Imagem de um reformado feliz na praia

Embora a preparação da reforma dependa de decisões financeiras de longo prazo, muitos continuam a adiá-la – em Portugal, quase um terço das pessoas admite estar a deixar esse assunto para mais tarde, por considerar que ainda tem muito tempo pela frente para pensar nele, como mostram os dados do Barómetro da Reforma do Doutor Finanças.

Mas a verdade é que quanto mais cedo começar a preparar a reforma, maior é a probabilidade de conseguir manter o seu estilo de vida quando deixar de trabalhar. Até porque, como a generalidade das pessoas reconhece, a pensão de velhice dificilmente será suficiente para suportar o nível de despesas que têm atualmente. As projeções não enganam: segundo dados da Comissão Europeia, em 2050, a reforma corresponderá a menos de 40% do último salário.

Por isso, mesmo que não consiga prever ao detalhe de quanto dinheiro vai precisar daqui a 30 ou 40 anos, deve definir os seus objetivos e começar a poupar o quanto antes. Para ajudá-lo nessa tarefa, enumerámos cinco erros comuns que deve evitar para não comprometer a sua estratégia.

1. Não adie: Nunca é cedo de mais para começar a poupar para a reforma

Se continua à espera do momento certo – que o salário aumente, as despesas com os filhos diminuam ou o crédito habitação fique pago – corre o risco de relegar, sistematicamente, para segundo plano a preparação da reforma. E, à medida que o horizonte temporal até esse momento da vida se estreita, diminui também a sua capacidade de acumular poupança.

É por isso que, quanto mais cedo criar uma rotina de poupança consistente, melhor. Mesmo que com pequenos montantes. Para isso, defina uma percentagem fixa do seu rendimento mensal – 10% ou 5%, por exemplo – para destinar, logo no início do mês, à poupança para a reforma. Dessa forma, evita poupar somente o que sobra ao fim do mês – um dos maiores erros no que toca à poupança, de um modo geral.

Criar uma transferência automática para uma conta poupança ou um produto de investimento pode ser uma estratégia eficaz, pois reduz a probabilidade de gastar esse dinheiro de outra forma.

Leia ainda: Reforma: Portugueses prudentes, mas 31% adiam planeamento

Otimize o seu orçamento.
Consolide os seus créditos e consiga mais dinheiro ao fim do mês.

2. Tire partido do tempo e dos juros compostos

Quando o objetivo é preparar a reforma, o tempo é um dos ativos mais valiosos que tem ao seu dispor. Mesmo quando o rendimento disponível parece insuficiente, pequenos montantes ao longo de muitos anos podem fazer a diferença.

Na realidade, começar cedo com pequenas quantias é mais eficaz do que esperar vários anos para investir montantes mais elevados. E isso é, sobretudo, fruto do chamado efeito da capitalização. Quando opta por determinados produtos, como certificados de aforro, planos de poupança reforma (PPR), fundos de investimento ou ETF, que funcionam, em muitos casos, segundo o princípio dos juros compostos, o dinheiro cresce não só com base no montante investido, mas também nos rendimentos obtidos. Ou seja, os rendimentos geram mais rendimentos. É precisamente este efeito multiplicador que faz dos juros compostos um dos maiores aliados de quem começa cedo a investir para a reforma. Mas, afinal, como funcionam?

Como funcionam os juros compostos?

Os juros compostos permitem que os rendimentos obtidos por um investimento sejam reinvestidos, passando também eles a gerar novos rendimentos. Ou seja, em vez de receber juros apenas sobre o capital inicialmente aplicado – como acontece com os juros simples – passa a receber juros sobre o capital e sobre os juros acumulados ao longo do tempo.

Exemplo

Duas pessoas investem 100 euros por mês durante 20 anos.
Aplicam o dinheiro num produto com uma rentabilidade média anual de 5%.

Uma investe num produto com juros simples e a outra num produto com juros compostos.

No produto com juros compostos, os rendimentos gerados em cada período são reinvestidos e passam também eles a produzir novos rendimentos. Veja os resultados:

Juros simples

Juros compostos

Poupança mensal

100€

100€

Prazo

20 anos

20 anos

Total investido

24.000€

24.000€

Capital acumulado

36.000€

40.845€

Ao fim de 20 anos, o investidor que aplicou as suas poupanças no produto com juros compostos acumula quase mais de 5 mil euros adicionais, apesar de ter investido exatamente o mesmo montante e de a rentabilidade ser igual à do produto com juros simples (não foram contabilizadas eventuais comissões e impostos). Este efeito tende a ser mais evidente quanto maior for o horizonte temporal.

