Depois de três anos consecutivos de valorizações muito acentuadas nas Bolsas globais, 2026 volta a ser bastante favorável para os investidores em ações. A generalidade dos índices acionistas mundiais conseguiu ganhos de dois dígitos na primeira metade do ano, um período marcado pela guerra no Irão e pela renovada euforia com os progressos da Inteligência Artificial.
Mas estes seis meses foram tudo menos um período tranquilo para os investidores, com os mercados a serem condicionados por uma elevada volatilidade e momentos conturbados. O conflito no Médio Oriente alterou de forma pronunciada aquelas que eram as narrativas dos analistas no início do ano, o que provocou uma mudança brusca na dinâmica da generalidade dos ativos cotados.
Estes seis meses nos mercados podem ser divididos em três fases bem distintas:
- Janeiro/fevereiro. Nos primeiros dois meses de 2026 as ações negociaram em alta e em território de máximos históricos, com as Bolsas europeias na dianteira devido às perspetivas favoráveis para a economia e a ser evidente alguma exaustão no movimento de alta das tecnológicas norte-americanas.
- Março. O início da guerra no Irão provocou uma escalada nos preços do petróleo, o que gerou receios de recessão na economia mundial, acompanhada por uma subida em flecha da inflação. As ações sofreram correções pronunciadas, o dólar ganhou força, o ouro afundou e as yields das obrigações agravaram-se.
- Segundo trimestre. A guerra que era para demorar dias arrastou-se no tempo, mantendo fechado o Estreito de Ormuz, mas os sinais de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão convenceram os investidores de que um alívio das tensões não iria demorar a chegar. Contudo, foi a publicação dos resultados do primeiro trimestre que ditou uma inversão da tendência negativa, com as empresas a apresentarem números robustos e perspetivas animadoras para o resto do ano. Esta tendência foi sobretudo evidente nas tecnológicas, que deram confiança aos investidores para continuar a apostar em força na Inteligência Artificial.
Melhor trimestre desde 2020
Estas três fases distintas nos mercados explicam porque é que olhar apenas para a variação dos ativos no primeiro semestre está muito longe de contar a história do que se passou nestes seis meses nos mercados financeiros.
Se, em março, as ações mundiais sofreram descidas acentuadas, revertendo os ganhos de janeiro/fevereiro, o segundo trimestre fica marcado por fortes ganhos. O MSCI ACWI, índice que mede o desempenho das Bolsas mundiais, disparou 15% em abril, maio e junho. O norte-americano S&P500 (+15,2%) e o europeu Stoxx600 (+11,9%) registaram o melhor trimestre desde 2020, período em que as Bolsas recuperaram das fortes quedas motivadas pelo início da pandemia. As praças asiáticas conseguiram valorizações ainda mais expressivas, com o Nikkei (Japão) a avançar 37,3% e o Kospi (Coreia do Sul) a disparar 67,9%.
A correção nos preços do petróleo foi determinante para a evolução favorável das ações globais, pois aliviou os receios de estagflação na economia global. Depois de ter disparado 95% no primeiro trimestre (maior subida desde a Guerra do Golfo nos anos 90), o Brent deslizou 38% nos três meses seguintes (maior queda desde a pandemia) e está agora afastado dos três dígitos. No conjunto do semestre, a matéria-prima conserva uma valorização considerável (20%).
Apesar do disparo das yields em março, as obrigações soberanas da Europa e Estados Unidos deram um retorno positivo aos investidores no semestre e nos últimos três meses. A descida do petróleo também foi determinante para esta evolução, pois retira pressão para os bancos centrais apertarem a política monetária.
O dólar foi um dos ativos que mais beneficiou com o impacto da guerra do Irão, invertendo a debilidade que vinha a mostrar nos meses anteriores. O índice do dólar valorizou 3% no semestre, período em que o euro recuou na mesma dimensão face à divisa norte-americana. Já o ouro foi um dos ativos mais penalizados, sofrendo uma queda de 14% no segundo trimestre. A Bitcoin também perdeu brilho, registando uma queda de igual dimensão.
A força dos chips
O primeiro semestre foi dominado pelas questões geopolíticas e pelo renovado entusiasmo com o progresso da Inteligência Artificial. Mas, ao contrário do que sucedeu nos anos anteriores, 2026 está a ser marcado por uma evolução distinta no setor tecnológico.
As cinco tecnológicas norte-americanas conhecidas por hyperscalers (Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle), pretendem investir 750 mil milhões de dólares este ano para reforçar a sua capacidade de computação e ofertas na cloud. Os montantes têm sido revistos em alta trimestre após trimestre, o que beneficia sobretudo as companhias ligadas às infraestruturas para suportar o desenvolvimento da Inteligência Artificial.
Destaque neste contexto para as empresas de chips, que estão a brilhar intensamente este ano. O Philadelphia Semiconductor Index, que agrupa as empresas de chips, marcou um ganho recorde de 87,9% no segundo trimestre e perto de 100% no primeiro semestre. O índice da Bolsa da Coreia do Sul, dominado pelas empresas de chips Samsung Electronics e SK Hynix, disparou 68% no segundo trimestre e mais do que duplicou no semestre.
