Imagem representativa da compra de falsos amigos por dinheiro

Nina Simone – Nobody Knows You When You’re Down [1965]

Entre as famílias ricas, não será história rara a de alguém que gastou uma fortuna a viver despreocupadamente. O personagem deste tema de Nina Simone parece saído de um romance de Scott Fitzgerald. Ei-lo a levar os amigos para uma noitada das grandes, regada a champanhe, vinho, uísque, aguardente e tudo o resto que for minimamente alcoólico. Abundam os sorrisos, os abraços, as juras de amizade eterna… até que, dá-se a queda, uma queda sem fundo que deixa o protagonista na miséria. Sem dinheiro, o protagonista descobre que já não tem ninguém à sua volta. Agora um mero pobretanas, o antigo ricalhaço nem sequer encontra um sítio para ficar. Os tais amigos, sem exceção, abandonaram-no à sua sorte. «Ninguém nos conhece, quando estamos sem um tostão», conclui. Mas, e se ele conseguir endireitar a vida? Ah, então, «lá vêm eles todos», a relembrá-lo de que são amigos de longa data. Nessa altura, talvez se consiga agarrar ao que aprendeu com tanto custo: «Ninguém quer saber de nós, quando estamos na mó de baixo». Por isso, quando voltar a ter uns dólares na mão, o homem saberá o que fazer: vai guardá-los, ciosamente, sem cair na cantiga dos falsos amigos.

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Jorge Ferreira – “O Dinheiro” [1983]

O cantor popular português Jorge Ferreira também se debruçou sobre o tema das amizades interesseiras. «Quando a vida corre bem nunca nos falta os amigos», diz-se logo no primeiro verso da canção intitulada “O Dinheiro”. Quem tem carteira recheada «faz grandes amigos». Mas, segundo a sabedoria desta letra, isso são apenas amizades passageiras. Se a vida passa a correr mal, então só vão sobrar os inimigos. É «como o carro marca fina, quando falta a gasolina, ali para e não vai mais». O problema, para Jorge Ferreira, é ainda mais profundo, pois «do dinheiro nasce a inveja, nasce o crime e a ambição». E da ambição nasce a maldade, que anda a destruir a humanidade. Rimou, tal como rima a ideia de que um aldrabão ganha sempre um quinhão superior ao dos outros.

Noutro tema do mesmo artista, o dinheiro «é uma grande ilusão», pois é por causa dele que existe tanta traição. Neste “Dinheiro Traiçoeiro e Ilusão”, deixa-se novo aviso para se ter cuidado com os “amigos” que vêm ao cheirinho do dinheiro ou com os “amigos” que alisam as costas de alguém. O mais certo é não serem verdadeiros. «Por isso digo e realço, nisto não sou pioneiro / Se não quer amigo falso nunca mostre seu dinheiro».

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Paulinho da Viola – “Pecado Capital” [1975]

Como cantou Paulinho da Viola, «dinheiro na mão é vendaval», principalmente se estivermos a falar de um sonhador, capaz de se enganar a si próprio. Ah, se fosse rico, pensa ele, certamente teria muitos amigos, seria feliz, teria uma vida completa… Ilusões? «Quanta gente aí se engana / E cai da cama / Com toda a ilusão que sonhou.» Essa grandeza, seja sonhada ou real, acaba por desfazer-se, «quando a solidão é mais».

Fora do quarto do sonhador, a vida prossegue, difícil. Cada um por si, nenhum por todos:

Quando o jeito é se virar

Cada um trata de si

Irmão desconhece irmão

Viver não é um sonho; é uma coisa séria, a exigir soluções práticas, como ter dinheiro na mão. E é nessa luta, nesse vendaval por existir, que o sonhador se descobre cada vez mais sozinho.

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