Os mercados financeiros atravessaram o primeiro semestre de 2026 sob forte instabilidade geopolítica, pressão sobre o petróleo, receios em torno da inflação e incerteza sobre os próximos passos dos bancos centrais. Ainda assim, as ações surpreenderam pela positiva, com os principais índices acionistas a resistirem melhor do que seria expectável num contexto marcado por riscos.
“Os mercados financeiros não gostam de instabilidade. Os mercados gostam de previsibilidade”, explicou Mário Brandão, diretor da área de Private Banking do Bison Bank, durante uma Open Class promovida pelo Bison Bank e pelo Doutor Finanças, na qual analisou o comportamento dos mercados no primeiro semestre e as perspetivas para a segunda metade do ano.
A surpresa, segundo o especialista do Bison Bank, esteve na capacidade dos mercados acionistas para continuarem a valorizar, apoiados pela resiliência da economia norte-americana, pelos resultados das empresas e pelo impulso da tecnologia.
Mercado acionista surpreende em 2026
A grande surpresa nos mercados financeiros em 2026 foi a resistência das ações. Este desempenho contrariou aquilo que muitos investidores poderiam esperar num ano marcado por conflitos, instabilidade geopolítica, pressão sobre o petróleo e receios em torno da inflação.
O responsável destacou o comportamento dos principais índices acionistas, referindo que o S&P 500 registou uma valorização na ordem dos 7%, enquanto o Euro Stoxx 50 avançou perto de 9%. “Ao contrário daquilo que se poderia pensar, os mercados acionistas tiveram, até agora, um ano fantástico”, afirmou.
A explicação está, em grande parte, nos resultados das empresas, sobretudo nos Estados Unidos. Mário Brandão sublinhou que “mais de 80% das empresas do S&P 500 tiveram resultados não só positivos, como acima das expectativas”, o que ajudou a sustentar a confiança dos investidores.
Esta evolução reforça a resiliência da economia norte-americana e o papel das tecnológicas, da inteligência artificial e dos semicondutores na valorização dos mercados. Esta leitura enquadra-se na abordagem do Bison Bank, que privilegia uma gestão patrimonial de longo prazo assente na diversificação, na análise fundamentada e numa visão global dos mercados.
Questões geopolíticas são o tema mais relevante do ano
O diretor de Private Banking do Bison Bank colocou a geopolítica no centro da análise ao primeiro semestre. “O ano de 2026 está a ser um ano de vários contrastes. Temos aqui um tópico que talvez seja o mais relevante: as questões geopolíticas”, explicou. Estes riscos já vinham do final de 2025, mas ganharam nova força este ano, com o Médio Oriente a juntar-se ao conflito no leste europeu.
Este contexto criou um ambiente de maior imprevisibilidade nos mercados financeiros em 2026. Ainda assim, o responsável considera que os investidores foram ajustando expectativas à medida que alguns eventos se repetiram ou perderam impacto. “O mercado vai descontando isso, vai antecipando esses movimentos”, referiu, explicando que determinadas declarações ou episódios políticos podem ter um efeito limitado quando não se traduzem em consequências económicas concretas.
“O preço do petróleo afeta toda a economia”
Entre as consequências mais visíveis da instabilidade geopolítica esteve a subida do petróleo O bloqueio do Estreito de Ormuz condicionou a oferta e levou a uma escalada dos preços. “O preço do petróleo, que, em termos médios, andava à volta dos 70 ou 80 dólares, chegou a tocar nos 120 dólares”, recordou.
O impacto não se limita ao mercado das matérias-primas. “O preço do petróleo afeta toda a economia”, sublinhou. Para explicar a ligação ao dia a dia das famílias, deu o exemplo do pão que chega à padaria e depende de transporte, combustível e custos de distribuição. Quando esses custos sobem, acabam por chegar aos consumidores através da inflação. Por isso, defendeu que a inflação continua a ser “uma das variáveis mais importantes para 2026”.
