Imagem de uma casa de brincar, representativo da nostalgia e do desejo da casa perfeita

Marisa Monte – “Vilarejo” [2006]

A aldeola imaginada por Marisa Monte é um lugar sereno, «onde areja um vento bom» capaz de acalmar o coração das pessoas. Acede-se por caminhos floridos a esta espécie de paraíso semeado na terra, feito de casas caiadas, quintais com árvores de fruto e vistas desimpedidas das varandas. O videoclipe alterna imagens da artista a interpretar a canção com fotografia de intervenção social e política, a ilustrarem a miséria, a guerra, a violência, a opressão, o desespero, a exploração, a fome, enfim, tudo de que é composto o mundo fora do tal vilarejo imaginário.

Nesse Xangri-lá, o tempo passa mais devagar. Parece sempre primavera e as portas e janelas ficam abertas, para deixar entrar a sorte e as visitas. Quem ali chegar encontrará pão em cada mesa e uma canção de amor para os embalar. Talvez isso seja o suficiente para se querer ficar a viver nessa terra povoada de mães e heróis, a ver os filhos crescerem fortes e sadios, a aprender a andar e a voar, nem que seja através do sonho.

Arnaldo Antunes – “A nossa casa” [2004]

A casa imaginada por Arnaldo Antunes é feita de surrealismos, como ter um rio que a atravessa e um teto estrelado que também tem luar. A gente que ali vive está rodeada de amores-perfeitos e deita-se no mar para dormir. Como a casa parece um ninho, são os pássaros que fazem de despertador. Respira-se ar fresco dentro dela, por causa de um pé de vento e pelo facto de haver uma varanda interior. Ali, os habitantes amam sem esforço, mas rejeitam a posse da casa. Nem sequer há campainha para quem os queira visitar. Mas então, onde fica essa casa? Fica «onde a gente está», «em todo [o] lugar». Porém, o videoclipe da música, realizado por Sérgio Guerra, remete-nos para a periferia de Bié, em Angola. Aí, a câmara segue Arnaldo enquanto ele deambula por ruas de terra batida, a interagir com crianças, a entrar em cabanas, a observar edifícios em ruína. Auxiliado por um coro de meninos e meninas, o artista versa sobre a possibilidade de construir uma casa em qualquer lugar, desde que se consiga enchê-la de… De quê? Cada um encontrará a sua resposta. Nos comentários ao videoclipe, os materiais de construção passam por amor, humildade, fé, esperança, simplicidade, caridade, compreensão, respeito pelos outros… Mas, como de costume, também há vozes do contra: «Muito chato esse vídeo», sentencia alguém.

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Toquinho e Vinícius – “A Casa”

Já pensou, alguma vez que fosse, como seria bom voltar a ser criança? Talvez seja essa a sensação que um adulto pode ter ao ouvir a interpretação musical de Toquinho do poema escrito por Vinícius de Moraes. Neste clássico da literatura infantil, que muitos terão ouvido em criança, descreve-se uma casa absurda, sem teto, sem chão, sem paredes, sem sítio para dormir ou para fazer chichi… Era uma casa que não tinha nada e, ainda assim, não deixava de ser «muito engraçada», talvez por ter sido «feita com muito esmero». E eis-nos novamente crianças, mergulhadas na fantasia e na ingenuidade dos primeiros anos, a desejar viver nessa casa que não tinha nada, no número zero da rua dos Bobos.

Na internet, encontra-se uma versão alternativa, mais ritmada e no embalo das várias vozes do grupo Boca Livre; o videoclipe, ilustrado por animações básicas, esse, já atingiu milhões de visualizações. Pois claro que sim. Aqui, isso faz todo o sentido.

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