Já foram escolhidas as instituições que vão participar no projeto piloto do euro digital, que tem arranque previsto para o segundo semestre de 2027 e deve durar 12 meses. O Banco Central Europeu (BCE) escolheu mais de 35 prestadores de serviços de pagamento de toda a Zona Euro, dos quais três são portugueses.
O Banco Comercial Português (BCP), a Caixa Geral de Depósitos (CGD) e a Unicre foram os três prestadores de serviços de pagamentos selecionados, aos quais se junta o Banco de Portugal enquanto um dos 19 bancos centrais nacionais participantes.
O Eurosistema recebeu mais de 50 candidaturas para o projeto piloto, depois de ter lançado o pedido de manifestação de interesse em março de 2026.
O que se segue?
O projeto piloto do euro digital deve arrancar na segunda metade de 2027 e durar 12 meses. O objetivo é testar a futura moeda digital do ponto de vista técnico e operacional.
Durante este período, os colaboradores dos bancos centrais nacionais (no caso português, o Banco de Portugal) farão pagamentos usando uma versão beta do euro digital. Como explica o BCE, “poderão enviar dinheiro entre si (online e offline) e pagar a determinados comerciantes, tais como cafetarias, restaurantes e lojas online ligadas ao BCE e aos bancos centrais nacionais”.
Os prestadores de serviços de pagamento distribuídores (como o BCP e a CGD) “darão acesso aos colaboradores do Eurosistema aos serviços do euro digital beta, tais como a abertura de conta e a realização de pagamentos”, explica o Banco de Portugal.
Já os prestadores de serviços de pagamentos adquirentes (ao BCP e à CGD junta-se a Unicre) “prestarão serviços aos comerciantes selecionados e permitirão que estes recebam pagamentos em euro digital beta”.
Ainda assim, o piloto não significa que o euro digital vai mesmo ser lançado. Tal está dependente da aprovação da legislação, ainda em discussão entre o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia. Além disso, será sempre necessário esperar pelos resultados do teste e perceber a viabilidade da nova moeda.
Em todo o caso, se tudo correr bem, o Banco Central Europeu prevê que o euro digital possa ser emitido a partir de 2029.
Mas o que será o euro digital?
A forma como o euro digital vai funcionar pode gerar algumas dúvidas. O BCE fala de uma moeda digital alternativa e equivalente ao númerário (moedas e notas) que pode ser usada para fazer pagamentos eletrónicos em estabelecimentos comerciais, na internet ou entre pessoas.
É aqui que as perguntas podem começar a surgir. Afinal, já não existem formas de pagamento digitais que pemitem pagar destas formas? Até que o euro digital chegue até nós, é natural que o conceito pareça abstrato e que seja difícil aos consumidores identificar qual a grande diferença que vão sentir em relação ao que já acontece hoje.
Ainda assim, há um ponto que o BCE aponta com frequência como uma das motivações para implementar o euro digital: “reduzir a dependência da Europa de prestadores de serviços de pagamento não europeus”, como as americanas Mastercard e Visa.
Ainda assim, sobram dúvidas sobre de que forma é que o euro digital vai mesmo ser usado e como vai ser integrado nos sistemas de pagamento que já existem atualmente. O próprio BCE ainda não tem uma resposta definitiva e a apresentação que faz desta nova moeda assenta, muitas vezes, em conceitos idealizados, mas não fechados.
Por isso mesmo, o projeto piloto será essencial para afinar todo o conceito e chegar a conclusões.
BCE quer meio de pagamento digital universalmente aceite
De acordo com o BCE, a adoção do euro digital iria proporcionar aos consumidores “algo que ainda não existe”, ou seja, uma forma de pagamento digital aceite universalmente em toda a Zona Euro.
Se olharmos para as informações partilhadas pelo banco central e para as conclusões de um relatório sobre sessões de trabalho que juntaram prestadores de serviços de pagamento, comerciantes e consumidores, podemos começar a perceber melhor qual será a ideia.