Subida dos juros e o impacto nas obrigações
Se as ações surpreenderam pela positiva, o mercado de dívida não teve a mesma reação. A explicação está na ligação entre inflação, taxas de juro e obrigações. Quando a inflação sobe ou ameaça voltar a subir, os bancos centrais podem manter uma política monetária mais restritiva. E isso penaliza sobretudo a dívida de prazo mais longo.
“Quando há subida das taxas de juro, as obrigações não gostam”, explicou. O responsável referiu que as obrigações governamentais norte-americanas, conhecidas como US Treasuries, e a dívida soberana europeia de longo prazo foram mais afetadas.
O especialista destacou ainda as TIPS, obrigações norte-americanas indexadas à inflação, que “acabam por ter um desempenho um pouco superior ao da dívida convencional” quando os preços continuam pressionados.
“O ouro não reagiu como seria expectável”
Algo que é fundamental perceber é que os ativos não reagem todos da mesma forma aos choques. No petróleo, a relação foi direta: se a oferta fica condicionada, o preço sobe. Já no ouro, a reação foi menos evidente do que seria expectável num contexto de maior instabilidade. “O ouro, por norma, deveria funcionar como ativo de refúgio”, explicou Mário Brandão.
Segundo o responsável, o dólar teve alguma valorização, ajudado também pelas taxas de juro, mas o ouro não escalou como poderia acontecer num cenário clássico de maior aversão ao risco. Esta reação mostra que a instabilidade geopolítica não produz sempre os mesmos efeitos e que os investidores continuam a ponderar vários fatores em simultâneo, incluindo juros, inflação, dólar e expectativas sobre crescimento.
“A inteligência artificial vai continuar a empurrar uma parte do mercado”
Olhando para o segundo semestre, Mário Brandão considera que várias tendências do início do ano devem continuar presentes. Uma das mais relevantes é a inteligência artificial. “A inteligência artificial vai continuar a empurrar uma parte do mercado norte-americano”, afirmou. O tema tem sido um dos grandes impulsionadores das ações, em particular nos Estados Unidos, onde as grandes tecnológicas continuam a concentrar uma parte significativa da atenção dos investidores.
A esta tendência junta-se o setor dos semicondutores, muito ligado ao desenvolvimento da inteligência artificial. Mário Brandão destacou Taiwan e Coreia do Sul como mercados particularmente relevantes nesta área.
Além disso, referiu o Japão, que beneficiou do regresso da inflação positiva depois de várias décadas marcadas por deflação, e os mercados emergentes, sobretudo asiáticos, como regiões que podem continuar a beneficiar de uma dinâmica favorável.
“Os mercados emergentes são uma das regiões de que mais gostamos”
No segundo semestre, os mercados emergentes merecem destaque. “Geograficamente, os emergentes são, de facto, uma das regiões de que mais gostamos até ao final do ano”, afirmou Mário Brandão. O responsável apontou para a Ásia, mas também para a América Latina, onde o Brasil teve uma evolução positiva, impulsionada pelas matérias-primas.
Além das ações, a preferência por emergentes estende-se também ao mercado obrigacionista. Na perspetiva do Bison Bank, num cenário de alguma instabilidade e dificuldade no dólar, estes mercados podem beneficiar.
Ainda assim, a leitura deve ser feita com prudência. Os emergentes oferecem maior potencial de crescimento, mas também podem envolver riscos mais elevados, nomeadamente cambiais, políticos e económicos.
Criptoativos: O primeiro semestre “ensinou-nos que também caem”
Os criptoativos voltaram a estar no radar dos investidores, mas Mário Brandão realçou que o primeiro semestre de 2026 mostrou que estes ativos “também caem”. A menção foi feita à Bitcoin, que continua a ser o principal criptoativo usado como referência, mas que também está sujeita a quedas expressivas.
Os ativos digitais devem ser encarados como ativos financeiros com risco e volatilidade. Podem ter espaço em carteiras moderadas ou mais agressivas, mas com um peso limitado. “Não recomendamos uma exposição superior a 5% em ativos digitais”, afirmou.
