Após três anos de valorizações substanciais, a maioria dos principais índices acionistas mundiais marca ganhos de dois dígitos em 2026 e negoceia em território de máximos históricos. Com as empresas tecnológicas a persistirem na linha da frente, as subidas este ano são mais generalizadas entre setores, num desenvolvimento benigno para a sustentabilidade deste movimento favorável.

Com alguns sobressaltos pelo meio, mais ou menos pronunciados, a trajetória dos mercados acionistas globais tem sido claramente ascendente, com o apetite dos investidores pelos ativos de risco a resistir a uma série de ventos contrários.

O conflito no Médio Oriente e consequente escalada nos preços do petróleo; receios com uma bolha na Inteligência Artificial; pressão para os bancos centrais subirem juros devido ao agravamento da inflação; stress no mercado de crédito privado e outros desenvolvimentos desfavoráveis têm sido insuficientes para quebrar este Bull Market (tendência de alta sustentada) que arrancou no final de 2022 nas ações globais.

Além de mais ampla em termos de setores, a valorização das bolsas em 2026 também é abrangente ao nível geográfico. As ações europeias, que muitas vezes ficam para trás nos movimentos de alta a nível global, estão a negociar em máximos históricos, com o índice Stoxx600 a marcar um ganho de 10%. As subidas são (muito) mais expressivas em diversos mercados asiáticos e também (pouco) mais elevadas nos Estados Unidos, refletindo o peso mais substancial das empresas tecnológicas nestes mercados.

Se até aqui não surgiram temas capazes de derrubar o sentimento otimista dos investidores nas ações, a lista de fatores de preocupações continua a estar bem preenchida. Em baixo o detalhe dos cinco temas que têm potencial para provocar uma correção significativa nos mercados acionistas até ao final do ano, ou então reforçar a tendência altista em direção a novos recordes.

Resultados robustos

Os resultados das empresas têm sido o principal motor a alimentar o apetite dos investidores pelas ações. Os números do primeiro trimestre, apresentados em abril e maio, mas sobretudo as contas do segundo trimestre, reportados em julho e agosto, deram a confiança de que o mercado necessitava para debelar as preocupações com outros fatores, sobretudo na geopolítica.

Os lucros das empresas do índice norte-americano S&P500 aumentaram 29,4% entre janeiro e março, com a taxa de crescimento a acelerar para 51,6% no período entre abril e junho. Embora os números do segundo trimestre ainda não estejam fechados e tenham sido empolados por ganhos extraordinários da Alphabet e Amazon, esta época de apresentação de resultados é vista como uma das melhores de sempre em Wall Street. Sem estes efeitos extraordinários, os lucros subiram 33%, o que representa um máximo desde 2021, período em que as variações foram mais expressivas por compararem com o primeiro ano da pandemia.   

A Europa não ficou muito atrás, com a taxa de crescimento dos lucros das empresas do Stoxx600 a mais do que duplicar entre trimestres para perto de 25%, o que também representa o aumento mais pronunciado em quatro anos. No índice europeu foram as petrolíferas a impulsionar os resultados totais, mas mesmo sem este efeito o crescimento foi de dois dígitos.

Os bons números dos dois primeiros trimestres levaram os analistas a rever em alta as perspetivas de crescimento para o resto do ano e 2027, continuando a apontar para aumentos robustos nos lucros dos próximos trimestres nos dois lados do Atlântico. Esta evolução favorável permitiu uma contração dos múltiplos de avaliação dos índices, validando a narrativa de que a valorização do S&P500, Stoxx600 e outros índices está a ser alcançada à custa da melhoria dos fundamentais.

Antes de o mercado se focar nos números do terceiro trimestre, as atenções estão centradas nos resultados que a Nvidia vai apresentar a 26 de agosto. A maior cotada do mundo é essencial para o mercado em geral e para a indústria da Inteligência Artificial em particular, pelo que os números e perspetivas que revelar serão vitais para o ritmo das Bolsas neste final de verão. Quanto aos resultados do terceiro trimestre a nível geral, terão de manter a tendência observada nas duas últimas épocas para manter intacto o otimismo dos investidores. Uma tarefa complicada, uma vez que a fasquia está cada vez mais elevada.    

