Notas de dólar

É muito provável que se tenha uma sensação visceral perante as letras e os vídeos de Ren Gill: ou se gosta ou se detesta. Ainda assim, já são muitos os que gostam. Contam-se aos milhões os fãs do rapper galês, que encontrou na música uma paixão que o distraía da dor crónica que o aflige desde a adolescência. Após integrar uma banda de garagem e tocar nas ruas de Brighton, o sucesso e a fama viriam com os vídeos publicados na Internet. O álbum “Sick Boi”, lançado de forma independente em 2023, marcaria a consagração do artista, ao atingir o número um na tabela de álbuns do Reino Unido. Mas nada disso parece ter alterado a revolta interior de Ren sobre o mundo em que vive.

É melhor voltarem a pôr o cinto, para esta segunda e última parte à volta do tema “Money Game”.

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Jimmy: o menino-prodígio

No vídeo de “Money Game – Parte 3”, voltamos a encontrar encapuzados, mas agora vestidos de fato e gravata. Um deles é Ren, que, já de cara à mostra, se senta ao piano de cauda para nos contar a história do menino Jimmy, que disse as suas primeiras palavras com um aninho de vida: «Meu! Meu! Dá!». Aos cinco, Jimmy ouviu o pai dizer-lhe que, para ele ser um homem a sério, teria de se esforçar para conquistar aquilo que desejasse. E eis o menino a aplicar-se para ser o primeiro da classe. Perante as notas extraordinárias alcançadas pelo filho, os pais resolvem metê-lo num colégio privado. Jimmy é um prodígio e, ano após ano, continua a sua ascensão, sempre sob os sábios conselhos do pai: «Filho, o dinheiro é o meio para atingir todos os fins».

Aos 14, Jimmy já resolve equações matemáticas complexas. Aos 16, desenvolve um código de software que deteta falhas nos protocolos de cibersegurança. Aos 17, vende a sua ideia, ficando com uma participação na empresa; ainda não é maior de idade, mas é praticamente milionário. Aos 18, o pai diz-lhe: «Agora, és um homem. Este mundo não quer saber de ti, por isso aproveita tudo o que puderes». E Jimmy aproveita, investindo aqui e ali, duplicando os rendimentos.

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O peso de um pai insatisfeito

Aos 22 anos, Jimmy já aprendeu «que a verdade é apenas um obstáculo à riqueza; se manipulares os dados, então uma mentira vende-se sozinha». No ano seguinte, já desfruta de uma vida de luxo. Mete-se nas drogas, aparece na lista da Forbes, mas o pai diz-lhe para não se contentar. «Ouve bem, filho: só porque estás sentado naquele palácio, isso não significa que tenhas vencido».

Numa mudança de rumo, Jimmy passa para o comércio de armas e compra um lugar no Senado. Aos 29 anos, torna-se conselheiro íntimo do Presidente, mas, aos olhos do pai, isso não chega. «Estás a perder a corrida. És apenas um servo do rei. Nem sequer estás em segundo lugar.» Na constante busca da aprovação do progenitor, Jimmy anseia por mais dinheiro e mais poder. Envolve-se no tráfico de droga e, num ápice, o menino-prodígio passa dos gramas para os quilos, e dos quilos para as toneladas. É um barão da droga. Enche armazéns com pólvora e armas, paga à polícia para fazer vista grossa, entra numa guerra de território. Tem 35 anos quando recebe uma chamada com uma informação dramática: o pai teve um ataque cardíaco e morreu.

A partir desse momento, tudo se precipita. A bebida, o consumo de droga, o olhar vidrado, o ar demoníaco… A sede de poder, ainda mais poder, sempre mais poder, na tentativa de saciar a memória do pai que continua a devorá-lo por dentro. Mas não existe nada que consiga apaziguar Jimmy. E, imerso na ganância do “jogo do dinheiro”, ele entrará na espiral do seu trágico fim.

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