A entrada em vigor do enquadramento europeu MiCA foi apontada como um passo relevante para a regulação do setor, contribuindo para um ambiente de maior transparência e segurança para investidores e instituições. Neste contexto, o Bison Bank lançou recentemente uma stablecoin enquadrada pelas novas regras europeias, refletindo a aposta da instituição numa abordagem regulada e sustentável à inovação financeira. Ainda assim, o responsável sublinhou que a regulação não elimina o risco associado a este tipo de investimento.
“A imprevisibilidade é sempre um problema para os mercados financeiros”
Apesar das oportunidades identificadas, os riscos continuam bem presentes. Quando questionado sobre os principais fatores de preocupação para os próximos meses, Mário Brandão colocou a geopolítica no topo da lista. “A imprevisibilidade é sempre um problema para os mercados financeiros. Não gostamos”. O responsável lembrou que, mesmo quando uma frente de tensão parece acalmar, outra pode surgir.
A política monetária, o crédito e o crescimento económico também estão entre os temas a acompanhar. Se a inflação voltar a ganhar força, os bancos centrais podem ser obrigados a manter ou subir taxas de juro, o que afeta empresas, famílias e investimento. Ao mesmo tempo, Mário Brandão alertou que a economia global está a crescer abaixo da média histórica, com uma Europa “um pouco anémica” e uma China que já não cresce ao ritmo de outros períodos.
Pior erro é “responder por impulso”
Para investidores menos experientes, a volatilidade pode levar a decisões precipitadas. “O pior erro é responder por impulso. É deixar que as emoções ultrapassem o racional”, realçou o especialista do Bison Bank. Em períodos de instabilidade, vender depressa, tentar recuperar perdas assumindo mais risco ou abandonar uma estratégia sem análise pode comprometer os resultados de longo prazo.
O responsável defendeu que cada investidor deve ter uma estratégia adaptada ao seu perfil, idade, objetivos, horizonte temporal e tolerância ao risco. “O investidor deve manter-se fiel à sua estratégia racional e não se deixar levar pelas emoções”, afirmou. Para Mário Brandão, a estratégia deve ser definida antes dos momentos de tensão, porque é nesses momentos que as emoções tendem a pesar mais.
A importância do horizonte temporal
O horizonte temporal é outro ponto central na estratégia de um investidor. O tempo não elimina o risco, mas pode ajudar a controlá-lo. Um investidor com prazo de seis meses ou um ano terá pouca margem para recuperar de uma queda abrupta. Já quem investe com um horizonte mais longo pode ter maior capacidade para atravessar períodos negativos.
“Quanto mais reduzido é o horizonte temporal do investimento, maior tem de ser o controlo do risco”, explicou o responsável. A história dos mercados mostra que a probabilidade de retorno positivo aumenta com o prazo.
Ainda assim, isso não significa que todos os investimentos sejam adequados para todos os investidores. O nível de risco deve estar sempre alinhado com o tempo disponível, os objetivos e a capacidade de suportar perdas temporárias.
“Não investir é assumir uma derrota antes de o ‘jogo’ começar”
Mário Brandão defende que investir continua a ser importante, mesmo num contexto exigente. “Não investir é assumir uma derrota antes de o ‘jogo’ começar”, afirmou. A razão está na diferença entre a taxa nominal que os aforradores recebem, os impostos pagos sobre os juros e a inflação. Quando estes fatores são considerados, o retorno real de soluções muito conservadoras pode ser negativo.
Contudo, a mensagem não foi a de assumir risco sem critério. Pelo contrário. “Invistam racionalmente. Diversifiquem. Invistam a longo prazo. E, acima de tudo, invistam de uma forma que vos deixe confortáveis, independentemente das notícias que possam surgir”, concluiu. Para Mário Brandão, o essencial é perceber o contexto, conhecer os riscos e deixar o tempo trabalhar a favor de uma estratégia bem pensada.
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