Leia ainda: Juros compostos: como tirar partido deste multiplicador de investimentos

3. Saiba de quanto dinheiro vai precisar quando deixar de trabalhar 

Poupar para a reforma sem definir um objetivo é deixar ao acaso uma estratégia que deve ser o mais completa e concreta possível. Sem ela, pode até conseguir juntar algum dinheiro, mas dificilmente saberá se esse montante será suficiente para manter o nível de vida que pretende

Ainda assim, esta é a realidade da maioria dos portugueses. Recorrendo novamente aos dados do Barómetro da Reforma do Doutor Finanças, 73% dos portugueses não sabem quanto precisam de acumular para a reforma para manterem o mesmo nível de vida

Embora não seja possível prever com exatidão quanto irá gastar daqui a três ou quatro décadas, isso não significa que não possa fazer uma estimativa e ajustá-la ao longo do tempo. Por exemplo, imagine que o seu agregado familiar vive atualmente com um rendimento líquido de 2.000 euros por mês. Se, quando se reformar, passar a receber 1.400 euros, isso significa que terá de amealhar um total de 144.000 euros até à reforma, se quiser compensar essa diferença de 600 mensais. Para perceber como chegar a este valor total e fazer a sua própria estimativa, veja os passos que se seguem.

Como saber quanto tem de poupar para a reforma?

Para poder estabelecer um objetivo de poupança concreto, há um conjunto de passos que pode seguir:

  1. Simule o valor da sua pensão. Pode recorrer ao simulador da Segurança Social, que lhe dará um valor aproximado (Atenção: o valor da pensão está dependente de um conjunto de variáveis, nomeadamente a evolução do seu salário, pelo que este montante é meramente indicativo);
  2.  Faça uma lista com as despesas que espera manter e os respetivos montantes – habitação (prestação da casa, condomínio, IMI, renda, etc.), energia e outros serviços essenciais, seguros, despesas com saúde, lazer, etc.
  3. Subtraia ao valor da pensão, o montante que precisará para fazer face às despesas. O total corresponde ao valor mensal de que precisará para além da pensão de velhice.
  4. Multiplique esse valor mensal por 12 meses e, depois, por 20 (o número de anos que, em média, poderá viver após a idade legal da reforma).

Exemplo

Valor da reforma: 600€
Despesas estimadas: 800€

600€ – 800€ = -200€
200€ x 12= 2.400€
2.400€ x 20= 48.000€

Objetivo de poupança para a reforma: 48.000€

Embora se trate de uma projeção, ter um valor indicativo em mente permite-lhe estabelecer uma meta concreta para a poupança. A partir daí, poderá calcular quanto precisa de investir regularmente e que produtos lhe permitem alcançar esse objetivo, ajustando o plano ao longo do tempo.

4. Não desvalorize o impacto da inflação na poupança

Ao definir quanto gostaria de acumular para complementar a reforma, há um fator que não deve ignorar: a inflação. Embora o seu impacto possa parecer pouco significativo de um ano para o outro, ganha muito mais expressão em horizontes de 20, 30 ou 40 anos.

Na prática, a inflação reduz o valor do dinheiro ao longo do tempo. Isto significa que, mesmo que consiga atingir o objetivo de poupança que definir hoje, no futuro, esse montante poderá ser insuficiente para suportar as despesas que terá quando deixar de trabalhar.

Por isso, ao planear a reforma, é importante optar por soluções que, a longo prazo, tenham potencial para preservar o valor real da poupança. Idealmente, a rentabilidade obtida deverá ser suficiente para compensar a inflação e, se possível, superá-la.

Contudo, importa lembrar que, regra geral, os produtos com maior potencial de rentabilidade também apresentam maior risco. Por esse motivo, a estratégia de investimento deve ser sempre adequada ao seu perfil de risco e ao horizonte temporal até à reforma.

5. Reveja a sua estratégia de poupança ao longo do tempo

A estratégia de poupança que faz sentido aos 30 anos dificilmente será a mais adequada aos 50. Ainda assim, muitas pessoas começam a poupar para a reforma, subscrevendo um PPR ou outro produto, sem terem o cuidado de verificar, ao longo do tempo, se essa solução continua a responder às suas necessidades. Mas esse é um erro crasso.

