Notas de dólar

Kal Penn fez de uma pergunta o centro de um episódio da série documental This Giant Beast that is the Global Economy (2019): “O dinheiro é uma treta?” Ou, por outras palavras, será que o dinheiro é só conversa fiada? Na procura de respostas, o ator que protagonizou as comédias da dupla Harold & Kumar começa por revisitar a crise de 2008 que teve um impacto brutal na vida das pessoas. Nesse momento, a confiança no sistema económico vigente ficou seriamente abalada. E houve quem se perguntasse: seria possível criar um mundo menos dependente do dinheiro?

Em Oviedo, na Espanha, Kal visita um mercado onde se trocam coisas em vez de se recorrer ao dinheiro. É toda uma comunidade de regresso aos tempos da permuta direta; um agregado de pessoas que resolve trocar bens e serviços entre si. Mas e quando se tem algo para a troca que ninguém quer? Eis quando as limitações do sistema se tornam rapidamente patentes. É difícil escalar uma economia apenas sobre o princípio da troca direta.

A atração intemporal do reluzente ouro

Uma economia global, abrangente, requer que se tenha algo que todos queiram. Eis-nos de volta ao dinheiro. Se o dinheiro é considerado valioso, é porque sociedades inteiras lhe dão esse valor. Confiamos que um pedaço de papel tem um determinado valor. Mas, no fundo, o papel-moeda volta sempre ao seu valor intrínseco: zero. Se queimarmos uma nota, puf, lá se foi aquele dinheiro. E quanto àquelas notas de escudos que ficaram esquecidas numa gaveta? Em tempos, compravam coisas; agora, não valem nada. Sim, as notas de escudo foram ótimas como meio de troca, mas não sobreviveram à passagem do tempo.

Já o ouro, isso é uma história com outro peso. Kal Penn aprende (e ensina-nos) que este metal tem um passado de milhares de anos. Na época de Jesus Cristo, uma onça de ouro dava para comprar uma peça de vestuário. Na era de Henrique VIII (século XVI), comprava-se uma armadura com a mesma onça. Pois bem, na atualidade, a mesma onça pode ser usada para comprar um fato à medida numa alfaiataria chique. O ouro é, assim, uma riqueza que se preserva ao longo da História; há milhares de anos que serve para comprar o mesmo tipo de artigos. E isto porque os humanos resolveram atribuir valor especial a um metal que é quase duas vezes mais denso do que o chumbo.

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O faz-de-conta do nosso dinheiro

Após escutar a história do ouro-padrão, Kal Penn volta à lógica por detrás da moeda fiduciária. É uma espécie de faz de conta. Uma entidade imprime dinheiro e assegura-nos que a nota na nossa mão vale o número que estiver impresso nela. Se disser cem, vale cem. E é a crença nesta abstração que permite usar notas nas transações, em vez de estarmos limitados à permuta direta. Mas e se surgisse outra realidade que não estivesse controlada pelos governos e bancos centrais? E se tivéssemos fé noutra entidade?

É esse caminho alternativo que o apresentador investiga no final do episódio: as moedas digitais. Na medida do possível, tenta-se deslindar a complexidade das criptomoedas, dos registos descentralizados para as transações digitais, das instalações de cripto-mineração que consomem enormes quantidades de energia. Através de uma série de entrevistas, Kal descobre como este dinheiro eletrónico está umbilicalmente ligado a um movimento geracional. Houve um grupo de pessoas jovens que, por não acreditar nos governos ou nos bancos, procurou criar algo supranacional: uma moeda sem fronteiras. O novo sistema, totalmente virtual e livre do controle de países ou entidades financeiras, permitiria realizar transações sem a necessidade de um mediador. As interações comerciais deixariam de precisar da tal confiança no que assegura um governo.

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Criptomoedas: Um mundo de incertezas

Apesar de a série documental já ter alguns anos, a situação das criptomoedas mantém-se semelhante ao então ilustrado. Tal como dizia um dos entrevistados, talvez ainda ninguém saiba ao certo o que será das criptomoedas. A fácil e abrangente utilização quotidiana deste “dinheiro” continua a ser uma questão por resolver. Outra, é a volatilidade do preço; a falta de estabilidade é, em si mesma, um desincentivo a gastar criptomoedas. Vamos estar a gastar hoje uma coisa que amanhã poderá valer o dobro?

Enfim, como depois deste episódio podemos precisar de um jantar reforçado, lá vamos nós à procura de umas velhas notas na nossa carteira. E Mesmo que paguemos com o telemóvel, ou com o cartão bancário, estaremos a recorrer ao mesmo princípio de confiança: aqueles números que aparecem no ecrã equivalem a dinheiro. Porque nós, que os temos, e os outros, que os recebem, assim o entendem. E ainda dizem que, neste mundo moderno, já não se pode confiar em nada…

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