Já as Sete Magníficas, que lideraram os ganhos nas Bolsas nos três anos anteriores, registam um saldo negativo no primeiro semestre deste ano. Um desempenho desfavorável que é explicado pelos receios do mercado com os elevados investimentos que estas empresas estão a efetuar para liderar a corrida da Inteligência Artificial.
As companhias de software estão a passar por uma fase ainda mais complicada, devido à ameaça que os progressos da Inteligência Artificial vão ter na sua atividade, substituindo muitos dos serviços que oferecem atualmente aos seus clientes. O índice do setor em Wall Street acumula uma queda próxima de 20% desde o início do ano.
A Microsoft ilustra da melhor forma estas duas tendências. A gigante do software, que integra o lote das Sete Magníficas, registou em junho a desvalorização mensal mais forte desde 2000 (-17%). Desde o início do ano acumula uma desvalorização de 22% e a sua capitalização bolsista, inferior a 3 biliões de dólares, já não está muito longe do valor de mercado da SpaceX, empresa de Elon Musk que protagonizou em junho a maior operação de entrada em Bolsa (IPO, na sigla em inglês) de sempre.
Foco no segundo semestre
Com a generalidade dos índices acionistas já a negociar em máximos históricos e tendo em conta o elevado nível de incerteza que persiste, vários analistas estão a estimar para o segundo semestre um movimento de correção mais pronunciado do que os que se têm verificado. Mas a verdade é que todos estes períodos negativos têm sido seguidos de recuperações robustas, pelo que é nesta altura arriscado prever um topo nas Bolsas.
A evolução das ações na segunda metade do ano vai depender de um conjunto de fatores, com destaque para os cinco descritos em baixo:
Resultados a crescer
Os resultados do primeiro trimestre foram essenciais para validar o otimismo que reina nas Bolsas, sendo também primordial que a tendência persista. As expectativas são animadoras, para as cotadas norte-americanas e europeias.
Os lucros das empresas do S&P500 subiram 29,4% no primeiro trimestre, duplicando aquelas que eram as previsões de crescimento no início do ano (14,4%). As previsões dos analistas apontam para que as taxas de crescimento permaneçam acima de 20% nos três trimestres que restam de 2026 e continuem com dois dígitos ao longo de 2027.
Os resultados líquidos das cotadas do Stoxx600 aumentaram 11,8% no primeiro trimestre, bem acima dos 2% estimados no início do ano. Segundo as previsões dos analistas, a taxa de crescimento vai acelerar nas próximas épocas de apresentação de resultados, chegando aos 30% no quarto trimestre de 2026.
Investimentos e adoção na Inteligência Artificial
As grandes tecnológicas têm vindo a rever em alta os seus planos de investimento, destinados sobretudo a infraestruturas de Inteligência Artificial. Embora este volume crescente esteja a servir de travão à evolução positiva das ações destas companhias, têm contribuído de forma decisiva para a escalada das empresas mais expostas ao ecossistema da Inteligência Artificial. Qualquer sinal de recuo nestas intenções de investimento representará um balde de água fria para os investidores que apostam forte nestas empresas que, neste cenário, podem ter, a breve prazo, o pico dos seus resultados.
Há um outro fator a que é necessário estar atento: a adoção de Inteligência Artificial pelas empresas e particulares. A taxa de crescimento tem sido explosiva, superando até o registado noutras revoluções tecnológicas como a Internet. Contudo, sinais de uma adoção mais lenta do que a atualmente esperada, vão colocar em causa a recuperação dos elevados investimentos que estão a ser efetuados.
Rotação das tecnológicas
As tecnológicas brilharam no primeiro semestre, mas passaram por períodos de quedas acentuadas, com os investidores a realizarem mais-valias e a apostarem nas cotadas de outros setores que ficaram para trás nos últimos movimentos de alta. Esta rotação de investimentos é benigna e essencial para que as Bolsas globais resistam a um potencial movimento negativo mais pronunciado nas grandes tecnológicas.
Petróleo mais baixo
A tendência de enfraquecimento nas cotações do petróleo é essencial para manter as perspetivas para a inflação controladas, reduzindo a pressão para os bancos centrais subirem os juros. Custos mais baixos também representam um aumento do rendimento disponível das famílias, o que se traduz em volumes de consumo mais elevados. O que acaba por se refletir na evolução da atividade económica e resultados das empresas.
Novos IPO
A entrada em Bolsa de gigantes tecnológicas é o que pode apelidar-se de “faca de dois gumes” para as companhias que já estão cotadas. Se pode contribuir para reforçar o otimismo no setor, também direciona capital para mais companhias. Ou seja, para encontrar liquidez para investir nestes IPO e não reforçar demasiado a exposição ao setor, os investidores podem vender ações de tecnológicas já cotadas.
Por outro lado, os IPO de companhias como a OpenAI e a Anthropic só vão trazer otimismo se as ações evoluírem em alta após a estreia em Bolsa. Sendo empresas ainda com prejuízos e elevados volumes de investimento, podem dececionar o mercado com resultados desfavoráveis, gerando pessimismo no setor como um todo.
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