No verão de 2022, meses depois do início da guerra na Ucrânia e com os bancos centrais a darem início a um agressivo ciclo de subidas de juros para tentar conter uma inflação galopante, poucos poderiam antecipar que estava prestes a arrancar um dos períodos mais fortes de ganhos nas bolsas mundiais.
Há quatro anos existia um consenso de que a economia global caminhava para uma recessão mas, ao invés, surgiu um poderoso ciclo de valorização das ações, sobretudo nos Estados Unidos. O índice norte-americano S&P500 atingiu um mínimo a 12 de outubro de 2022, acumulando na altura uma queda de 25% face ao pico alcançado antes do regresso da guerra a solo europeu. No mês seguinte, ficou para a história o lançamento do ChatGPT, o modelo de Inteligência Artificial da OpenAI, que veio revolucionar a economia mundial e também os mercados financeiros.
A evolução das bolsas é feita de ciclos, consoante os ativos estão numa fase ascendente ou descendente. Para classificar estes períodos, está convencionado nos mercados que, quando um ativo desce mais de 20% face ao máximo anterior, está em “Bear Market”. Passa a “Bull Market” quando esse ativo acumula uma valorização de 20% face ao anterior mínimo. O urso ilustra o movimento descendente pois ataca de cima para baixo, enquanto o touro representa a alta nos mercados pois ataca de baixo para cima.
O índice S&P500 subiu mais de 20% desde o mínimo de 12 de outubro de 2022 e desde então nunca observou uma correção de magnitude superior a 20%, pelo que está em “Bull Market” há quatro anos. O entusiasmo com a Inteligência Artificial tem sido suficiente para anular os efeitos desfavoráveis que aconteceram nos últimos quatro anos. Até aqui, as ações globais resistiram a subidas de juros dos bancos centrais, persistência da inflação em níveis elevados, choques energéticos a nível global, uma crise na banca regional norte-americana, forte instabilidade geopolítica, guerra comercial originada por Donald Trump e outras políticas pouco convencionais do presidente dos Estados Unidos.
De seguida, dez gráficos que marcam este “Bull Market”, acompanhados de uma pequena análise.
S&P500 sobe 117% em quatro anos
O índice que agrupa as 500 maiores empresas norte-americanas mais do que duplicou desde que iniciou o “Bull Market”. Atingiu 123 máximos históricos de fecho em pouco mais de mil sessões deste período, o que demonstra como a trajetória ascendente foi quase contínua. O agravamento das yields das obrigações em 2023, as tarifas recíprocas de Trump, em 2025, e o início da guerra no Irão provocaram correções significativas, mas o mercado recuperou rapidamente, persistindo o otimismo dos investidores com a Inteligência Artificial e evolução resiliente da economia global. Nestes quatro anos, o valor das companhias do S&P500 aumentou uns impressionantes 40 biliões de dólares.
Tecnológicas lideram ganhos
Se o S&P500 marca uma valorização espetacular neste período, o Nasdaq Composite consegue um desempenho ainda mais impressionante. O índice que agrega sobretudo tecnológicas norte-americanas valoriza 161% desde o início do “Bull Market”, mais do dobro da valorização do Dow Jones (77%) no mesmo período. Este índice também integra algumas tecnológicas, mas é composto sobretudo por empresas de outros setores, traduzindo um retrato mais fiel da economia real. Apesar desta diferença, o Dow Jones também apresenta um registo muito favorável, demonstrando que investir nas ações norte-americanas nos últimos quatro anos foi uma estratégia acertada.
Resultados poderosos dão confiança
As épocas de apresentação de resultados trimestrais têm sido decisivas para impulsionar o sentimento dos investidores, com os números acima das estimativas reportados pelas empresas a debelarem vários “ventos contrários” e preocupações. Os lucros das empresas do S&P500 deverão acelerar em 2026, com a taxa de crescimento a triplicar face à registada no ano passado. Para 2027, os analistas antecipam uma nova subida de dois dígitos. Estes resultados poderosos são fundamentais para a atratividade das ações, pois permitiram manter os múltiplos de avaliação em níveis contidos. As cotadas do S&P500 estão atualmente a negociar a cerca de 20 vezes os lucros estimados para os próximos 12 meses, pouco acima da média a 10 anos (em redor de 18 vezes) e afastado do máximo observado nestes quatro anos (acima de 23 vezes em 2025).
A explosão das ações da Nvidia …
A Nvidia é a estrela incontornável deste “Bull Market”. Se há quatro anos a Nvidia era sobretudo conhecida pelas suas placas gráficas e pelos chips utilizados em computadores de “gaming”, atualmente é a cotada mais valiosa do mundo, dominando a indústria dos semicondutores para Inteligência Artificial. Além disso, detém posições acionistas relevantes em diversas empresas deste setor, desde clientes a fornecedores, e até companhias rivais. De um valor de mercado inferior a 300 mil milhões de dólares em outubro de 2022, a Nvidia apresenta atualmente uma capitalização bolsista próxima dos 6 biliões de dólares. Nestes quatro anos, as ações acumulam uma valorização de 1.853%.
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… à boleia de resultados fulgurantes
A escalada das ações da Nvidia foi acelerando à medida que a companhia apresentava, trimestre após trimestre, resultados cada vez mais elevados, com uma taxa de crescimento que ainda não dá sinais de abrandamento. Na totalidade do ano fiscal de 2022, a empresa obteve receitas de 27 mil milhões de dólares, sendo que no segundo trimestre do ano fiscal 2027 (terminou em julho deste ano) ficou próxima dos 100 mil milhões. Um valor quase quatro vezes superior num período quatro vezes mais curto. Com uma margem de lucro líquida que se mantém confortavelmente acima dos 50%, a Nvidia deverá fechar o atual exercício com lucros próximos de 250 mil milhões de dólares, estando os analistas a projetar receitas acima de 600 mil milhões de dólares no próximo exercício.
