O Banco Central Europeu iniciou o ciclo de agravamento de juros em junho, voltou a subir as taxas na reunião recente de 10 de setembro e deu claros sinais de que poderá não ficar por aqui no combate à escalada da inflação que está a ser motivada pelo impacto do conflito no Médio Oriente.

A atualização das projeções macroeconómicas, o conteúdo do comunicado do banco central e as palavras de Christine Lagarde na conferência de imprensa deixam pistas firmes de que o BCE tem a intenção de efetuar mais subidas de juros no curto prazo, colocando a política monetária num patamar que visa arrefecer a economia para limitar a subida dos preços.

O aumento em setembro colocou a taxa dos depósitos nos 2,5%, o nível mais elevado desde março do ano passado. De acordo com a negociação no mercado de futuros, os investidores estão agora à espera de mais três subidas de 25 pontos base nos próximos 12 meses, o que colocará a taxa dos depósitos acima dos 3%.

De acordo com as indicações deixadas pelos membros do Conselho do BCE às agências de informação internacionais, a próxima subida pode surgir já em outubro, pelo que não é de descartar que o patamar dos 3% seja atingido ainda este ano. A última reunião de 2026 acontecerá a 17 de dezembro.

O impacto da guerra

Este cenário contrasta fortemente com aquelas que eram as perspetivas no início do ano, pois o mercado aguardava a manutenção dos juros ao longo de 2026. O BCE tinha concluído o ciclo de corte de juros em junho de 2025, depois de ter conseguido trazer a inflação para a meta dos 2% após uma “batalha” de três anos.

O início da guerra no Irão, no final de fevereiro, alterou totalmente a narrativa, pois provocou uma subida acentuada nos preços das matérias-primas, o que fez soar os alarmes junto dos bancos centrais perante o perigo de uma nova escalada da inflação.

Depois de ter cometido o erro de responder tardiamente à subida das cotações do petróleo e gás natural na sequência da guerra na Ucrânia em 2022, desta vez o BCE optou por uma reação proativa. Uma postura que o banco central pretende reforçar, até porque do Médio Oriente não vêm sinais de que a produção e transporte das matérias-primas energéticas possam normalizar no curto prazo.

Mais de seis meses depois do início da guerra no Irão, o petróleo voltou a negociar acima da fasquia dos 100 dólares, acumulando uma valorização próxima de 70% em 2026. O gás natural europeu transaciona acima dos 80 euros por MWh, o nível mais elevado desde o final de 2022 que quase triplica a cotação no final do ano passado.

Inflação em rota ascendente   

Este ressurgimento nas cotações do petróleo torna praticamente inevitável uma subida mais acentuada na inflação nos próximos meses, que agravará a pressão para o BCE endurecer a política monetária. O índice de preços no consumidor da Zona Euro aumentou em agosto a um ritmo homólogo de 3,3%, o que representa um máximo de três anos, sendo que no mês passado as cotações do petróleo e gás natural estavam substancialmente mais baixas.  

No comunicado onde anunciou a última subida de juros, o BCE avisa que a inflação da Zona Euro deverá ficar “acima da meta dos 2% por um período prolongado”. Projeta que o indicador vai subir para uma média de 3% este ano, tendo revisto em alta a previsão da inflação de 2027 para 2,5% e de 2028 para 2,1%.

Além disso, o BCE adotou uma perspetiva mais favorável para a evolução da atividade económica da Zona Euro, o que confere uma margem mais ampla para subir os juros sem arriscar uma recessão económica. Os economistas do banco central antecipam agora que o PIB dos países que partilham o euro vai crescer 0,9% este ano, acelerando para 1,4% em 2027 e 1,5% em 2028.

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Euribor e yields das obrigações em máximos

Enquanto a economia da Zona Euro continuar resiliente ao choque energético e os preços das matérias-primas persistirem em níveis elevados, o BCE tem caminho aberto para continuar a subir os juros. No anterior ciclo de agravamento da política monetária, em 2022/2023, a taxa dos depósitos chegou aos 4%, mas na altura a inflação atingiu níveis bem mais elevados (superou os 10% em outubro de 2022).

As perspetivas atuais apontam para que o BCE não vá muito além dos 3%, um cenário que está já a ser refletido nos mercados, sobretudo nas obrigações, onde também são percetíveis os receios dos investidores com a degradação das contas públicas a nível global.

A taxa de rendibilidade (“yield”) das obrigações alemãs no prazo de referência a 10 anos atingiu um máximo desde 2009, altura em que a economia global sofreu uma grave crise financeira. Deu um salto de 30 pontos base desde o início de agosto, refletindo a recente escalada nos preços do petróleo. No prazo a 2 anos, mais sensível à evolução da política monetária do BCE, a yield avançou para máximos de 2023 acima dos 3%, sugerindo que o mercado está a incorporar a possibilidade de a taxa de juro do banco central chegar a esta fasquia no atual ciclo.

No mercado interbancário também é notória esta expetativa de que o BCE vai continuar a apertar a política monetária. A taxa Euribor a seis meses avançou para 2,8% no dia seguinte à reunião do BCE, o que representa um máximo desde novembro de 2024. No prazo a 12 meses, a Euribor já está em máximos de agosto de 2024 nos 3,16%.

Estes valores mostram que o mercado está a dar como certo, pelo menos, um aumento de 25 pontos base na taxa dos depósitos do BCE nos próximos seis meses e dois até setembro de 2027. Um fardo para as famílias que têm crédito e um desenvolvimento favorável para quem tem as poupanças aplicadas em produtos de baixo risco, como é o caso dos Certificados de Aforro.

Dependentes do petróleo

As expetativas para a evolução do conflito no Médio Oriente têm sofrido oscilações bruscas ao longo dos últimos meses, ao sabor das também repentinas alterações de estratégia de Donald Trump. Tal tem motivado uma forte volatilidade nos preços do petróleo e outras matérias-primas energéticas, tornando ainda mais complicada a missão dos bancos centrais para definirem a política monetária neste ambiente de extrema incerteza.

A estratégia do BCE tem passado por atuar em função dos dados económicos e projeções para a evolução dos indicadores de inflação e atividade económica. Daí que as atuais expetativas de aperto da política monetária do BCE possam aliviar se os números da inflação forem mais contidos nos próximos meses, e/ou a economia da Zona Euro inverter a trajetória favorável dos últimos meses.

Por outro lado, se a inflação acelerar de forma mais pronunciada e a economia continuar a resistir, o BCE fica pressionado a atuar de forma mais agressiva, aumentando a probabilidade de subidas consecutivas de juros em outubro e dezembro. Tudo vai depender do curso do conflito no Médio Oriente e da reação do mercado petrolífero, que já está há mais de seis meses sujeito a uma forte restrição do lado da oferta. O BCE não tem poder para influenciar as cotações do petróleo, mas já mostrou que consegue travar a inflação através de subidas de juros.

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