Quando pensamos em necessidades básicas dos mais novos, muitas vezes pensamos no direito a ter uma família, uma casa, a ir à escola, a ter comida na mesa e roupa lavada. Aquilo de que nos esquecemos é que, além das necessidades básicas relacionadas com as condições de vida e necessidades fisiológicas, existe um conjunto de necessidades emocionais essenciais ao bom desenvolvimento de todas as crianças, sem exceção. A resposta consistente (não perfeita!) por parte dos cuidadores a estas necessidades contribui de forma substancial para o desenvolvimento saudável de relacionamentos, do sentido de identidade e para o bem-estar geral.
Neste Dia da Criança, esta crónica tem como objetivo lembrar os adultos de que apenas o amor não chega. É, certamente, dos elementos mais importantes: mas para educar uma criança saudável, que se tornará um adulto adaptado, são necessários mais ingredientes.
Felizmente, muitos de nós repararemos, à medida que lemos, que há muitas destas necessidades às quais já estamos a responder, mesmo sem saber! Assim sendo, fica o elogio e o convite a que essas respostas se tornem ainda mais intencionais. Por outro lado, ao percebemos que não estamos a responder a algumas, podemos refletir sobre que fatores estão a contribuir para isso.
Necessidade emocional essencial de vinculação
A vinculação é dos conceitos mais importantes no que diz respeito à relação com uma criança (e na verdade, ao longo da vida). Significa que os adultos de referência são uma base segura e que funcionarão como modelo relacional para outras interações fora do núcleo familiar, influenciando fortemente a forma como os mais novos vão estabelecer amizades e outras relações, por exemplo no que diz respeito aos papéis que adotam nas dinâmicas relacionais, a confiança nos outros e a capacidade de resolver conflitos. Mas a vinculação não impacta apenas as capacidades relacionais da criança: permite que explore o mundo de forma autónoma, quando tem a certeza de que os cuidadores a irão proteger; promove a regulação emocional através da co-regulação (a ideia de que um adulto regulado ajuda outro significativo a regular as suas emoções); potencia um sentido de identidade e autoestima fortalecido, ao sentirmo-nos valorizados, cuidados e vistos pelas figuras de vinculação e estimula o desenvolvimento cognitivo e aprendizagem porque o sentido de segurança permite uma exploração mais eficaz das brincadeiras e do mundo lá fora.
Necessidade emocional de liberdade
Há algumas décadas, a criança era vista como um membro passivo dentro da família. As suas opiniões, perspetivas e necessidades não eram tão valorizadas como são atualmente. Felizmente, a ciência ajudou-nos a compreender que ver uma criança como uma pessoa, por si mesma, promove a vivência de uma vida adulta mais saudável. Assim sendo, quando falamos de liberdade, neste ponto, falamos da permissão para que a criança expresse livremente o que pensa e sente (atenção que isto não quer dizer que pode comportar-se como quer, e aqui entrarão os limites que abordaremos mais à frente); o que gosta e o que não gosta; o que precisa e, ainda, que possa tomar decisões. Não devemos, no entanto, levar estas recomendações à letra e sem flexibilidade cognitiva: a criança deve tomar decisões dentro do que é razoável na família. Será que faz mesmo diferença levar a camisola azul em vez da vermelha? Será que não fará sentido escolher o seu pequeno-almoço se a opção permanecer saudável? Se não quer brincar com determinado amigo porque lhe fez mal, não seria importante dar-lhe esse espaço? Mais do que oferecer liberdade, trata-se de oferecer a oportunidade de perceber que é ouvida e que a sua opinião é valorizada, mesmo que os adultos nem sempre possam aceder às suas escolhas (seja por proteção – não vamos deixar que desça uma rampa de bicicleta sem capacete por muito que queira – ou porque, naquele momento, determinada escolha não é adequada para a criança ou família).