Quem ainda está em início de carreira tem um horizonte temporal mais longo pela frente e, à partida, maior capacidade para recuperar de eventuais oscilações dos mercados. Logo, poderá investir em produtos com maior risco, cujo rendimento será, em princípio, superior. À medida que a reforma se aproxima, o objetivo deixa de ser apenas fazer crescer o capital. Passa também por protegê-lo e reduzir a exposição ao risco.

Isto não significa que haja uma receita única, ideal para todas as pessoas. A escolha dependerá sempre do perfil de risco, dos objetivos e da situação financeira de cada um. Ainda assim, rever a estratégia de poupança, adaptando-a à fase da vida em que se encontra é fundamental para a sustentabilidade das suas poupanças.

PPR: Um exemplo de como ajustar a estratégia

Os PPR são um bom exemplo de como a estratégia de poupança deve evoluir ao longo do tempo. De forma simplificada, existem duas modalidades de PPR:

  • Fundos PPR, que investem em ativos como ações e obrigações e, por isso, apresentam maior potencial de rentabilidade, mas também maior volatilidade;
  • Seguros PPR, que, normalmente, garantem o capital, oferecendo um potencial de valorização mais reduzido.

Tendo em conta estas diferenças, um fundo PPR poderá ser mais adequado para quem ainda tem várias décadas pela frente até à reforma e consegue suportar oscilações no valor do investimento. Já à medida que esse momento se aproxima – por volta dos 55 anosé recomendável optar por soluções mais conservadoras, como um PPR sob forma de seguro, para reduzir o risco de perdas significativas.

Assim, tão importante como a escolha de um produto de poupança é garantir que a estratégia acompanha a evolução da sua vida financeira. Para além do horizonte temporal até à reforma, sempre que existam mudanças relevantes – como o aumento do rendimento, uma eventual compra de casa, o nascimento de um filho, etc. – vale a pena verificar se a estratégia de poupança se mantém alinhada com os seus objetivos.

Leia também: Posso fazer transferências de PPR?

Checklist: Está a preparar bem a sua reforma?

Preparar a reforma é um processo contínuo. Utilize esta checklist para avaliar se está a ter em conta fatores fundamentais para um planeamento sustentável da sua poupança de longo prazo, evitando os erros destacados neste artigo.

  • Já estimou o rendimento que gostaria de ter disponível quando chegar à idade da reforma?
  • Sabe qual poderá ser o valor da sua pensão?
  • Tem um objetivo de poupança?
  • Poupa regularmente?
  • A sua estratégia está adequada à sua idade?
  • A sua poupança está diversificada?
  • Revê o seu plano periodicamente?

Perguntas frequentes

Quanto mais cedo começar, melhor. Mesmo que só consiga poupar pequenas quantias, iniciar a poupança cedo pode fazer uma diferença significativa no capital acumulado.

Nos juros simples, os rendimentos são calculados apenas sobre o capital inicialmente investido. Já nos juros compostos, os rendimentos obtidos são reinvestidos e passam também eles a gerar novos rendimentos. Por esse motivo, quanto maior for o período de investimento, maior será este efeito de capitalização. É também por essa razão que começar a poupar cedo pode ter um impacto significativo no capital acumulado para a reforma.

Não existe um valor universal. O montante depende da pensão que espera receber, das despesas que prevê ter e do estilo de vida que pretende manter. O primeiro passo é definir um objetivo de poupança e calcular quanto precisa de acumular até à reforma.

Comece por estimar o valor da sua pensão através do simulador da Segurança Social. Depois, faça uma previsão das despesas que espera ter quando deixar de trabalhar e calcule a diferença entre esse valor e a pensão estimada. Esse montante dará uma indicação do rendimento complementar de que poderá precisar.

Sim. Ao longo de vários anos, a inflação reduz o valor do dinheiro. Por isso, ao definir um objetivo de poupança, deve ter em conta que o montante necessário no futuro poderá ser superior ao que calcula atualmente.

Sim. À medida que a reforma se aproxima, deve reduzir gradualmente o risco da carteira para proteger o capital acumulado. A estratégia deve ser revista sempre que existam mudanças relevantes na sua situação financeira ou nos seus objetivos.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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