Há um fenómeno que se repete todos os anos. Chegamos a dezembro e, de repente, toda a gente se lembra dos PPR.

Não é difícil perceber porquê. Aproxima-se o fim do ano, fazemos contas ao IRS e somos confrontados com a possibilidade de obter um benefício fiscal através de uma entrega num Plano Poupança Reforma. E começa a corrida: quanto tenho de investir? Qual é o melhor PPR? Ainda vou a tempo?

A minha resposta à última pergunta é quase sempre a mesma: talvez vá a tempo de fazer a entrega. Mas isso não significa que esteja a tempo de tomar uma boa decisão.

Um PPR não deve ser escolhido porque o calendário está a acabar. É um produto pensado para acompanhar vários anos da nossa vida e, em muitos casos, décadas. Decidi-lo em poucos dias, tendo como principal preocupação receber mais algumas centenas de euros no IRS, é começar pelo fim.

O benefício fiscal é relevante, claro. Mas não deve ser a razão principal para escolher um PPR, muito menos para escolher “aquele” PPR. Antes disso há perguntas mais importantes: para que quero este dinheiro? Quando vou precisar dele? Quanto consigo investir regularmente? Que risco estou disposto a assumir? E o produto que estou a escolher é adequado a esse prazo e a esse risco?

Há ainda um risco que muitas vezes esquecemos: quando tomamos a decisão apenas pelo benefício fiscal, podemos ficar presos a uma escolha que não foi suficientemente pensada. Se usufruirmos da dedução à entrada e mais tarde precisarmos de resgatar o dinheiro fora das situações previstas na lei, podemos ter de devolver os benefícios fiscais obtidos, acrescidos da respetiva penalização. O incentivo que nos levou a entrar pode, assim, tornar mais difícil sair. É mais uma razão para não escolher um investimento de longo prazo apenas a pensar no próximo IRS.

É esta reflexão que muitas vezes falta quando deixamos a decisão para dezembro.

Costumo comparar esta corrida aos PPR às compras de Natal feitas na véspera. Entramos na loja com pressa, temos pouco tempo para comparar e acabamos por escolher entre aquilo que está à nossa frente. Num presente, uma má escolha pode ter pouca importância. Num produto onde podemos manter o nosso dinheiro durante 10, 20 ou 30 anos, uma escolha desadequada pode ter consequências muito maiores.

E há outro erro que me preocupa: deixar que o benefício fiscal defina quanto devemos investir. A pergunta não deveria ser “quanto tenho de colocar num PPR para maximizar a dedução?”. Deveria ser “quanto preciso de investir regularmente para chegar à reforma com o património de que vou necessitar?”.

Parece uma diferença pequena. Não é. A primeira pergunta olha para o próximo IRS. A segunda olha para os próximos 20 ou 30 anos.

É por isso que acredito que a preparação da reforma se deve fazer em outubro, em agosto ou fevereiro, em vez de deixar para os últimos dias do ano. Faz-se quando definimos objetivos, escolhemos uma estratégia de investimento adequada e criamos disciplina para a cumprir. Em vez de esperar pelo final do ano para fazer uma entrega maior, para muitas pessoas pode fazer mais sentido investir regularmente ao longo do ano. Não porque exista uma fórmula igual para todos, mas porque uma estratégia pensada tende a ser melhor do que uma decisão tomada à pressa.

Também é importante perceber que nem todos os PPR são iguais. Existem soluções com diferentes níveis de risco, garantias, comissões e políticas de investimento. Um PPR adequado para uma pessoa a poucos anos da reforma pode não fazer sentido para alguém de 30 anos com várias décadas pela frente.

É aqui que temos de mudar a conversa. Um PPR não é uma decisão fiscal. É uma decisão financeira com consequências fiscais. E a ordem é importante.

A fiscalidade pode tornar um bom investimento mais interessante. Dificilmente transforma um produto desadequado numa boa escolha.

Por isso, este ano, antes da habitual corrida de dezembro, vale a pena parar. Se já tem um PPR, perceba onde está investido, quanto paga em comissões e se continua adequado aos seus objetivos. Se ainda não tem, não escolha um apenas porque o prazo está a terminar.

A reforma constrói-se durante décadas. Não faz sentido decidir todos os anos o seu futuro financeiro na última semana de dezembro. Se está a ponderar subscrever ou reforçar um PPR este ano, comece já a analisar as opções. A decisão deve ser pensada para as próximas décadas, não para a próxima declaração de IRS.

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