Necessidade emocional de autonomia
Intimamente ligada ao ponto anterior, este parâmetro é igualmente fulcral: devemos mostrar consistentemente à criança que é livre de se tornar quem ela quiser, fazendo um esforço para que não seja uma extensão de nós. Ser desportista até podia ser um sonho nosso… mas, e se a nossa criança gostar mais de artes e o desporto tiver de ficar apenas como um elemento importante para a sua saúde? Deve ser dada oportunidade à criança de mudar de opinião, de crescer, de errar e voltar a tentar novamente, de desenvolver novas competências e de receber, por parte dos adultos, feedback construtivo que a ajude a melhorar – nunca a ser perfeita.
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Necessidade emocional de espontaneidade e brincar
E esta?! Felizmente, é cada vez mais claro que este é um direito e não um privilégio. Brincar é um mecanismo de aprendizagem primordial nos mais novos e não deve ser negado, mas antes priorizado. Observo muitas crianças, em consulta, que deixaram de ter possibilidade de se aborrecer, ser espontâneas e decidir como ocupar o seu tempo de forma informal: à segunda e quarta têm natação, à terça e quinta ballet, sexta teatro na escola e ao sábado ainda calha haver recital! Isto tudo depois de saírem da escola às 17h. Ora bem, como sobra tempo para brincar e até… respirar? Há muitas crianças exaustas pela sua carga horária pesada. E, ao mesmo tempo que sabemos que isto é tantas vezes fruto de um sistema que não prioriza a família e que, para tantos, não se trata de uma opção, não é correto deixar de alertar para o impacto que o excesso de atividades sem tempo livre pode ter no desenvolvimento socioemocional. É suposto que as crianças se possam divertir, explorar e aventurar-se (joelhos esfolados fazem parte do processo!). Devem ter tempos aborrecidos o suficiente para que tenham de usar a sua imaginação e criatividade. Ficaremos abismados com o que uma criança sem “nada para fazer”, inventa.
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Necessidade emocional de limites
Por último, mas tão essencial como os pontos anteriores: os jovens precisam de limites e regras de forma a navegar o mundo de forma saudável e segura. É neste ponto que muitos pecamos. Achamos que, para oferecer as necessidades acima, não devemos impor limites nem regras definidas. Mas os limites são fundamentais, e não são sinónimo de adultos rudes e inflexíveis. Mas de adultos que sabem balizar o que uma criança pode ou não fazer, que a deixa explorar até que já não seja possível e que ofereça firmeza, mas gentileza nas suas palavras e gestos. Os limites funcionam duplamente: são simbólicos, mas também logísticos. Simbólicos no sentido em que ajudam os mais novos a compreender até onde podem ir e que, se se excederem, há um adulto que vai interferir e protegê-los ou chamá-los à atenção e, no fundo, que se importa; e logísticos porque fazem, por exemplo, uma família e uma escola funcionar. Se saíssemos de casa à hora que cada um quer ou se na sala de aula pudéssemos estar todos a fazer coisas diferentes a todo o momento, o mundo seria um caos. Assim sendo, vamos oferecer limites e regras claros, consistentes, realistas e que continuem a respeitar as crianças – sem zanga ou humilhação, mas com “nãos” firmes e claros. Ajudemos ao treino de autocontrolo e ensinemos a responsabilização pelos nossos próprios atos, diariamente.
As necessidades alvo de reflexão nesta crónica são fundamentais e estão presentes diariamente na vida dos mais novos – e na verdade, são necessidades fundamentais para todos, ao longo da vida. É importante que possamos passar do abstrato ao concreto e pensar como podemos, na prática, responder de forma consistente a estas necessidades. É de salvaguardar que os mais jovens não precisam de pais perfeitos, mas antes de pais presentes e conscientes. Ser responsivo não significa não errar. Pelo contrário, significa errar, ser compassivo connosco mesmos e tentar novamente. E ser apenas os melhores pais que conseguimos ser, a cada momento.
Que saibamos sempre pedir ajuda quando nos sentirmos assoberbados e que façamos as pazes connosco mesmos quando não estamos tão disponíveis. Porque a vida real vai acontecer e não vai ser sempre fácil assegurar todas as frentes. Feliz Dia da Criança, brinquem!
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