Empresas de IA disparam
A Nvidia é a estrela mais cintilante deste “Bull Market”, mas não a única. A lista das dez empresas do S&P500 que mais valorizaram nestes quatro anos está repleta de empresas tecnológicas, todas elas ligadas à indústria da Inteligência Artificial. Destacam-se várias empresas que fabricam chips, como a Micron Technology (memória), AMD (principal rival da Nvidia) e Broadcom, mas também companhias que produzem discos rígidos. A GE Aerospace é a única intrusa neste grupo, mas também a companhia que se separou da General Electric é vista como beneficiária do boom da Inteligência Artificial, o que mostra como o impacto da tecnologia é transversal. Com uma valorização próxima de 500%, a fechar o ranking está a Meta Platforms, uma das empresas que está a ser vista como vencedora no mundo da Inteligência Artificial.
Investimento em infraestruturas de IA dispara
Os últimos anos têm sido marcados pelo anúncio de investimentos massivos das grandes tecnológicas em infraestruturas de Inteligência Artificial, com o objetivo de seguirem na linha da frente do desenvolvimento da tecnologia. Embora esta estratégia tenha afastado alguns investidores destas empresas, que são conhecidas por “hyperscalers”, beneficiou claramente as empresas que produzem os produtos utilizados nos data centers, com destaque para os chips. As estimativas da IDC apontam para um investimento em infraestruturas de Inteligência Artificial de 500 mil milhões de dólares este ano, saltando para 1,2 biliões de dólares em 2030. Apesar de implicarem uma taxa de crescimento média anual acima de 30%, estas previsões podem ser classificadas de conservadoras. O Goldman Sachs estima que a fasquia de 1 bilião vai ser atingida já este ano, mas ao contrário da IDC têm em conta o investimento global, além de infraestruturas.
Tecnológicas ganham peso
A elevada concentração dos ganhos num conjunto escasso de empresas é considerada um dos “calcanhares de Aquiles” do atual “Bull Market”, pois deixa os índices acionistas mais vulneráveis e dependentes do rumo destas cotadas. As 10 companhias com maior preponderância no S&P500 têm atualmente um peso de cerca de 40% no índice, o que contrasta com a fatia de 28% há quatro anos. As três maiores (Nvidia, Apple e Microsoft) representam 20% do S&P500, um terço do peso das restantes 490 cotadas. Acresce que estas 10 empresas estão todas ligadas à tecnologia, pelo que uma tendência negativa do setor vai exacerbar a queda do índice. Em outubro de 2022, metade das cotadas deste top10 não era do setor tecnológico.
Ações europeias sobem 64%
As ações das empresas cotadas nas bolsas europeias também registam um desempenho favorável neste período de quatro anos, embora com valorizações mais contidas face às pares norte-americanas e asiáticas. A ausência de um conjunto relevante de tecnológicas no Continente Europeu que estejam a dar cartas na Inteligência Artificial explica a performance mais fraca. A ASML, que produz maquinaria para as fabricantes de chips, é a única cotada europeia com uma capitalização bolsista acima de 500 mil milhões de dólares, enquanto nos Estados Unidos mais de uma dezena de companhias já superaram a fasquia de 1 bilião de dólares. Ainda assim, beneficiando com o estatuto defensivo de muitas empresas, o índice pan-europeu Stoxx600 acumula um ganho de 64% desde o início do “Bull Market” em Wall Street. O português PSI, pelos mesmos motivos, consegue fazer ainda melhor (+76%).
Yields das obrigações em máximos
O entusiasmo com o boom de investimento na Inteligência Artificial é um dos motivos que explica o movimento de forte alta nas taxas de rendibilidade (“yields”) das obrigações. As tecnológicas estão a realizar elevadas emissões de dívida no mercado para financiar estes investimentos, concorrendo com os governos na captação de fundos dos investidores, que assim ganham poder para exigir contrapartidas (juros) mais elevados. Além deste fator da oferta, a subida da inflação e deterioração das contas públicas também explicam o salto das yields para máximos de 2002 nos Estados Unidos e 2009 na Alemanha. Uma evolução que acaba por representar uma ameaça para a atratividade do setor tecnológico, que tem uma maior dependência das taxas de juro para determinar a sua avaliação e os seus custos de financiamento.
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Mais um ano de “Bull Market”?
Completado o quarto ano de tendência altista nas Bolsas, falta saber quando vão os ursos roubar o comando do sentimento nos mercados aos touros. Apesar deste período positivo já durar há quatro anos e ser o sexto com retorno mais elevado desde a II Guerra Mundial, os dados históricos jogam a favor dos otimistas que confiam no prolongamento deste movimento de alta pelo menos mais um ano.
Um estudo do Carson Group mostra que, dos cinco “Bull Markets” dos últimos 50 anos que conseguiram completar quatro anos, todos conseguiram “sobreviver” ao quinto ano. E o retorno médio nesse quinto ano foi de dois dígitos. Ryan Detrick, autor do estudo, assinala que “Os ‘Bull Markets’ são como um navio de cruzeiro: depois de ganharem andamento, é difícil fazê-los abrandar, difícil pará-los e muito difícil inverter o rumo.”
Apesar deste otimismo, é certo que esta tendência altista não vai durar para sempre e a lista de ameaças aos touros não para de crescer. Além de os conflitos na Ucrânia e Irão permanecerem com desfechos incertos e serem recorrentes as ondas de receios de bolha na Inteligência Artificial, acresce nesta altura um forte movimento ascendente das yields das obrigações, que tem potencial para acabar com a hibernação dos “ursos”.