O Banco de Portugal publicou mais um estudo onde analisa a evolução do património das famílias portuguesas, que contém várias conclusões interessantes, destacando-se estas três:
- A mais evidente, e pouco surpreendente, diz respeito ao peso substancial do imobiliário nos ativos dos portugueses, representando metade de toda a riqueza.
- Outra, que também é expectável, mostra que os portugueses continuam a colocar nos depósitos bancários uma fatia considerável das suas poupanças.
- A terceira, que deve ser vista como benigna, está relacionada com a disposição crescente das famílias para aplicarem as poupanças em ativos mais arriscados.
Ou seja, o estudo do Banco de Portugal mostra que os portugueses continuam a ser sobretudo proprietários, colocando uma parcela muito elevada da sua riqueza na casa própria ou para gerar rendimento. Contudo, também é possível concluir que, apesar do conservadorismo da aposta nos depósitos, os portugueses estão atualmente mais capitalistas.
Riqueza aumenta
A ideia de um maior apetite pelos ativos de risco já tinha sido transmitida no estudo que o Banco de Portugal publicou em julho. Esta nova análise, que avalia a forma como evoluiu e se distribuiu a riqueza das famílias em Portugal, dá conta de um progresso favorável ao longo dos últimos 15 anos, sobretudo devido aos imóveis e aos ativos financeiros.
A riqueza das famílias portuguesas ascendia a 1,196 biliões de euros no final de 2025, o que corresponde a um aumento de 480 mil milhões de euros, ou 67%, face ao registado em 2010. Este universo que mede a riqueza das famílias contempla imóveis, depósitos bancários, participações em capital e outros ativos, deduzido das respetivas dívidas (habitação e outros fins).
Em participações de capital, que correspondem a ações em empresas cotadas e não cotadas, as famílias tinham 126,6 mil milhões de euros em 2010, numa altura em que a economia global estava a recuperar de uma grave crise financeira e caminhava para a crise da dívida da Zona Euro, que afetou Portugal de forma mais intensa. No final de 2025, esta rubrica já somava 255,3 mil milhões de euros, o que representa um aumento de 102% em 15 anos.
A duplicação do valor investido em ações (cotadas e não cotadas) ao longo de 15 anos já merece destaque, sobretudo porque o ritmo de crescimento foi muito superior ao das restantes classes de ativos que compõem a riqueza das famílias. O valor dos imóveis subiu 50%, dos depósitos aumentou 81% e dos outros ativos cresceu apenas 3%.
A evolução do valor dos imóveis acaba por ficar muito abaixo da subida dos preços das casas que foram vendidas neste período (+161%, de acordo com a Fed de St. Louis). Ou seja, o património das famílias com imóveis terá aumentado sobretudo devido ao fator preço e não devido ao aumento do parque habitacional na posse das famílias.
Os depósitos aumentaram de forma muito expressiva, validando a postura conservadora dos portugueses. Mas o valor “parado” nos bancos em 2025 já era igual ao que estava aplicado em participações de capital, quando há 15 anos a diferença era de 14 mil milhões de euros a favor dos depósitos.
Ao longo deste período, o valor investido em ações também superou a fatia aplicada na categoria outros ativos, o que sugere igualmente um maior apetite pelo risco. Nesta categoria estão incluídos títulos de dívida, fundos de investimento e outros ativos não financeiros, pelo que o aumento de apenas 3% neste universo é compatível com uma transferência de investimento de ativos menos arriscados para ações.
O facto de a categoria participações de capital incluir ações cotadas e não cotadas não permite aferir a dimensão exata do reforço do investimento dos portugueses nos mercados acionistas. Mas o crescimento significativo nestes 15 anos confirma que as ações cotadas são uma opção mais frequente para as famílias aplicarem as poupanças e o rendimento obtido com estes ativos está a assumir um papel mais relevante no crescimento da sua riqueza.
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Ações ganham peso
A análise aos dados do Banco de Portugal mostra de forma bem clara que as participações de capital foram a categoria que ganhou mais peso no património das famílias. Em 2025 representavam 21,3% da riqueza e 18,8% dos ativos, o que compara com 17,7% e 14,4%, respetivamente, em 2010.
Os imóveis continuam a representar mais de metade do património das famílias (59,2% da riqueza e 52,1% dos ativos em 2025), mas o peso era significativamente superior há 15 anos, altura em que o imobiliário representava dois terços da riqueza dos portugueses.
Na evolução da composição dos ativos das famílias, o que salta mais à vista é o domínio do imobiliário, mas também o peso crescente das participações em capital, que já “apanharam” os depósitos bancários.
A importância dos imóveis no património das famílias representa a aposta dos portugueses na aquisição de habitação própria, uma dinâmica cada vez mais complicada devido à subida expressiva dos preços das casas. Esta valorização dos imóveis contribuiu de forma notória para o aumento da riqueza das famílias, mas a aposta mais substancial nas ações também criou condições para retornos muito significativos.
Embora não seja possível apurar em que ações investiram os portugueses e o peso das que estão cotadas, as variações dos índices acionistas neste período são muito expressivas. Excluindo os rendimentos com dividendos, o MSCI World, que mede o desempenho das ações mundiais, acumula uma valorização próxima de 500% desde o início de 2010.
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Ações concentradas nos mais ricos
Além de mostrar como está distribuída a riqueza das famílias por classes de ativos, o Banco de Portugal também analisou a distribuição por nível de riqueza. Para tal, ordenou as famílias pelo valor da sua riqueza líquida, dividindo-as em três grupos: os 50% de famílias com menor riqueza líquida (abaixo da mediana), os 40% seguintes (entre a mediana e os 10% de famílias com maior riqueza líquida) e o Top 10%.
As conclusões apontam para uma elevada desigualdade entre as famílias portuguesas, embora relativamente estável ao longo dos 15 anos da análise. Os 10% mais ricos concentravam 59% da riqueza líquida total em 2025, enquanto os 50% com menor riqueza líquida detinham apenas 6%. Em 2010, o Top 10% detinha 57,7% da riqueza das famílias, enquanto a metade mais pobre controlava 6,6%.
A desigualdade é evidente em todos os ativos, mas bem mais expressiva nas participações de capital, categoria onde estão os empresários (detêm ações das suas empresas) e os investidores (detêm ações de empresas cotadas nos mercados). Os 10% mais ricos controlam 83% de todas as participações de capital, num total de 212 mil milhões de euros, mostrando que quase só os mais ricos são empresários e investem no mercado de capitais.
39 mil milhões de euros (15%) estão na posse dos que se situam entre a mediana e os 10% mais ricos, enquanto a metade das famílias mais pobres detém apenas 4,2 mil milhões de euros em ações (2% do total).
A desigualdade é ainda mais evidente na categoria outros ativos (Top 10% controla 88%), mas menos acentuada no imobiliário e nos depósitos. A fatia dos 10% mais ricos controla 39% dos imóveis e metade dos depósitos, enquanto os 40% restantes detêm 46% dos imóveis e 38% dos depósitos. Já a metade mais pobre detém apenas 15% dos imóveis, indiciando que muitos nesta faixa não têm casa própria.
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