a renegociação das condições do crédito junto do seu banco. Poderá conseguir um spread mais reduzido, alterar o prazo do empréstimo ou rever a modalidade da taxa de juro.

Atualmente, quando renegociam o crédito, muitos consumidores optam por passar de taxa variável para taxa mista. Esta última permite fixar a prestação durante um período inicial (normalmente, de um a cinco anos), garantindo alguma previsibilidade em momentos mais instáveis. Embora residual no mercado nacional, também pode ponderar mudar para taxa fixa. Apesar do custo mais elevado, mantém a mensalidade inalterada durante toda a duração do contrato, o que significa que não terá de voltar a preocupar-se com as subidas da Euribor.

Transferir o crédito para outro banco

Se o seu banco não apresentar condições mais favoráveis, pode valer a pena analisar propostas de outras instituições e transferir o crédito. Nesse caso, não se esqueça que deve sempre comparar as propostas através de indicadores como a TAEG (Taxa Anual de Encargos Efetiva Global) e o MTIC (Montante Total Imputado ao Consumidor), pois são eles que refletem o custo total do crédito.

Amortizar antecipadamente o empréstimo

Se tiver poupanças disponíveis, amortizar parte do crédito é a solução ideal não só para reduzir a prestação, mas também o capital em dívida. Dessa forma, pagará menos juros ao banco. Tenha, no entanto, em conta que terá de pagar comissão por amortização antecipada. No caso dos créditos com taxa variável, esse encargo é de 0,5% sobre o montante amortizado, enquanto nos de taxa fixa o custo é de 2%.

Leia também: Crédito habitação: 7 formas de reduzir a prestação da casa

Perguntas frequentes

Não. Nos contratos com taxa variável, o impacto só se faz sentir na data de revisão do crédito habitação. Nos contratos com taxa fixa, a prestação mantém-se inalterada durante o período contratado.

Deve consultar a data de revisão prevista no contrato de crédito ou na FINE. A atualização ocorre de acordo com o prazo da Euribor associada ao empréstimo (3, 6 ou 12 meses).

A Euribor tende a refletir as decisões do BCE, mas também incorpora as expectativas dos mercados relativamente à evolução futura das taxas de juro.

Para fazer essa estimativa, precisa de conhecer o capital em dívida, o prazo remanescente do empréstimo, o spread e a Euribor associada ao contrato. Depois, pode utilizar um simulador da variação da Euribor do Doutor Finanças.

Pode tentar renegociar as condições do crédito, transferir o empréstimo para outro banco, amortizar antecipadamente parte do capital em dívida ou rever o orçamento familiar para acomodar os novos encargos.

Depende da sua situação financeira e das condições oferecidas pelo banco. A taxa mista pode proporcionar maior previsibilidade durante o período de taxa fixa, mas é importante comparar o custo total do crédito antes de tomar uma decisão.

Sim. Ao reduzir o capital em dívida, poderá diminuir o valor da prestação mensal ou encurtar o prazo do empréstimo.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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