Homem a guardar notas de dólar

As histórias contadas pelo cantor-compositor galês Ren Gill parecem exigir uma reação emotiva. A prová-lo, não faltam vídeos na Internet de gente a reagir ao tema “Hi Ren” (que já acumulou milhões de visualizações), no qual o rapper descreve a sua saga médica e os seus problemas de saúde mental. Essa é a história de um rapaz de 19 anos, a viver com dores agudas, que se vê diagnosticado e tratado para um distúrbio bipolar, síndrome de fadiga crónica, depressão, até obter, anos depois, o veredito de ter a doença de Lyme. Porém, se trazemos Ren aqui, é por causa da trilogia “Money Game”.

Metam o cinto, que a viagem vai ser turbulenta.

[e por isso a dividimos em dois volumes, para a carga não ser exagerada…]

A chama da ganância

Fica o aviso prévio de que o vídeo de “Money Game – Parte I” tem imagens muito fortes. O cenário sugere as torturas de Guantánamo: vê-se um guitarrista amarrado a uma cadeira, com um saco de pano enfiado na cabeça. Enquanto declama, Ren ronda-o. Bate-lhe. Estrangula-o. No final, há o prenúncio de uma imolação. Está o aviso feito.

A letra também não poupa ninguém. Aqui, o “velho jogo do dinheiro” remete-nos para a corrupção dos políticos, as mentiras distorcidas, a hipocrisia de tentar culpar o cidadão comum pelo desconcerto económico global. «A ganância percorre os corredores do parlamento», acusa-se. «Os demónios andam entre nós».

Para Ren, é a busca extremada da riqueza pessoal que faz acender a chama da ganância; e é por causa da ganância que o mundo está a arder. «O dinheiro foi inventado para o comércio. Mas, agora, esses pedaços de papel distorcem corações, criam escravos, transformam um santo num pecador, uma criança num assassino.»

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Tempos de pânico, histeria e narcisismo

Para a ilustração de “Money Game – Parte II” recolheram-se imagens documentais de debates nos parlamentos, ditadores do passado, escândalos financeiros, manifestações reprimidas com violência, entre cenas de filmes ou de séries animadas, que visam refletir, de forma quase literal, os versos da letra. «Vivemos tempos estranhos, de pânico e histeria», tempos em que «as mentalidades narcisistas se espalham como a malária». Para Ren, importa que se perceba uma coisa: o homem rico, à imagem da personagem do Tio Patinhas, não se importa com o homem pobre.

A prová-lo, a segunda parte da canção dá-nos um curso rápido sobre a economia baseada na criação artificial da escassez. Imaginemos alguém que vende conchas à beira-mar. Devido às leis da oferta e da procura, ninguém lhe quer comprar o produto, pois não faltam conchas espalhadas pelo areal. Assim sendo, que fazer?

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Guia para vender conchas à beira-mar

1 – Criar uma sensação de escassez. As conchas vão vender-se muito melhor se as pessoas pensarem que são raras. Para que tal aconteça, é preciso apanhar o maior número possível de conchas do areal e escondê-las numa ilha; deve-se acumular conchas, até que estas se tornem tão escassas e valiosas como se fossem diamantes.

2 – Fazer com que as pessoas pensem que «querem mesmo» ter uma concha. Aqui, será preciso um ataque impiedoso, através de influenciadores, colocação de produtos, destaques nos programas de entretenimento em horário nobre. Quem não tiver uma concha, deverá passar a sentir-se como um falhado.

3 – Investir. Criar uma empresa, com logotipo e tudo, e adotar a filosofia “vender conchas a todo o custo”. Ah, e pôr de lado as questões morais, pois «isso é coisa de gente pobre».

4 – Expandir. E pouco importa que se desmate a floresta, na busca de novos terrenos para a expansão imobiliária.

5 – Diversificar. «Porquê só conchas?» Nada de limitações; quem vende conchas, também pode vender petróleo.

6 – Mais diversificação. Vender armas, ações, diamantes… «Vende água a um peixe, vende o tempo a um relógio».

7 – Acelerar. Tirar o pé do travão e aumentar a vertigem de tudo. Que tal concorrer ao cargo de presidente dos Estados Unidos?

8 – Apostar na imagem. «Grande sorriso, grande aceno, isso é ótimo. Agora, a verdade é sobrevalorizada, conta mentiras desde o início.»

9 – Polarizar. Compreender que a controvérsia passou a fazer parte do jogo. «Não importa se [as pessoas] te odiarem, desde que todas digam o teu nome.»

10 – Globalizar. «O mundo é teu. Sobe ao palco para uma salva de palmas.»

É o fim de um ciclo. Razão para comemorar? Nem por isso, se atentarmos na caracterização feita por Ren: «És um mentiroso, uma fraude, um demónio, um prostituto. E vendes conchas à beira-mar.»

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