Por exemplo, quando paga com notas e moedas noutro país da Zona Euro, esse pagamento é aceite e está isento de custos. As notas de euro tanto valem em Portugal como na Alemanha.
Por outro lado, os cartões que usamos para fazer pagamentos no dia a dia costumam ter, regra geral, duas marcas de pagamento associadas. Uma é a Multibanco, e a outra costuma variar entre Mastercard, Maestro ou Visa. É por isso que, quando faz um pagamento numa loja, tem de escolher a marca com que quer pagar.
A marca Multibanco só funciona em Portugal, pelo que nos pagamentos além fronteiras tem de confiar na Mastercard ou Visa. Mas o BCE quer reduzir a dependência de prestadores não europeus. Ora, sem estas duas marcas americanas, os consumidores portuguesas ficariam impedidos de pagar com cartão fora do país.
É aqui que entraria o euro digital, uma forma de pagamento aceite em toda a Zona Euro sem restrições, como as moedas e notas. Mas atenção, a integração em cartões ainda não é uma certeza. Da mesma forma, o euro digital poderia estar disponível em aplicações como o MB Way ou apps equivalentes noutros países.
Tudo isto são apenas possibilidades que o BCE coloca em cima da mesa, mas sem certezas de que será adotado desta forma. Até porque outra ideia é haver uma app própria para o euro digital.
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Enviar dinheiro a um familiar de visita a Portugal será mais fácil
Como é que faz se quiser enviar dinheiro a um familiar ou amigo de visita a Portugal? Uma opção é ter dinheiro físico e fazer o pagamento dessa forma. A outra é fazer uma transferência bancária para uma conta estrangeira. O MB Way só funciona quando associado a cartões portugueses.
Com o euro digital, o BCE quer terminar com este entrave e permitir que quaisquer duas pessoas da Zona Euro possam fazer pagamentos entre si de forma digital.
“Poderia fazer pagamentos diretos, de carteira a carteira, utilizando um telemóvel ou smartwatch, de forma tão simples como entrega notas e moedas a um amigo que lhe emprestou dinheiro. Com o euro digital, tal funcionaria com ou sem ligação à Internet”, explica o Banco Central Europeu.
Acima de tudo, e como já referimos acima, o BCE quer reduzir a dependência de soluções de pagamento não europeias. Estas funcionariam apenas “para pagamentos não euro ou como produtos premium”, explica o banco central.
Sabia que…
Apenas oito países da Zona Euro têm sistemas de pagamento nacionais como, por exemplo, o Multibanco. Além de Portugal, só a Bélgica, a
Bulgária, a Dinamarca, a Alemanha, a França, a Itália, a Eslovénia e Malta.
De acordo com o BCE, em 2022, apenas 39% dos pagamentos na Zona Euro usaram estes sistemas. Os restantes 61% usaram sistemas de pagamento internacionais, como a Mastercard e a Visa.
Para o banco central isto é um problema porque “os consumidores dependem de um pequeno número de empresas não europeias que dominam o mercado”.
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Perguntas frequentes
O Banco Central Europeu quer que o euro digital seja uma solução equivalente ao numerário (moedas e notas) que possa ser usada para fazer pagamentos eletrónicos em estabelecimentos comerciais, na internet ou entre pessoas.
Apesar de ainda não ter definido um limite, essa é uma preocupação do BCE, que planeia que tal venha a ser decidido.
“Os utilizadores só poderiam deter um montante limitado de euros digitais na sua conta. Isso evitaria saídas excessivas de depósitos bancários e ajudaria a preservar a estabilidade do nosso sistema financeiro, mesmo em períodos de crise”, explica.
No segundo semestre de 2027.
Se tudo correr bem, o BCE planeia que o euro possa ser emitido a partir de 2029. No entanto, tal está dependente das conclusões do projeto piloto e da aprovação da legislação necessária.