A força da Inteligência Artificial

Se os resultados têm sido o principal motor das Bolsas, o crescimento explosivo da indústria da Inteligência Artificial é o grande impulsionador da subida dos lucros e receitas. As empresas de chips são as estrelas nos mercados em 2026, devido ao aumento substancial dos investimentos das grandes tecnológicas em infraestruturas de Inteligência Artificial.

Trimestre após trimestre, as empresas conhecidas por “hyperscalers” estão a rever em alta as metas de investimento, o que tem mantido viva a euforia no setor. Por outro lado, tem limitado a evolução de companhias como a Alphabet, Microsoft, Amazon e outras grandes tecnológicas, sobretudo aquelas que não conseguem apresentar lucros e receitas que mostrem os resultados dos elevados investimentos que estão a efetuar.

As estimativas do Goldman Sachs apontam para que o investimento global em infraestruturas de Inteligência Artificial supere a fasquia de 1 bilião de dólares em 2026 e continue a acelerar nos próximos anos. As empresas de chips têm negociado com elevada volatilidade nas últimas semanas, sendo que quaisquer sinais de abrandamento no investimento em data centers pode motivar uma correção significativa no setor e nas tecnológicas em geral. 

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Incerteza na política monetária

A guerra no Irão provocou uma reviravolta nas expectativas para a evolução da política monetária a nível global, com a escalada dos preços do petróleo a fazer regressar a ameaça do descontrolo da inflação. O Banco Central Europeu (BCE) foi o primeiro a responder, com uma subida de juros em junho que deverá ser repetida neste mês de setembro, colocando a taxa dos depósitos em 2,5%.

Na política monetária da Fed, a visibilidade é bem mais turva. O banco central dos Estados Unidos ainda não mexeu nos juros este ano e as estimativas apontam para que a taxa dos Fed Funds permaneça em 3,50%/3,75% na reunião de setembro. As previsões implícitas no mercado de futuros apontam para pelo menos um agravamento até ao final do ano, mas os economistas atribuem uma probabilidade mais elevada à estabilização da política monetária no resto de 2026.

A mudança de liderança da Fed contribuiu para aumentar a incerteza sobre o rumo dos juros nos Estados Unidos. Kevin Warsh defende que o banco central deve comunicar de forma menos explícita quais os movimentos futuros dos juros, pelo que os indicadores económicos assumem uma relevância acrescida para moldar as expectativas dos investidores para a evolução da política monetária.

Avessos à incerteza, os investidores não gostam desta estratégia de “esconder o jogo”, estando também a escrutinar com especial atenção os sinais de rombos na credibilidade do banco central. Warsh, que foi escolhido por Donald Trump, tem garantido a independência do banco central e repetido a determinação em baixar a inflação.

O BCE e Fed têm mais três reuniões de política monetária até ao final do ano (setembro, outubro e dezembro), sendo que antes disso acontecerá um importante evento que deverá dar mais pistas ao mercado sobre a política monetária da Fed. O simpósio de Jackson Hole de 2026, que decorre entre 27 e 29 de agosto, será crucial para Warsh mostrar independência face ao poder político e determinação em controlar a inflação.

Embora subidas de juros sejam mal recebidas pelos mercados, pior será se os investidores percecionarem que o banco central dos EUA está a cometer um erro ao não apertar a política monetária. No caso do BCE, esse perigo parece menos provável, mas também existe o risco de as subidas de juros excessivas pressionarem em demasia a evolução da atividade económica.

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A ameaça dos juros das obrigações

Se no mercado de ações reina o otimismo, nas obrigações o cenário é bem diferente, dominando o pessimismo devido a uma série de desenvolvimentos desfavoráveis. As bolsas globais têm evoluído quase imunes ao agravamento das yields das obrigações, mas existe o perigo real de contágio entre os dois mercados se o stress for mais intenso, com muitos analistas a verem neste cenário a principal ameaça à manutenção da trajetória positiva das ações.   

As últimas sessões têm sido marcadas por uma subida acentuada dos juros das obrigações a nível global, com incidência mais intensa nos prazos longos e nos Estados Unidos. A yield dos títulos norte-americanos a 30 anos avançou para máximos de 2007, e na maturidade de referência a 10 anos, atingiu o nível mais elevado desde 2023. As yields das obrigações francesas e alemãs também estão em máximos desde a grande crise financeira e no Japão as taxas atingiram o nível mais elevado deste século.

Este pessimismo nas obrigações (yields evoluem em sentido contrário às cotações) reflete uma série de fatores. Os investidores estão a pedir juros mais elevados para emprestar dinheiro a países e empresas devido às perspetivas de que a inflação vai permanecer elevada por mais tempo e os bancos centrais serão obrigados a subir os juros.

A deterioração das contas públicas também tem uma quota parte muito relevante no agravamento dos juros das obrigações. Os países estão a aumentar de forma pronunciada os gastos em defesa e a reforçar os apoios às famílias, para amortecer o impacto dos preços mais elevados das matérias-primas energéticas. O défice orçamental dos Estados Unidos deverá avançar para 6% este ano, o equivalente a quase 2 biliões de dólares, sendo que a dívida pública total já superou a fasquia dos 40 biliões de dólares, duplicando em menos de 10 anos.

O aumento da oferta de dívida é outro dos fatores que explica a tendência negativa nas obrigações. Se os países estão a aumentar os montantes das emissões para financiarem os défices crescentes, as grandes tecnológicas estão numa corrida para angariar financiamento para fazer face aos avultados investimentos que estão a efetuar em infraestruturas de Inteligência Artificial.

O risco da geopolítica

O início da guerra no Irão provocou um forte tumulto nos mercados no mês de março, mas as ações recuperaram de forma progressiva apesar de persistir uma elevada incerteza sobre o rumo do conflito no Médio Oriente. Perante avanços e recuos sistemáticos nos acordos entre os Estados Unidos e o Irão, os investidores focaram-se nos fundamentais para reforçarem a exposição às ações.

Mas a geopolítica continua a representar um considerável risco para a continuação da tendência de alta nas bolsas, pois tem implicações consideráveis em todos os outros temas analisados anteriormente. A evolução das cotações do petróleo é a peça-chave, sendo que um agravamento adicional nos preços da matéria-prima tem potencial para penalizar os resultados das empresas, intensificar a pressão na inflação e nos bancos centrais, dificultar os investimentos em Inteligência Artificial, penalizar a evolução da atividade económica e acentuar o movimento de alta das yields das obrigações.

A cotação do Brent acumula uma valorização superior a 50% em 2026 e negoceia acima dos 90 dólares por barril. Os Estados Unidos estão a mudar a estratégia, trocando os ataques militares pela pressão económica sobre o Irão, mas as perspetivas para a reabertura do Estreito de Ormuz no curto prazo são tudo menos favoráveis. Um regresso do petróleo acima dos 100 dólares tem potencial para derrubar o otimismo que persiste nos mercados acionistas, sobretudo nos mercados das economias mais vulneráveis a um choque energético, como é o caso da Europa.

As eleições intercalares nos Estados Unidos, agendadas para novembro, representam outro risco considerável para as bolsas globais, pois vão aumentar a incerteza sobre o rumo das já erráticas políticas implementadas por Donald Trump.

A valorização das bolsas globais tem resistido a todos os ventos desfavoráveis e 2026 deverá marcar o quarto ano seguido de saldos positivos significativos. Bastará um desenvolvimento desfavorável num dos temas assinalados neste artigo para que surja uma correção na reta final deste ano, mas se perdurar a narrativa atual, os índices acionistas têm via aberta para renovar máximos, mesmo que com alguns sobressaltos pelo caminho.

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